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Quizás, quizás, quizás
Ela iria vestir o redingote de chantung misto, marcado por anos de
cabide. Comprou sapatos de camurça para garantir o conforto dos calos,
escolheu meias champagne, finas, escovou a bolsa quadradinha que
combinava e nela guardou o RG, uns trocados e o batom com espelhinho.
Na cozinha, preparou o lanche de todas as tardes: pão de centeio com
café forte, queijo e uns biscoitinhos de polvilho que tirou do saco com
muito cuidado para não riscar o esmalte das unhas pintadas há pouco,
logo após a compressa de água boricada para realçar o íris. Resolveu
mudar o cd que vinha ouvindo há dias por um novo que ganhou da filha.
Apoiada na pia, ameaçou um rodopio. Lembrou-se de Fascinação com Elis e
de quanto tempo não saia.
Faltava completar a vasilha dos gatos. Amanhã resolveria o que fazer com
a ninhada esparramada na área de serviço, forrada de jornal amarelado.
Amanhã também chamaria o encanador. Não tinha que aturar mais os pingos
incessantes da torneira. Passaria antes no banco, para pagar os carnês
e....
Mas hoje não queria pensar nessas coisas, coisas de todo dia. Queria
ater-se aos preparativos. Mas neles habitava a poeira da memória. Olhou
as mãos sobre a mesa. O marido costumava dizer que eram as partes mais
perfeitas do seu corpo, que alcançavam a temperatura do nascimento. Ele
gostava também do seu colo liso, emoldurado por decotes bem cortados.
Ela até que se divertira com aquelas provocações ...
Mas hoje não queria pensar nessas coisas. Iria varrer logo a cozinha e
tomar um banho morno. Antes, ligar para a filha que conseguira o convite
tão concorrido para o baile daquela noite. Tinha prometido.
Falaram-se mais do que ela havia previsto, a filha fez recomendações,
não exagerar no perfume, não grudar na amiga, beber uma cervejinha até a
risada sair solta, circular pelo salão para ser notada, não recusar
convites de dança, reparar no lustre de cristal, ligar no dia seguinte.
Ela não podia se atrasar, já tinha reservado o táxi e tantas coisas por
fazer... O marido já estaria aos gritos com ela - tartaruga, é,
tartaruga. Anda como tartaruga, come como tartaruga .....
-Pois então deixo o casco descansando ao lado da fotografia, pensou
alto.
Desejava o vazio dos inícios.
Ela percorre a galeria de passagem da catraca até o salão deslumbrada
com as luzes piscantes e a alegria das bandeirolas penduradas. A
orquestra já toca, o animador apresenta os cantores do palco e anuncia,
a curtos intervalos, uma atração especial para o final da noite. A pista
ainda está tímida, no banheiro a euforia dos retoques, os xixis
nervosos. Procura uma mesa com a amiga. Sentam.
Em frente, uma mesa só de homens. Ruidosos. Enquanto ela conta as
franjas da toalha, ajeita o cabelo da testa e finge não reparar, um
deles se aproxima e, sem formalidade alguma, a convida para dançar.
Valsam. Um e um. Ocupando espaços, volteam em direção ao centro da
pista. A música está no fim mas a orquestra emenda a seqüência -Podemos
continuar? Nervos de Aço, agora um quadrado, na paradinha o corpo
levemente inclinado.
Chega de Saudade.- Linda melodia, dá vontade de ficar ouvindo....não,
não quero parar, dançando a gente sente melhor a música.Tocava muito no
rádio, eu ouvia enquanto costurava. Trabalhei em ateliê, agora perdi a
prática. -Você ? Parece que dança a vida inteira.
De Conversa em Conversa, seleção de bossa nova.
-Bom beber um guaraná. Ele leva no jardim. Lua cheia.
-Quer entrar? ela pergunta
-Cansada? ele pergunta.
Moça Bonita, Esse Seu Olhar -Sabe, nem tinha reparado na beleza dessas
letras.
Rodando, ele conta que foi campeão de remo, fôra da turma de pescaria do
clube e exibe os músculos.
-Você gosta de Cachito?
Um para trás, um para frente, alternando chá-chá-chá. Com Volare tudo
bem, agora os pés estão mais leves. A mão dele nas costas dela a mantém
firme. Rodopiam.
Quizás, Quizás, Quizás, colando e separando, colando e separando.
Eles Precisam Saber, Os Botões da Blusa encerram a seleção.
Burburinho no salão. O apresentador sorri para a platéia e fica segundos
em silêncio antes de anunciar a tão esperada atração. Suspense.
Ele envolve com as duas mãos úmidas, a mão dela. Estão ofegantes. Mas
ela já começa a sentir o calo.
-Agora vamos esperar a atração.
-Vamos, sim.
-Olha, foi um prazer, ótimo como há muito não me divertia.....
- Eu também.
- Talvez, um dia?
- Um dia. Talvez.
MIRIAM MERMELSTEIN é professora de literatura infantil em oficinas
de formação de professores do ensino infantil e fundamental. Mestranda
em Literatura pelo Mackenzie. Escritora de livros infantis e de contos
publicados na antologia "Qua4ta-feira" 2003.
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