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O ciclo de um vocativo
Criei João em prosa e verso. Vocativo da minha solidão. Rima da minha
paixão e superlativo do meu desejo. A escrita, a história, o desenho.
Comecei pelo desenho. Queria que minha ficção tivesse uma imagem que eu
pudesse memorizar e repensá-la sempre ao amanhecer. A primeira idéia de
João foi de uma sombra atravessando uma estrada. Pernas longas, uma
cadência firme ao se mover e muita coerência. João seria coerente da
cabeça aos pés, do amanhecer ao anoitecer. Mas teria de ter uma carência
afetiva não muito comum aos homens. Deveria chorar por amor e ter
desejos simples como o de se levantar no meio da noite para dividir uma
pizza com uma mulher. Mulher, não, comigo! Porque João era meu, só meu,
aliás a idéia de inventá-lo partiu de mim. Nada mais justo do que ser
exclusiva na vida dele.
João haveria de gostar de flores. Flores de qualquer espécie e ser
romântico para que eu não me sentisse ridícula. Teria de ter traços
másculos, simétricos, para compensar a desordem da minha inspiração.
Nele conviveriam o ar despojado de poeta e o arrojo de um intelectual. A
insegurança de um menino e a firmeza de um ancião. O sorriso doce e o
olhar misterioso. O discurso seguro e a liberdade para dizer, vez em
quando, coisas sem nexo. Deveria gostar de ler e, nas tardes longas de
Domingo, abriria o livro vermelho e, na página marcada por uma rosa
seca, leria para mim versos de Fernando Pessoa: "Vem sentar-se comigo,
Lídia, à beira do rio..." e eu, Lídia de todas as horas adormeceria com
as últimas frases de Pessoa: "eu nada terei de sofrer ao lembrar-me de
ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira do rio, pagã
triste e com flores no regaço."
Além da vocação para poesia, João haveria de ser gentil e cavalheiro.
Teria idéias próprias, discordaria de mim algumas vezes e diria "não"
sempre que necessário. Homem decidido que sabe o que quer, a que veio e
para aonde está indo. Um homem que me surpreendesse com jantares à luz
de velas e passeios românticos. Que me acompanhasse numa noite escura e
me acalentasse em minhas frustrações. Que não me deixasse tão solta, nem
tão presa. Que vez por outra jogasse milho aos pombos, pão aos peixes e
gostasse de animais.
E, nessa minha ânsia de tê-lo, atravessei dias e noites insones como uma
deusa a arrastar as tranças compridas, com os olhos sempre postos nas
campinas, no céu, mar e em todas as páginas que pudessem ajudar-me na
construção do meu homem ideal. Busquei o coração de João nas ondas do
mar e sua alma num pássaro leve que só conhece a transparência do mundo.
Eu quis João puro, livre e solto, correndo por algum parque ou por algum
facho de estrela. Dei a ele toda geografia do mundo. Mas que me acenasse
sempre com bandeiras rodeadas de distâncias. Sua maior qualidade? o
amor. Ele haveria de me amar apesar do vento que sopra as palavras para
outras direções, apesar das marés que carregam os navios para outros
continentes e apesar do tempo que teima em soterrar as palavras ditas.
Quando avistei João com flores vermelhas nas mãos, não tive dúvidas em
correr e abraçar aquele corpo ainda cheio de espaços vazios. Eu era um
navio de verão ancorando num mar azul, trazendo alegrias e criando
situações. O mar era calmo, calmo e lento como nós, mas cantava ao longe
uma chuva fininha enfeitiçando nossos olhares. Fomos nos descobrindo,
como quem descobre uma pátria já vista antes no mapa. Linhas conhecidas
no desenho abriam-se num horizonte mágico. Aprendemos os caminhos das
mãos e das pontas dos dedos. Marcamos no mapa nossos pontos de
identificação, medimos nossas distâncias com a língua e quebramos todos
os silêncios com o arfar de nossas respirações. Afora isso, desafiamos
todos os conceitos estéticos com as nossas coreografias noturnas e
dormimos o sono dos bem-aventurados. Tínhamos então o desenho e a
história.
Depois do ápice, João passou a acenar-me cada vez menos. Muitas vezes
perdi o sono imaginando que ele pudesse estar aterrissando em luas de
outros planetas. Descobri cedo que não tinha domínios sobre minha
criação, mais que isso, perdi a sintonia com a minha obra poética.
Tentei consertá-la, reinventá-la, aceitá-la já com outras influências,
detê-la com forças telepáticas... mas, nada. As notícias que me chegavam
a pássaros lentos, já estavam vencidas. João vivia outras paixões.
Paixões caladas, deflagradas, circunscritas.
Numa tarde doente, enquanto eu tentava descobrir o meu erro, meu
primeiro erro, senti os passos surdos de João. Movimentava-se com
incoerência. Estava longe de ser o mesmo. Amor desgovernado pelo vento
dos assombros. Distâncias invertidas, rumos trocados, olhos confabulando
palavras cortantes. Ataquei-o com as forças de uma fera ferida.
Desequilibrei-me e caí com o corpo sangrando. Não sei se foi por defesa,
piedade ou desprezo, sei que João me matou. E deixou flores para
enfeitar minha morte. Terminei como Lídia: "Pagã triste e com flores no
regaço." Fez-se o desenho, a escrita e a história.
LUCILENE MACHADO (1965), é cronista no jornal Correio do Estado -
MS, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e da UBE-MS, Tem
dois livros publicados, um de poesia, outro de literatura infantil.
Possui artigos publicados na Itália, Espanha e Venezuela. Professora do
Departamento de Letras da Universidade do Estado do Mato Grosso.
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