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Doutor
Movem-se as letras pelas riscas do papel desencontradas do som da
caneta. A tinta permanente fica.
Sento-me em frente.
Anda para trás na ficha. Escreve.
Está o meu reflexo nos óculos do Senhor, perdão, senhor.
Há uma velhota na sala de espera à espera de cura para a solidão.
Sinto a língua, estranhamente, dormente. Com a sensação que fica do
sabor de um alimento que não gostámos. Bebi muita água.
Na sala de espera também estava uma senhora mais nova. Os cabelos
tapavam-lhe quase toda a cara, despenteada. A mão friccionava
verticalmente a perna. Estavam as janelas abertas. A meia haste as
persianas coavam a luz. Esperei uma hora. Eram só mulheres, as que
esperavam, talvez um veredicto, como eu. Soube quando entrei e me
sentei. Pensaram, uma anoréctica. Abri um livro e às vezes levantei os
olhos para as espiar. Dói-me a cabeça. Olhei o meu tornozelo. Cruzei
discretamente a perna e rodeei com o polegar e o dedo médio da mão
direita, medindo, a carne no sapato aberto. A senhora velhota viu, com
os olhos pequeninos por detrás das lentes garrafais dos óculos.
Irritou-me o som do virar das folhas das revistas.
Tentei concentrar-me no que iria dizer e não digo o ensaiado.
Sento-me do outro lado da secretária e fixo a caneta, rápida, as suas
mãos.
Penso que a senhora velha que espera, ainda, na sala, precisa muito de
falar. Precisa de ser ouvida. Eu sei o que acontece, já. O senhor
pesa-me.
Sente-se bem?
Espero com horror o final do dia. Ao jantar os meus pais perguntam-me
como correu com o senhor Doutor.
Não vou vomitar depois de comer.
Deixo-me nas vossas mãos. Dos meus criadores e nas do senhor Doutor.
Já não me olho ao espelho. Mas está o meu reflexo nos olhos do senhor.
Sei como sou. Sei que tenho cabelo comprido que me toca os ombros e os
lábios finos, estão amaldiçoados.
O senhor fala-me. Pôs a caneta de lado. Poderia pegar nela e levá-la.
Seria então cleptomaníaca? Posso até pedir. É dourada.
Os objectos acumulam-se sem uso no meu quarto e do que eu gosto é de ter
as mãos vazias, as janelas abertas de par em par e a música a tocar.
Apoio os cotovelos no parapeito e bato o pé. As ancas abanam
devagarinho. Uma vizinha acena-me e eu finjo que não vi.
Não me lembro de aprender a andar. Não me lembro de aprender a falar.
Não me lembro de aprender a comer.
Começou num Domingo à tarde quando voltei do shopping. Medi-me, à volta
do peito, da cintura, das ancas. Tinha umas calças de ganga elásticas
num saco e ficaram na mala do carro do Miguel. Não me deu um beijo de
despedida e eu pensei "não sou querida" e vim do carro a correr. A minha
mãe estava a ver televisão. Ela é gorda. Vomitei com a música aos
berros. Fechei o quarto. Não era agradável. Não estudei. Escrevi no meu
diário: tenho dezassete anos.
Se fosse num cruzeiro. Sirvo martinis a homens com roupa desportiva como
nos anúncios.
Durmo. A luz, sei que se apaga no chão do quarto.
Acordei quando já era noite e é tão triste quando a noite chega. A vida
começará de novo, amanhã tão igual a hoje?
A minha mãe levou-me ao Doutor a primeira vez seis meses depois. Levei
uma camisola grossa e menti.
Agora já não minto.
Escreva. Amanhã.
Terei um corpo fabuloso. Ando na rua a sorrir. Tenho sacos de compras
nas mãos e óculos escuros. Podia estar em Nova Iorque.
O Miguel agora é modelo. Não posso falar com ele. Espero sempre que me
beije. Tenho os lábios selados às palavras. Mas quero que me toque.
Fizemos amor no meu quarto com essa mesma luz de fim de dia. Não sei se
foi bom. Não tenho termo de comparação.
Não contei ao Doutor. O senhor pensa que sou virgem.
Penso sempre, em frente sentada, que perco tempo. Está uma senhora velha
sentada lá fora e espera para ser ouvida! Não sabe? Se calhar ela reza e
acredita que a vida começa todos os dias ainda que esteja sozinha e a
morte próxima. Eu não conheço a Deus. Não reconheço os milagres. E já
pensei que é difícil. Ainda assim preferia não tomar mais comprimidos. O
corpo a mudar. Sou jovem? Tenho dezassete anos. Devia sorrir. Quando vou
na rua e dobro uma esquina. Pode acontecer qualquer coisa a toda a hora.
Ouço música no parapeito da janela. A vizinha acena-me e as pombas
erguem-se do prédio ao lado em crescendo. Estudei piano. Tinha os dedos
pequenos mas as minhas mãos eram agéis e eu gostava de ver as teclas a
mexerem-se sob o meu comando.
Mexo-me agora sob comando. Levanto-me. Subo para a balança. Não olho
para baixo e escuto o meu peso na sua voz monocórdica. Desço. Sento-me,
do outro lado da secretária.
E ouço os conselhos. O senhor diga. Descubra interesses! Onde está o seu
entusiasmo?
Hobbies…Passatempos…
Interesses. Onde está o meu entusiasmo?
Jogos de equipa…Conhecer pessoas novas…
É o que fazem as pessoas quando se divorciam? Senhor Doutor, ainda não
cheguei aí!
No café, fumo cigarros. Não bebo cerveja, não tomo café.
Observo.
Olho os rapazes. Às raparigas começo sempre pelos tornozelos. Gosto de
ver como se riem, inclinando-se demasiado para a frente.
Desvio o olhar para mim, tenho uma caneta na mão e faço desenhos em
guardanapos.
Rabisco com a caneta dourada a palma da mão.
O senhor levanta-se e põe a mão no meu ombro e eu não gosto mas não me
mexo, "Coragem!", o senhor disse.
O senhor é médico.
O senhor é velho.
O senhor sabe mais de mim.
O senhor diga-me. senhor Doutor. Até para a semana.
Melhorzinha. Saio com a mancha de escrita do Doutor na cabeça. Sou eu
naquelas linhas… Eu não saberia dizer tanto.
Está tudo por fazer. Afinal, não é como se fosse ser atropelada amanhã.
Na rua não sei o que fazer às minhas mãos. Sinto que se mexem a
despropósito enquanto caminho.
Espero na fila do autocarro. Há cheiro a bolos que chega da pastelaria
por trás. Outros esperam e têm livros nas mãos.
Algumas pessoas escrevem livros sobre gente como eu.
Que diria eu se me perguntassem? Faço parte de uma estatística, estou
aqui. Estou de pé numa fila, ao lado de estatísticas diferentes pelas
quais tenho muito pouca curiosidade.
Para que servem esses livros? Diga-me o senhor Doutor. Só gosto de ler
romances, senhor Doutor.
Espero pouco. O autocarro trava com a porta em frente da minha cara. E o
passo a seguir é para entrar.
SUZANA M. MARQUES é escritora portuguesa.
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