
Ilustração: Ken Solomon |
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Dez microcontos
Recriminação
O meu avô trouxe uma cadeira e após colocá-la à minha frente, olhou-me
de tal forma, que eu me senti como se levitando, até sentar-me, apesar
da minha vontade ser a de estar longe daquela varanda. Ele entrou e
pouco depois voltou com uma xícara de café, colocando-a na mesinha ao
lado
da sua cadeira. Sem dizer uma palavra, entrou novamente, e eu, com uma
enorme necessidade de abstrair-me, passei a observar uma mosca que
pousara na xícara. Ela caminhava vagarosamente para um lado e para o
outro, até quando eu abafei com a mão a borda da xícara, afogando-a no
café.
Logo depois o meu avô chegou com a bola e alguns cacos de vidro da
janela da sala, e após sorver o café, passou às acusações, sem imaginar
o que eu colocara dentro do seu corpo para me ajudar a suportar tudo
aquilo.
Cadeira de Rodas
Doutor, não tente me animar. Da bengala ao par de muletas,
convenhamos... Estou regredindo; ou melhor, estou evoluindo para a
morte.
Evoluindo para a vida seria da muleta à bengala, da bengala ao andar
descompassado, e deste, ao corpo aprumado. Seria admirar as rugas se
desfazendo com o tempo, os espaçados fios de cabelos brancos cedendo
lugar a uma vasta cabeleira e as varizes sendo desmanchadas da minha
anatomia.
Evoluindo para a vida seria sentir os lábios enrijecendo, a arcada
dentária se recompondo, e o sexo a me conduzir para fantasias
alucinantes. Para mim, evoluir, hoje em dia, seria mudar de corpo, de
rosto, de gestos, para melhor, e não, passar a viver na expectativa da
mudança do par de muletas para a cadeira de rodas.
A Onda Gigantesca
Quando Thais acordou, sentiu uma fisgada no joelho, porém, notou que
seus braços estavam engessados, impossibilitando-a de chegar até a perna
para coçar. Olhou para o quarto do hospital, e de barulho, apenas o
gotejar de uma torneira vindo de uma porta entreaberta. Havia muitos
aparelhos à sua volta, muitos fios e tubos ligados ao seu corpo, todos
funcionando em silêncio, tentando mantê-la viva.
Ela não conseguia se lembrar do que acontecera. Não se lembrava e torcia
para que ninguém chegasse ali para lembrá-la. No entanto, uma forte dor
no pé esquerdo passou a incomodá-la, até fazer com que as lembranças
despencassem-lhe sobre a cabeça como uma onda gigantesca, remontando a
horrível cena dos bombeiros serrando-lhe as pernas para livrá-la das
ferragens do metrô.
O Duque de Valparaíso
Ele chegava ao fim da tarde e sentava-se, invariavelmente, nos
mesmos cacos que o proprietário do botequim insistia em chamar de banco.
À partir daquele momento, era um alvoroço lá dentro, com o dono do
estabelecimento cortando o salame em fatias finas - exigência do Duque -
e sua mulher servindo uma generosa dose de cachaça num copo grande. Os
clientes, que eventualmente estivessem ali naquela hora, permaneciam-se
calados, até quando ele tomava a terceira pinga, jogava os restos de
salame para o gato, e saía.
O Duque, por sua fama de impiedoso matador, era muito respeitado no
Bairro Valparaíso, e seu apelido, que todos conheciam, apesar de ninguém
ter coragem de pronunciar na sua presença, viera após ter sido mordido
por um cachorro de nome Duque, e ter revidado, mordendo-o até a morte.
Meu Avô, Meu Pai e Eu
Éramos meu pai e eu, a acompanhar o caixão ladeira abaixo, carregado
por dois empregados da fazenda; dois miseráveis que o meu avô sugara
toda a energia durante a sua existência. Centena de outros miseráveis
acompanhavam o cortejo fúnebre de suas casas, atrás das gretas das
janelas, temerosos de que o meu avô rompesse a tampa do caixão e
voltasse a hostilizá-los como sempre fizera.
Ao voltarmos para casa o meu pai olhou, por muito tempo, o lugar deixado
por meu avô, até assumi-lo, adquirindo a personalidade perversa que
pairava no ar a procura de fragilidade, passando, desde então, a nos
hostilizar como era o costume..
Hoje o meu pai está sendo sepultado e os miseráveis esperam que eu tome
a atitude costumeira, apesar de eu já estar com as malas prontas para,
finalmente, seguir o meu destino.
Uma Grande Emoção
A sua chegada não chamou-me a atenção, tampouco a estridente
campainha da porta da lavanderia me tirou do devaneio proporcionado pelo
barulho da máquina, a rodar a roupa, tentando limpar o que a cidade nos
proporcionara.
Depois de colocar as suas roupas na máquina, ela sentou-se ao meu lado,
apesar de várias cadeiras vazias, e ficamos lá, a compartilhar
monotonia. De repente, tocou-me de leve a mão, fazendo com que eu, numa
atitude inesperada, e até então inédita, cobrisse-lhe a mão com a minha,
passando, desde então, a ouvir os sons do seu corpo, até a chegada do
meu marido para ajudar-me a levar as roupas e a possibilidade do amor
para bem longe dali.
Nudez
Quando eu chegava em casa, ia tirando as peças de roupa e deixando-as
espalhadas pelos cômodos, só voltando a me vestir nas raras vezes em que
saía novamente. Vivia a maior parte do tempo nua, até o dia em que um
homem ligou, descrevendo pormenores da minha intimidade. Temerosa,
passei a suspeitar de todos os homens da cidade, no entanto, o homem,
arrependido, mandou-me uma carta se desculpando pelas suas fraquezas,
prometendo não mais me importunar. Afirmou ter agido daquela forma por
não ter encontrado a maneira adequada para dizer que me amava.
Eu senti que suas palavras eram sinceras, e aos poucos, voltei a abrir a
janela e a procurar nas janelas dos prédios vizinhos algum vulto que o
identificasse. Logo voltei a me despir, sem que ele se manifestasse, e
hoje, vivo na mais completa solidão.
A Mosca e Eu
A vontade aumentava e eu ia blasfemando a fragilidade humana, essa
necessidade de ingerir, digerir e excluir. Ingerir às vezes sem
necessidade, como se aproveitando o máximo da derradeira refeição, e
logo em seguida, excluir; se bem que poucas vezes em situações
inusitadas como a que eu me encontrava: caminhando, suando, blasfemando,
mas impossibilitado de tomar uma atitude.
Entrei numa lanchonete. Não havia banheiro. Pelo menos não havia uma
porta fora do balcão que se pudesse julgar ser um banheiro. Lembrei-me
dos lotes vagos que existiam na cidade. Talvez uma moita e algumas
folhas me fossem de grande utilidade naquele momento. Apertei o passo em
direção ao meu apartamento. Parei de blasfemar e passei a pensar em
Neurocirurgia Estereotáxica. Não adiantou! No elevador, que felizmente
estava vazio, uma mosca rodeou a minha calça branca, talvez procurando
uma maneira de ingerir o que eu acabara de excluir.
Limites
Sem muita convicção, parei diante do motel e fitei os olhos de Leila,
buscando cumplicidade, no entanto, só consegui um contorcionismo facial
que me fez seguir em frente. Aquela situação estava se tornando
insustentável e eu, não querendo ultrapassar os limites estabelecidos,
há anos, pelo nosso pai, esperava pacientemente por uma volta à
infância, onde, apesar da culpa que carregávamos, vivíamos momentos de
intensa felicidade.
Monotonia
O meu trabalho na Secretaria era extremamente monótono e talvez tenha
sido este o motivo que me levara a tal comportamento: comecei mudando
sistematicamente a bolsa de D. Elvira de lugar. Confesso que ela custou
a notar, porém, a partir do momento da certeza da invasão de sua
privacidade, passou a dedicar toda a atenção à bolsa, deixando-me livre
para trocar de lugar os seus objetos cotidianos.
Com muita paciência, consegui fazer com que ela valorizasse um clipse
sobre a mesa como se valoriza um filho brincando no berço, e se
horrorizasse ao vê-lo sobre a cadeira, como se vendo o mesmo berço
boiando com a criança sobre um mar revolto.
Sempre que posso, costumo visitá-la no Hospital Psiquiátrico, e por
falta de oportunidade, ainda não dei seqüência ao meu trabalho.
NERINO CAMPOS é mineiro de Belo Horizonte. Além de escrever, é
desenhista, ilustrador, programador visual e artista plástico Foi
premiado com Menção Honrosa na Bienal do Livro do Rio de Janeiro,
premiado em vários sites literários e teve um conto selecionado entre os
1.584 que concorreram em concurso patrocinado pela Rádio France
Internationale. Participou, também, com contos e poesias, de debates
realizados no SESC - São Paulo, o "Balaio de Textos", que teve
coordenação do escritor João Silvério Trevisan.
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