
Ilustração: Bruegel |
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No interior de uma alma
corrida
Ele tinha nome agora. Ele se chamava Martins. Ele se mexia com certa
desenvoltura. Martins gostava de tomar remédios para tosse. Não chegava
a ser um hipocondríaco de plantão. Tinha o hábito de falar com as plantas
quando adoecia. As plantas regadas diariamente à mesma hora.
Martins resolveu então comer aquele peixe de rio e regar as plantas ao
mesmo tempo. As longas espinhas do tal peixe em sua boca faminta. As tais
plantas agitadas pelo vento da noite.
Uma tal espinha agora entalada em sua garganta. As dificuldades
respiratórias e a constatação de que não há ninguém em casa.
Martins tenta se controlar. Tenta engolir a tal espinha. Tenta uma ou
duas ou dez vezes. Martins com os olhos esbugalhados e a tal espinha em
sua garganta inflamada.Lembra-se daquele tal conhaque e a queimação na
mesma naquele bar qualquer.O cheiro de fritura em suas narinas, o dono
do bar com um olhar de antes de ontem.
Lembra-se daquele beijo apressado de sua amante balconista. Aquela
saliva com gosto de café com leite. Aquela saliva com gosto de bala de
menta barata.Aquele corpo perfeito e provocante a se insinuar de forma
única. Tenta engolir novamente o que quer que seja naqueles míseros
instantes. O pedaço de peixe triturado já no seu estômago acostumado à
destruição sistemática pelo óleo de girassol. Ele beija violentamente
aquela mulher que geme e geme e o excita.Sua bermuda está rasgada. Ela
segura o seu membro e o aperta com precisão.Ele gosta daquilo.Ele a
imprensa, do verbo imprensar, contra a parede. Ela pede que ele a possua
ali mesmo.Ele se lembra da tal espinha e se afasta.
Tenta,do verbo tentar,não perder a compostura ou a calma.
Ele agora transpira loucamente. Suas axilas fedem como tudo aquilo que
fede. Ele nunca conseguiu, do verbo conseguir, evitar o odor
insuportável de seus pés. Ele gosta de cremes para a pele em promoção
nas lojas especializadas. A faina diária obscurece um pouco este seu
refinado passatempo. Ele sabe que aquela tal espinha agarrada em sua
garganta o incomodará por alguns dias.
Ele respira e sente sempre uma espécie de pontada quando engole aquele
tanto de feijão com farinha e carne seca.
Ele tinha o hábito de regar as tais plantas. Tinha o estranho hábito de
tirar pequenos pedaços das mesmas e mastigá-los avidamente.
Ele e aquelas plantas na solidão do tal apartamento tarde da noite.
Uma enorme sensação de cansaço se apossa do mesmo subitamente. Ele se
esquece estirado na poltrona durante algumas horas.
Ele se levanta de madrugada e conversa com as tais plantas que o
ignoram. Ele espalha essência de eucalipto pela casa. Gosta do cheiro de
mato e de terra batida. Lembra-se de um tempo qualquer no qual parecia
feliz.
Martins põe-se a andar pelo apartamento à procura de uma tal chave. Abre
e fecha gavetas, abre e fecha o armário da cozinha, abre e fecha o
armário do quarto e abre e fecha tudo aquilo que possa ser aberto ou
fechado.
Ele não acha o que procura.Todos os amigos fora naquele feriado
modorrento. O seu cão de estimação entregue aos cuidados de uma tia
distante. Sua mulher está a viajar com as crianças e a tal espinha em
sua garganta o faz lembrar do fato de que não fazem amor há três anos.
Restam as plantas que o ignoram e a tal espinha de peixe a irritar sua
garganta. O tal peixe de rio que luta desesperadamente para se livrar
daquela isca agarrada em sua boca. A luta entre o peixe e o pescador que
o arrasta lentamente para aquele barco de dimensões mínimas.
Martins, que nunca foi pescador, a comer,do verbo comer, o tal peixe à
beira do rio em companhia do tal ou dos tais pescadores. As plantas
verdes à beira do rio e a farinha branca e o peixe-peixe e a tal espinha
e as gavetas e os armários e as camisas e as calças e as bolsas de couro
e os sacos plásticos e as caixas de papelão e as caixas de plástico e a
caixa de Pandora aberta para que todos os males venham ao mundo.
Martins agora se delicia com a visão daqueles fantasmas noturnos que
desfiam estórias fascinantes. Estórias de pescador naqueles rostos
envelhecidos e esbranquiçados. Martins fecha os olhos e adormece sempre à
beira do velho rio. Ele agora pode ter bons sonhos ou pesadelos
inigualáveis.
Ele ronca discretamente sem incomodar tanto os seus amigos. Sua leve
protuberância estomacal torna o seu corpo um tanto esquisito.
O barulho das águas encontra nos tímpanos de Martins o canal através do
qual estranhas lembranças penetram nos meandros de seus sonhos.
Aquele tal clube com um preço mais do que barato era bastante atrativo
naquele momento.Lembra-se bem de que mal tinha o dinheiro da passagem e
que precisava nadar por recomendação médica. Ele tornou-se o sócio de
número 534 num clube que já existia há 60 anos.Ele agora está sentado à
mesa com uma porção de churrasco de alcatra à sua frente. O guardanapo
de papel mistura-se à gordura de suas mãos calejadas.A porção de batata
frita com farofa e as tais garrafas de cerveja são agora suas
companheiras inseparáveis.
Olha ao redor e pode ver uma centena de corpos ou massas disformes se
deslocando à beira da antiga piscina. Ele então nada faz e ali permanece
no inútil daquela hora. Sua mente se transforma num abismo profundo
quando ele percebe, do verbo perceber, que envelheceu.Ele olha para
aqueles seres que se sentam ostentando os odiáveis pneus na cintura e
bebem e come m tudo aquilo que pode ser bebido ou comido.
Ele percebe que há um tanto de farofa feita com azeite de dendê
entranhada na barba daquele indivíduo com cara de policial fracassado.
Ele se mexe com dificuldade e fala cuspindo o tanto de farofa. Algumas
partículas naturalmente se amontoam em sua barriga. Ele se imagina
entranhado naquele tanto de coisa alguma que se coça indefinidamente.
Lembra-se ainda de uma sensação de extremo prazer que há muito não
experimentava.
Ele esfrega,do verbo esfregar, a sola do pé direito no chão lentamente.
Ele esfrega a sola do pé direito no chão e olha fixamente para a cara ou
para a barba repleta de farofa da massa disforme com cara de policial
fracassado. Ele continua a esfregar a tal sola de seu pé direito no chão
até que a mesma sangre.
Ele vai comendo a tal porção de batatas fritas quentes e se lembra da
espinha em sua garganta. Imagina que a tal quentura das batatas vai
eliminar aquela espinha em sua garganta. Ele bebe cerveja e se entope
das tais batatas. Engole em seco mais uma vez e nada. Sente ainda o algo
pinicando em sua garganta. Ela lá está, firme e intacta como uma torre
qualquer na Europa. Resiste ao tempo,pois já faz algumas horas que ela o
tortura.
Ele tenta se controlar e pensa novamente nas plantas e nas gargalhadas
frenéticas daqueles pescadores à beira do rio. Ele ouve um tiro seco
naquela noite e percebe aqueles semblantes inalterados a tomar o tal
gole de café fresco.
Trata-se de uma noite quente de verão. Ouve-se um estrondo bem adiante.
Alguém deve ter sido executado em função de um velho acerto de contas,
pensa Martins. Os fantasmas pescadores se entreolham e continuam
gargalhando e comendo os tais peixes com as mãos. Percebe ao fundo uma
mudança súbita na paisagem. Percebe que as plantas se movem rapidamente
na direção do rio. Estas plantas crescem de tamanho e começam a
gargalhar freneticamente cobrindo o rio de um verde escuro sem
igual. Tem-se a nítida impressão de que a água está parada.Um grupo de
seis ou sete pessoas despidas agora circula por sobre aquele caminho de
uma margem à outra. Caminham na direção dos pescadores fantasmas, mas
nenhuma delas têm um rosto definido. Os pescadores fantasmas oferecem o
tanto de peixe e elas prontamente aceitam a comida. Vejo apenas bocas que
sussurram algo em seus ouvidos. Eles, os pescadores, balançam a cabeça
afirmativamente e cortam levemente os pulsos daquelas massas disformes..
Os pescadores fantasmas sugam aquele tanto de sangue daquelas entidades
sem rosto.Começam a falar uma língua desconhecida pelo mesmo. O tal café
que não era café, mas outra coisa de que mal tenho idéia. O primeiro
deles toma a faca nas mãos. Arranca o rosto num só golpe.Passa a referida
para o segundo que arranca o seu rosto que passa para o terceiro e assim
sucessivamente.
As plantas abraçam completamente o rio e a floresta é agora o que resta
daquela paisagem sufocante.Martins pode agora sentir o cheiro do mato em
sua alma que rasteja. Os fantasmas trocam de rosto e Martins não sabe
mais quem é quem à beira daquele tal rio. Tudo agora gira com uma rapidez
avassaladora em sua mente afetada por aquele líquido escuro.
Ouve-se mais um estrondo e mais um e mais um e mais gargalhadas e mais
um e a barba repleta de farofa daquele homem no clube e aquele barulho
de sirenes à sua volta e aquelas massas disformes que dançam
freneticamente e aqueles dedos gordurosos que fazem bolinhos de arroz e
os passam de mão em mão e aqueles murmúrios intragáveis que se misturam
ao ruído da urina naqueles banheiros fétidos apesar do fortíssimo
detergente utilizado e aquele ruído de talheres e de gente que vai e vem
tropeçando e caindo no chão e aquele barulho de gente mergulhando na
piscina e os gritos estridentes das crianças pulando na água e o barulho
irritante de uma obra qualquer próxima ao clube e a constante
flatulência daqueles indivíduos próximos a ele.
O clube com a tal água agora meio esverdeada devido à falta total de
limpeza periódica.Aquelas massas disformes que sorriem por entre os
buracos de suas arcadas dentárias. Uma mulher qualquer perde a linha e se
deita no chão e esperneia e se debate como se houvesse se transformado
em qualquer outra coisa que não ela mesma.
O sócio de número tal se lembra do rio quando se encontra à beira da
piscina com os pés na água. O gosto de batata frita em sua boca e também
a tal espinha que o incomoda agora cada vez menos. Ele engole em seco e
cospe um tanto de farofa que agora bóia na tal água meio esverdeada. Ele
estica os braços e as pernas e flutua como uma planta qualquer ou como
um peixe morto ou como um barco vazio no abandono daquela tarde.
Ele engole em seco.A espinha se foi, não se sabe bem como. Restou apenas
aquele hálito insuportável de gordura saturada em sua boca. Aquela
distância enorme entre suas palavras e as coisas ao seu redor. Aquele
apartamento naquele feriado sem graça.
Ele precisa levantar daquele sofá para não sucumbir de vez. Precisa
lavar o rosto e escovar os dentes e tomar café com pão e queijo. Precisa
mastigar aquele pão lentamente e sentir a textura das coisas.Precisa
definitivamente estar, mesmo que por alguns instantes, aqui.
Foi uma noite difícil.
JOÃO AYRES é poeta, contista e compositor de samba de raiz, Tem seus
trabalhos publicados em vários endereços na net. Na mídia impressa está
publicado em várias antologias.
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