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O saco dos mil e um
contos de Nilto Maciel: suas alegorias, fantasmagorias e cíclicas
perplexidades literárias
Com as edições
envelopadas de contos e poemas (O Saco – anos 70 do século XX –
Fortaleza – Ceará) Nilto Maciel começou a se tornar notável e valorizado
na cena literária nacional. Além de divulgar outras escritas expressivas
e representativas da sua geração (marcada pelo intento de resistir à
cultura sacralizada pelos governos autoritários que nos cercearam de
1964 até 1985), este escritor cearense refez seus percursos e resgatou
suas fontes literárias (A. Kuprin, Émile Zola, Graham Greene, Júlio
Verne, Menotti Del Picchia, Taunay, Camilo Castelo Branco, José de
Alencar, Lima Barreto, Castro Alves, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert,
Marquês de Sade, Blaise Pascal, G. Hegel, K. Marx, Paul Verlaine,
Musset, Machado de Assis, Alexandre Dumas e muitos mais) e recitou-as em
seus casos para desfechos inquietantes ou desconcertantes
(desconstrutivistas e minimalistas) às nossas fisionomias e olhares
boquiabertos. Picasso explica. Com seu estilo compassado, criativo e
conciso, Nilto Maciel construiu pontes/ alusões inusitadas entre o seu
imaginário literário e as mais ricas obras da arte de narrar e especular
ao longo dos séculos XX e XXI. Por exemplo:
Franz Kafka e Nilto
Maciel
“Ah, disse o rato, “a
cada dia que passa o mundo se torna mais estreito. No começo ele era tão
amplo que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz por ver
à distância, finalmente, as paredes da direita e da esquerda, mas essas
longas paredes dirigem-se tão rápidas uma para a outra, que já estou no
último quarto e lá no canto fica a ratoeira para onde eu corro.” _”Você
só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o. (Franz Kafka –
em: Pequena Fábula).
“Um passarinho cansou
de voar e pousou num galho. Cantou uma ode à tarde e tencionou
alimentar-se. Voou ao chão e defrontou uma serpente. O guizo dela
agitou-se.
_Por que me olhas
assim, cascavel?
O pássaro deu um
saltinho para trás. Melhor não esperar resposta. Saltitou, deu pequenos
vôos ao redor do ofídio.
_Tu me odeias porque
não sabes voar, não é? Ora, se voasses, o que seria dos pequenos seres
como eu? Contenta-te com rastejar.
Cantou trecho da ode à
tarde e riu.
_Também me odeias
porque não sabes cantar? Eu canto porque não conheço o ódio.
Calada, a serpente
mirava o passarinho. E o seduzia com os olhos. Falando e cantando, a
avezinha também mirava a cobra.
E deu-se o bote.”
(Nilto Maciel – Ode à tarde – Pescoço de Girafa na Poeira –
Brasília – Bárbara Bela – 1999 – pág. 30).
Kafka tem a visão do
beco sem saída, Nilto Maciel o vislumbre do fascínio fatal, o primeiro
numa linha horizontal, o segundo com uma síntese vertiginosa entre o
vertical e o horizontal.
Os pesadelos patéticos
da contemporaneidade literária na arte pouco rebuscada de narrar de
Nilto Maciel
Gafanhotos- lagostas
venenosos e disseminadores de pestes (Guerra das Lagostas), menina
fugindo para ser trapezista em circo, biólogo holandês pedófilo morto e
enterrado no quintal porque queria comer o Joãozinho, ave de rapina
devorando vacas, o linchamento do ladrão das cuecas que Carlos comprou e
nem chegaria a usar, Eros e Thanatos copulam na memória do Dr. Paulo da
Santa Casa de Misericórdia (o cadáver da enfermeira amada e o corpo
cortado ao meio da galinha que explorou ainda viva em sua infância), a
Ceia de Emaús pintada por Caravaggio, um neto criado por tios e avós em
meio às diárias rezas e missas, latinórios eruditos (esnobes?) e em
extinção?, o cíclico sono e sonho do homem que não ouvia qualquer
movimento ou ruído numa apocalíptica aldeia (que ainda não morrera mas
não dava mais sinais de vida), a televisão-jaula, castigos para
pecadores, falta de ouvintes para as notícias, línguas vermelhas
lambendo o céu azul e branco, El Greco, cavalos cegos, o reino de seu
pai abarcava o mundo, a vaga luz da lua, o sumiço das alvas coxas da
mocinha, a Sonata Sonâmbula de Francisco Vitória (1731 / 1800),
Barbacena descendo aos precipícios marinhos dos afogados, calhamaços de
manuscritos e clássicos da Antiga Literatura Egípcia, contatos entre
homens de distintas eras e espaços, o jesuíta beijou a pedra negra
sagrada dos muçulmanos, livros raros furtados por bibliófilos na
biblioteca do Vaticano (com a ajuda de Cardeais corruptos?), Florídio
citando trechos do livro Fundamentos do Canibalismo de Sandór
Thökoly, 3 meninos assustados anunciam: “Brejnev morreu.”, leões de um
zoológico devoram Florídio Mandrano, a entrevista chocha do repórter
Guido Mocho com uma eminente personalidade medíocre francesa em visita
ao Brasil, Vitória roubou algum despojo ou a Sonata de D’Andrieu?,
miscelâneas e ecletismos pictóricos, a entrada de Cristo em Bruxelles,
máscaras e esqueletos em barrocos jogos de espelhos, os passos do mortal
Benedito (filho de Deus e da morte), Florinda Bulcão tinha uma baita
mansão na praia do Joá (zona sul carioca), Ruggero sonhava com Claudia
Cardinale, Silvana Mangano, Mônica Vitti, Virna Lisi e se via nas
películas dirigidas por Vitório De Sica, F. Fellini, L. Visconti, M.
Antonioni, Rosselini, P. Paolo Pasolini, B. Bertolucci, Virgulino
Ferreira: o inesquecível rei do cangaço, Il Lampione nunca estreou no
Cine Acaiaca de Belo Horizonte, Covas – o democrata do inferno,
encenações de Nelson Rodrigues (o Rockfeller do teatro contemporâneo
brasileiro), vasculhando o céu com uma luneta e sonhando com a Terra,
uma colcha de veludo prateado sobre a cama de um casal que, em pleno
perigeu e no cúmulo do apogeu da era breganeja canta com ardor o Hino
Em Nome do Desejo e do Amor indiferente ao filme O Anjo Azul
que a Televisão Continental exibiu há quase quatro décadas! A estrela
era Marlene Dietrich!...
JOSÉ LUIZ DUTRA DE
TOLEDO,
escritor, historiador, Mestre em História pela UNESP – Franca / SP desde
Março de 1990; Prêmio Clio-1992 da Academia Paulistana da História;
palestrante em Lisboa e na cidade do Porto em Janeiro de 2000;
professor; bibliotecário e disseminador de embriões de hemerotecas em
escolas da rede municipal de ensino de Ribeirão Preto/SP entre 1995 e
2001.
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