O maniqueu

Na última consulta da tarde, o advogado, trémulo, anunciou ao cliente, que expunha uma nova queixa:

-Sabe, vou deixar de o representar.

E perante o olhar meio atónito, meio desiludido do freguês, o causídico apressou-se a concluir:

-Vai ficar em boas mãos. Passa a ser representado pelo meu colega, o dr. Álvaro...

-Mas, senhor doutor...

-É a vida. A partir de hoje, vai tratar-me por Senhor Governador Civil. E agora tenho de me despachar para ir comprar uma fatiota!

Paulo Avelar Fornelos, 44 anos, era um prof de Direito, com umas poucas horas de barra e meia dúzia de consultas de direitos reais. Tinha ainda fama de dar uns pareceres sobre direitos fundamentais. Quase proscrito no seu Partido Político, ou pelo menos relegado para um mero serviço de comissões e gabinetes de estudos, Fornelos era visto como um low-profile da elite intelectual da força política dominante.


Mas quis o destino e uma amizade dos tempos de Coimbra que o seu telemóvel exibisse uma chamada do Ministério da Administração Interna, convidando-o para o honroso cargo chefe do Distrito. Nada que se parecesse com um plano pré-definido visando resgatar a dignidade da Admistração Pública. Não: era apenas um chamamento de um amigo a quem tinham distribuído uma pasta de cunhas. Ainda hesitou entre deixar o contacto universitário ou optar pelo novo desafio político. Venceu a política, perdeu a região e o País. É que Fornelos nunca deixou de ser um académico desgrenhado, gabaroso nas suas farpelas de couro e bombazina, um magistrado sem norte, conduzido pela visão míope sobre a continente natureza dos cidadãos.


Por isso, ainda não tinha aquecido o lugar e já os jornais davam conta de violentas diatribes. Aliás, logo no alvorecer do seu magistério deu evidentes sinais de querer dividir para se promover. Uma espécie de maquiavelismo orientado à promoção da ideia de estarmos perante um herói contemporâneo, à custa de uma desavergonhada e irritante imparcialidade.

O distrito estava assim dividido: os que enalteciam a coragem do governador, em defesa da minoria étnica, e os que contestavam a sua inabilidade para apagar um incêndio social à beira do incontrolável.

E, entretanto, o que fazia o governador Paulo Avelar Fornelos? Deitava mais gasolina na fogueira. Defendia uns, atacando os outros. E ao defender-se a si próprio acirrava a maioria contra a minoria, que julgava defender de forma altruista.



Foi assim que um cavalo gitano encontrado a comer as favas do quintal do Mendes se transformou num caso nacional, tamanho foi o reboliço e tão acirrada se tornou a contenda entre a maioria e a minoria.

Quem pagou as favas? Aqueles que o governador Fornelos julgava defender e que acabou por conduzir à desgraça.



Passemos aos factos:


Tudo corria como dantes. Mais roubo menos roubo, mais queixa, menos queixa, o convívio entre maioria e minoria ia sendo mantido à custa de preconceitos e de olhos fechados. E as pálpebras que mais se fechavam eram as das autoridades: por um lado, fazendo vista grossa ao contrabando; por outro, ignorando as discriminações negativas.

Até que um dia, um cavalo da minoria foi atropelado pelo tractor do Jacó. Era do mesma laia cavalar que havia enfardado as favas do Mendes.

Os dois incidentes foram consideradas declarações de guerra, que tiraram da sonolência os fiscais camarários. Veio a ordem de demolição e a ciganada viu os tarecos amontoados e rodeados por dois pares de G3, com reforços de atalaia. No meio das operações, soube um repórter que os gnr's deitaram a mão a uns canos de espingarda e, pior do que isso, sujaram as mãos numas gramas de pó branco. Foi então que o clima piorou, veio a imprensa, juntou-se o povo, tocaram os sinos a rebate e acorreram as televisões. Com elas, o governador Fornelos quis entrar na fama, soltando guinchos maniqueístas e esticando a corda dos ânimos:-dum lado o povo racista, xenófobo, inculto, intolerante e atrasado: do outro, os deserdados da sociedade, os coitadinhos dos espoliados, santinhos da silva e vítimas das mais cruéis represálias.

Os espúrios eram assim glorificados e içados á categoria de almas intocáveis.

Consternado, o Dr. Fornelos defendeu a discriminação positiva, como se a Justiça estivesse em passar do 8 para o 800. Não lhe perdoou a turbamalta e brandindo saganhas e varapaus, foices e paralelos, escoltou a guarda até á partida da última carroça.

Pelo meio, alguém empurrou e cuspiu no Fornelos, que teve a insensatez de se meter na boca do lobo. Na maior das indignações, meia dúzia de vizinhos do Gabiru foram identificados para arguidos, à ordem do intelectual Fornelos. Nenhum quis pedir perdão.

Entretanto, os donos da tropelia cavalar, do pó branco e das carabinas sem licença, iam garantindo à Justiça, com a cobertura do Governo Civil, que o único crime era serem pobres e honrados comerciantes de trapos, uns, e de carros importados, os outros mais que tal. Nos telejornais e nos debates do serão, eram chamados os representantes de uns e de outros.

No jornal da terra, um editorial soltava a indignação face aos ataques primários e desproporcionados desferidos contra o povo e os seus autarcas.

- Tenham cuidado, senhores! Esses neuróticos são capazes dos mais intrincados sofismas para envenenar a opinião pública, fazendo-a acreditar que na terra do senhor Fornelos, ele é que está certo. O resto é tudo um bando do racistas! Querem fazer das nossas aldeias um alvo da sua cegueira analítica!?

A vox populi ia mais longe.


- Então o novo governador, armado em carapau de corrida, não veio aqui provocar a nossa ira? Anda metido com eles... Se calhar também mama do contrabando? Lá que o gajo tem cara de drogado, isso não há dúvida...

E outras vozes, mais evoluídas de maneiras, mas nem por isso menos virulentas, rematavam:

- Esse Avelar é capaz de tudo, ele e mais o comissário das minorias étnicas, são capazes de tudo para denegrir a nossa gente, lançando os habituais anátemas.

Costumava o Fornelos, armado em constitucionalista, agarrar-se de imediato aos preceitos da magna carta, para defender a Democracia. Era uma neurose, uma psicose, uma mania de perseguição que lhe estava a causar muitos sabores.

E meses mais tarde, alguém perguntava numa daquelas conversas de café em maré de bonança:

- Já se interregou o pessoal de cá, sobre os motivos que levaram a que o dr Fornelos fosse corrido do Governo Civil? Foi por ser um magistrado consensual? Foi por conseguir resolver o conflito? Ou foi por lançar gasolina para a fogueira?

O manes, o seu amigo comissário, alguns intelectuais de meia tigela e outros maniqueístas promoveram entretanto uma jantarada de apoio à figura do governador filantropo e aos seus tiques humanitários. Esqueceram-se todos, o lobo e a sua alcateia de maniques, que se estava a premiar o maior erro de análise da história política regional, tendo como protagonista um pseudo-aristocrata de esquerda, um expoente da ética obtusa, um candidato ao nobel do lirismo político?

O homem que alguns queriam saudar como herói nacional, tinha afinal apenas como único mérito, com a sua actuação obstinada, ter colocado o povo à beira da guerra civil.

Os que ele pretendia branquear acabaram nas garras da Justiça, com cativeiros de 20 anos por tráfico de pó e posse de armas de fogo.

E no colectivo não ficaram quaisquer dúvidas. Se assim era, como podia um governador defender o clã da heroína e doutros contrabandos!?...

Vexados, atacados das mais infames posturas, os autóctones foram objecto de centenas de reportagens. Mas, agora que o colectivo da vara mista ditara a sua posição, onde estavam as equipas de reportagem para dizer que o povo tinha razão? Onde estava o governador incendiário para se retratar? Onde estava o caluniador confesso? O que fez o dr Fornelos? Ou melhor: o que fazia agora?

Paulo Avelar Fornelos andava nos gabinetes da Europa como se não fosse nada com ele. Esperava com falsa modéstia um destacamento para os confins da África Negra . O que se, para uns, era visto como uma brilhante promoção, para outros só podia ser fruto da acção de alguém menteapto que lhe resolveu pôr os patins; e para muitos outros era um grande alívio e o prenúncio do regresso a uma paz podre, incapaz, contudo, de romper o tecido das relações sociais e comunitárias.

Mas enquanto o Dr Avelar se locupletava de títulos, conferências e palestras a rogo, como se fosse algum Luther King, o clã da heroína via aumentar a desgraça, ao ponto de um dos filhos ter atado um lençol ao pescoço para cumprir a pena lá na terra da segunda oportunidade. Sim, porque um Deus infinitamente misericordioso há-de corrigir aquilo que o povo, na sua santa e ancestral bonomia, foi incapaz de perceber.

Foram mesmo os correligionários de Paulo Fornelos que classificaram de exílio dourado, o seu envio para missões diplomáticas. Oh, suprema ironia! O homem que demonstraram por todas as equações do bom senso não ter um pingo de diplomacia, ia agora resgatar a reputação para longe, bem para longe.


E ainda aqui não falámos da falta de experiência política e de habilidade negocial, atributos que não cabiam na figura de maestro alucinado que exibia o Dr. Fornelos em todas as circunstâncias.

Se queria fazer uma acção exemplar, pondo a nú os laivos de racismo dos indígenas, então o que conseguiu foi dar um mau exemplo.

Ninguém pedia ao senhor Governador que assumisse uma posição neutral.... O que se pretendia era que nunca tivesse saído dos muros da universidade e do seu métier de jurisconsulto.

Que Deus lhe reserve, um digno lugar no purgatório dos fundamentalismos execráveis!

Quanto aos ciganos, ainda hoje se pensa que o maniqueu vertia azeite por um olho e jorrava vinagre pelo outro.

DOMINGOS XAVIER Gomes da Cunha Ferreira Lopes nasceu em Cabreiros, concelho de Braga, há 42 anos. Licenciou-se em Relações Internacionais Políticas e Culturais, na Universidade do Minho e, depois de uma experiência no Ensino e outra no sector bancário, assentou a sua carreira profissional no jornalismo, tendo pertencido aos quadros da Rádio Renascença durante 14 anos. Antes, fundou um jornal local e teve uma passagem episódica pelo Diário do Minho. Foi Presidente do Clube de Jornalistas de Braga, que ajudou a fundar.
Desde Junho de 2002, exerce as funções de Adjunto do Presidente da Câmara Municipal de Vila Verde.
Acaba de publicar, com grande aplauso do público, um livro sobre o "Papa dos Cozinheiros", alcunha que foi atribuída ao grande cozinheiro Padre Machado Rebelo (Abade de Priscos), uma das glórias da gastronomia portuguesa.