
Iluistração: James Malcolm Stewart |
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A sentença
Por que não morre?
O pensamento passou leve como a lembrança da fala pertencente a uma
personagem ausente em um drama distante. Quase a adormecer de cansaço,
ela estremeceu. E nunca mais seu coração descansou.
Ela recordava como olhara com prazer e orgulho as bochechas rosadas do
caçula no sono profundo dos bebês desejados. À memória vinha também o
riso gargarejante, as mãozinhas buliçosas, o olhar curioso do garotinho
tão amado até que...
Ele não se sentou na idade em que os bebês costumam sentar-se, começou a
engasgar, a respirar mal e o chocalho lhe caía das mãos.
A rotina da casa transformou-se. Os médicos se contradiziam, os exames
tardavam, as agendas lotavam-se de fisioterapias, consultas a
especialistas, internações.
O nome da doença degenerativa progressiva involutiva crônica ela não
entendeu. Só soube que o filho ia piorar, não tinha cura, não passava
para os irmãos mas necessitava de cuidados constantes.
Imersa em dor ela nem percebeu que as semanas viraram meses e depois
anos. Agora, enfermeira em tempo integral, afastara-se do emprego,
privava-se dos benefícios do trabalho. a pós-graduação que iniciara foi
abandonada. Evitava os amigos e desestimulava as visitas dos parentes,
fosse algum trazer do mundo exterior algum vírus letal ao doentinho.
As crianças mais velhas recebiam beijos apressados e olhares distraídos.
Desde o início da doença, o pai passara a levar os maiores para a
escola, ia buscá-los e nos fins de semana afastava-se com eles para o
futebol. E uma tarde, estando o caçula hospitalizado, ela retornou para
uma casa vazia. O marido requereu o divórcio e aa guarda dos filhos
maiores, com total apoio dos sogros.
Do leito frio para os corredores silenciosos, ela se consumia entre
fraldas, alimentos, remédios e inaladores.
Ora, aconteceu de o garoto da esquina, portador de síndrome de Down,
falecer a caminho do hospital. A vizinha se descuidara do médico,
atarefada entre entregas de iogurte caseiro e a lavagem das roupas das
clientes. Em um ano procurara o pediatra uma única vez e recusara-se a
ouvir que o filho, além de diferente também fosse doente cardíaco,
apesar de perceber o rosto inchado e da respiração difícil do garoto.
Nesta noite ela soube, conversando com amigos pediatras, que alguns
médicos consideram grande parte das mortes acidentais de crianças
deficientes como homicídio inconscientemente elaborado.
Esquecendo a torneira da banheira aberta, a panela de água fervente com
o cabo para fora, medicamentos em locais de fácil acesso, um janela
aberta....um acidente libera os pais daquele pesado fardo. O descaso
pelo acompanhamento médico de um garoto Down, segundo estes médicos,
enquadrava-se na definição do tal ‘homicídio inconscientemente
elaborado’.
Ela ouvia aterrorizada, discordando, pois o coração de qualquer mãe
desdobra-se em sacrifícios pela prole! Não é sempre assim?
Aquela noite, ao debruçar-se sobre o rostinho adormecido de seu próprio
filho, o pensamento apenas sugerido:
Por que não morre?
Ah, como ela desejava de volta a sua vida – seu trabalho, sua tese, seu
lazer, seus cuidados pessoais, seus amigos, seu marido.
Quando ela era uma menina, o professor de catecismo, em uma aula, leu da
Bíblia estas palavras cruéis e definitivas:
“Pois eu lhes digo que aquele que olhar com desejo para a mulher do
próximo, em seu coração já cometeu adultério.”
Ela escutou as explicações do padre, inconformada por ser tão difícil
ser bom! Revoltou-se:
Então, padre, quando a gente pensa em mentir mas conta a verdade e
quando uma pessoa pensa em roubar mas não rouba, se segura e faz o que é
certo? Então, isto não vale nada?
E o padre confirmou:
Pequena, aquele que pensou no pecado, já pecou em seu coração.
Ela tumultuou a aula. Tanto sacrifício para nada! Jesus era um deus
muito exigente!
Desse dia em diante, ela passava o dedo no glacê dos bolos de
aniversário às escondidas e roubava biscoitos no pote guardado no
armário. Se já pecara mesmo...
O professor de catecismo dizia umas coisas esquisitas, algumas ela
jamais entendera, mesmo que estivessem na Bíblia, este livro cheio de
mistérios.
A angústia da noite em que ela pensou “por que não morre?” não se
aliviou em lágrimas, antes tirou-lhe o sono, o apetite e até a alegria
de cuidar do doentinho.
Ela contratou duas enfermeiras para garantir que cada gesto seu fosse
vigiado, tal o medo que passara a sentir de adormecer em hora imprópria,
misturar os frascos dos remédios, esquecer de agasalhar o menino em uma
noite fria.
Nunca o pequeno fora tão bem lavado, penteado, perfumado e enfeitado.
Com que capricho ela mantinha seu quarto imaculadamente limpo! Com que
cuidado escolhia para ele os legumes mais fresquinhos e as frutas mais
saborosas!
Ela ia definhando a cada dia sem que ninguém suspeitasse que, por detrás
das olheiras e das faces pálidas, ela agora compreendia como ninguém
outra das estranhas afirmações do professor de catecismo:
“Deus não castiga ninguém. É o pecado que traz em seu bojo o seu próprio
castigo.”
SONIA Regina Rocha
RODRIGUES é escritora e médica da trabalho, nascida em Santos/SP ,
em 1955. Ativista cultural desde 1993, tem publicado em Santos, em
co-editoração com tres tres outras escritoras santistas: Mado Martins,
Neiva Pavesi e Mahelen Madureira o jornal Um Dedo de Prosa e a revista
literária Chapéu-de-Sol. Livros publicados: Dias de Verão - Ed. Legnar.
- contos e crônicas - 1998; O que você diz a seu filho? - programação
neurolinguística -- ESPA Editora 1999; A fantastica estória de Carolina
Helena - romance fantástico - 2004; Rosa - romance - 2004
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