Bonequinhos

Enterrei minha cara no peito do Índio e fiz um esforço tremendo pra não gritar de alegria. Eu não queria ouvir mais nenhuma palavra. Nenhuma. Fiquei esperando ele começar a me bater. Mas ele não me bateu. Vou embora ele disse. Só isso. Vou embora. E me abraçou. Estranhei aquilo. Dizer que ia embora e me abraçar. Sofri demais pra entender aquele abraço. Não foi fácil. Foram muitos trancos e sopapos. É. Isso mesmo. Trancos e sopapos. Porque me empurraram e me bateram muito. Tenho o rosto e as pernas marcadas de tanto empurrão e porrada que levei durante toda minha vida. Cheinho de hematomas. Perdi até a conta. Por mim eu não teria ultrapassado os cinco anos de idade. Até então eu acho que fui feliz. Não sei. Não tenho certeza porque não consigo me lembrar muito bem dessa época. Só sei que eu parecia uma santinha. Dessas que a gente só vê em fotografia. E devia parecer mesmo. Porque o povo fazia fila na porta da igreja pra tirar foto ao meu lado. Fiquei quase cega de tanto puf puf na minha cara. Depois eu não sei mais nada. Só me lembro das profecias da dona Brigite. Menina dura na queda foi o que ela me disse. Não me lembro do resto. Alguma coisa sobre o meu destino. Aliás se tem uma coisa que eu nunca entendi direito foi essa coisa de destino. Pra mim significou sempre a vontade dos outros. Você vai longe minha filha. E eu fui mesmo. Saí lá do extremo sul e atravessei o Brasil inteiro em linha reta tão rápida como risca de pólvora. Fui parar quase no exterior. Lá em cima. Numa das Guianas. Nunca sei se era francesa ou inglesa. Agora não faz a menor diferença. Sem dinheiro não consegui arrumar os documentos pra atravessar pro outro lado da ponte. Mas tudo bem. Trabalho para mim nunca faltou. Loirinha de olhos verdes e pele branquinha branquinha nunca passei fome. Bastava eu aparecer em qualquer restaurante de beira de estrada que algum caminhoneiro já me convidava pra comer. Tudo de graça. Quer dizer mais ou menos. Foi sempre assim. Nunca tive dificuldade com homens. Aos sete anos eu já era a preferida do papai. Bonitinha e angelical senta aqui filhinha senta aqui no colinho do pai. E eu sentava. E ele deixava eu brincar com o bonequinho dele. Não vou dizer que não gostava daquilo. Eu gostava sim. E acho que ele também. Porque depois que o bonequinho chorava seus olhos se enchiam de lágrimas e ele me abraçava e abraçava e abraçava. Ficávamos em silêncio abraçadinhos por alguns minutos. Ele chorando e eu chorando. Talvez por isso eu enterrei a cara no peito do Índio. Saudades do abraço do pai. Medo não. Longe de mim. Medo é coisa que eu nunca senti. O Índio falou vou embora. Chegou a hora. Pensei que bom porque eu numgüento mais essa situação. Por mim tudo bem que ele vá embora. Assim como risquei o Brasil de norte a sul eu posso riscar de leste a oeste. Senti pena. Só isso. Pena. Depois de tanto tempo junto já tava começando a pensar na dona Brigite e naquela coisa do destino. Por que não foi fácil chegar até o Índio. Antes dele e depois do pai só levei porrada. Aprendi que nem todo bonequinho chora porque é bonzinho. Tem de todo tipo. Mas a maioria parece tudo igual. Vi tantos que agora já nem faço mais distinção. Não vejo diferença. Não fico pondo defeito em tudo. Cavalo dado não se olha os dentes. De bonequinho em bonequinho fiz meu pé de meia. Não deu pra ficar rica mas dá pro gasto. Tenho tudo que quero. Quando volto a pensar no destino até que não posso me queixar. Tive sorte por ter um pai tão bondoso. Aprendi a gostar de brincar com bonequinhos muito cedo. Muitas meninas não tiveram o mesmo privilégio. Aprenderam na marra. Apanharam muito. Eu não. Só recebi carinho. Apanhei uma única vez. E foi pra valer. Depois disso fui obrigada a sair de casa. Foi minha mãe quem me botou no olho da rua. E quem me bateu também. Em mim e no meu pai. Fiquei com dó dele. Mas não pude fazer nada. O tadinho não tinha pra onde ir. Deitou no chão como um cachorro miserável e implorou pra ficar. Eu preferi dar no pé. Na hora pensei nas palavras da dona Brigite. Menina você vai longe. E fui. Viajei de caminhão. Barco. Ônibus. Conheci gente de tudo quanto é cor e formato. Tive sorte. Acho que era isso que ela quis dizer com destino. Fui junto com as pessoas pra onde elas iam. Quando não me queriam mais junto delas me batiam. E quando me batiam eu ia embora. Antes disso eu não arredava o pé. Só partia depois de apanhar. Aprendo fácil. Principalmente as coisas simples. Depois fiquei zanzando até o Índio aparecer na minha vida. Com ele foi diferente. Apanhei no primeiro momento. Antes de tudo. Antes de perguntar o meu nome. Olhou pra mim e enfiou um murro na minha cara. Bem no meio da minha fuça. Eu não fiz nada. Deixei ele me encher de porrada. Senti o ossinho do meu nariz rachar pela metade e continuei firme e de pescoço esticado. Alguma coisa me dizia que com ele minha vida mudaria. Apanhei tanto até perder as forças e desmaiar. Não resmunguei. Muito tempo depois eu perguntei por que ele tinha me dado aquela surra. Ele respondeu não sei deu vontade. Tua cara me pediu pra bater nela. Quando eu acordei ele tava dentro de mim. Entrando e saindo e entrando e saindo. Cabelo liso suado. Olhos pretos cor de jabuticaba e dentes branquinhos de propaganda de televisão. Na hora que o bonequinho dele começou a chorar seu rosto se enrugou todo. Fiquei com medo que ele fosse morrer. Não queria ninguém morto dentro de mim. Não queria de jeito nenhum. Naquele instante senti uma dor que nem sei explicar. Depois disso ninguém mais me bateu. Ninguém mais. Não levei sequer um sopapozinho na cara. Pensei que fosse enlouquecer. O tempo parecia não passar. E não passou. Ficou parado suspenso no ar. Não consigo me acostumar. Sinto falta dos bonequinhos. Sinto falta das porradas no meio da fuça. Uma saudaaade. Faz tanto tempo que já nem acho mais que é tudo a mesma coisa. De noite os bonequinhos me aparecem nos sonhos. Um desespero que dói de tanta falta que eu sinto deles. Por isso eu enfiei a cara no peito do Índio quando ele disse vou embora. Pra sufocar a alegria. Num queria ouvir mais nenhuma palavra. Que fosse logo embora. Sofri muito com essas ausências. Muito. Tanto tempo agüentando tudo calada não é pra qualquer uma. Tem que ser forte. Então vai eu pensei. Vai que eu ainda num vi o mundo todo. Vai. Vai antes que meu corpo desfaleça de tanta saudade. Vai.

SERGIO KEUCHGERIAN
, escritor, advogado e fotógrafo. Responsável pela documentação fotográfica teatral do CCSP. O seu romance "Diário da Busca" foi publicado pela editora Desatino em 2002.