
Ilustração: William Roberts |
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Mariana
João estava sentado na beirinha do rio, perto de uma árvore de raízes
nuas. Escura, úmida. Com a bunda fria no chão, um shortinho surrado, as
pernas abertas, os joelhinhos pontudos furando o ar, ele futucava uma
formiga com um graveto. A formiga, amputada, se retorcia e cabaleava. A
cabeçorra pra trás, pra frente, e pra onde mais fosse. Os olhos de João
eram enormes, castos, cor de noz. Ele tinha meleca seca no nariz, uma
tosse estalada, e catarrenta. Quando escorria coriza em direção a boca,
ele arrematava com a língua, e o vento fazia o resto. Os cabelos de
João, eram burro-quando-foge, sujos, empoeirados. JOÃÃÃÃO! CADÊ VOCÊ
MOLEQUE?! João corre pra casa. Descalço, a lama cinza entrando entre os
dedos do pé. A grama molhada.
Mariana coça o nariz, com a mão suja, de sujeira, e sabão. No barracão
do tanque, João para, e espia Mariana pelas frestas da madeira. Mariana,
balança o vestido amarelo morto, com a brisa, as pernas marcadas de
mosquito, arranhos, e maus tratos, que o mato causou. Ela lava a roupa
num tanque de cimento, sujo, e frio. João fica olhando, Mariana nem vê.
Ela é a mais velha dos oito. Dezenove anos. Depois dela vem João, de dez
anos. A mãe deles morreu quando João nasceu, daí a raiva do pai. João
nem sabe, o que é morrer. Nem sabe que isso existe. Nem sabe que nasceu.
Mariana daqui a pouco já tá de barriga. Os seios claros, a pele, nem
clara nem escura. Lindíssima. Perdeu-se ali no tanque. Meio à força,
meio querendo. Primeiro a força, depois querendo. Tinha onze anos. E
sabe lá com quem foi. E sabe lá se queria mesmo. O pai de João chamou de
novo, ele correu assustado. Mariana continuou o trabalho, indiferente à
gritaria. Com resto de comida no canto castanho da boca.
Maria passa pra saleta, com uma panela troncha, cheia de caldo. O pai de
João entra na sala. Carrancudo, barba grisalha e suja. Rosto feio, e
maltratado. Maria cadê João porra? Sei não… Maria, tem os olhos pesados,
cansados, e tristes. Indiferentes a tudo. Ela volta pra cozinha
automatizada. Gorducha, e com os cantos da boca bem vermelhos. Tá que
pariu… Ele senta da mesinha. Em volta dela, nove cadeiras, magricelas,
uma diferente da outra. Uma balburdia de criaças vem crescendo. Meninos
e meninas, com uma mínima, quase nenhuma diferença de idade, entram
correndo, gritando, e sorrindo desdentadas, e sujas. Sorrindo
estridentemente. Pó pará! O velho senta um tapa forte na cabeça de um
pequeno. Ele senta na mesa sentido, e com medo. As outras fazem o mesmo.
Mariana chega descalça, passa pra cozinha, e trás com a mãe um penelão
quente, com alguma coisa quente, que só deus sabe o que é. Mariana, viu
João? Não… Tá que pariu… Eu vou matar esse porra… Esfarela um pão velho
na boca.
João rabisca na terra, uns desenhos sem sentido. De dentro da casinha
ele escuta uma moto chegando.
Pai ele pode comer aqui? Resmunga um sim, sem olhar pra Mariana, babando
um caldo ralo na mesa. Chupando a colher fazendo barulho. Empapando a
barba de sopa, com cara de água suja.
João levanta e olha por uma nesga, de onde entra luz vinda da casa. O
rapaz, salta da moto, e sobe o barranquinho em frente a casa. Ele usa
uma jaqueta de couro, velha, enrrugada de sereno. Os cabelos são
sebentos, e cara esburacada de espinhas. Um homem feio. De uns trinta
anos, com cara de novo, ou de uns vinte anos com cara de velho… Não se
sabe. Um homem feio. PORRA JOÃO EU VOU TE ENCHER DE PORRADA MERDA! VEM
PRA JANTA PORRA! João corre pra casa, entra pela janela do quarto de
seus pais. Passa com medo para o corredorzinho, e avista na cadeira, a
jaqueta de couro.
Todos comem, calados. O namorado de Mariana, come feito porco, as
crianças se beliscam, Mariana manda elas pararem, Maria, come séria e
devagar, os olhos vidrados na sopa, sabe lá o que tá pensando. Sabe lá
se pensa. João entra na sala. Sorrindo, vestindo a jaqueta, todo
bonitão, todo importante, todo gente grande. Se exibe pra Mariana. E
leva um tapão em cheio. Uma mãozada, dura a áspera, no ouvido e na cara.
Cai no chão de tão forte o tabefe. Levanta porra! ríspido, seu pai
agarra ele pelos braços, arranca a jaqueta do seu corpo magro. Tira a
jaqueta do moço! Sacode ele tanto que parece que João vai se partir.
Senta o menino a força na cadeira. Come porra! E para de chorar seu
frouxo! João engole o choro, e o caldo velho. Sente vergonha, e não olha
pra Mariana. Que desssa vez foi embora pra sempre. Mariana sorri com a
boca de comida para o namorado. Ele não vê. Maria continua séria. Sabe
lá o que pensa.
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