Ilustração: Isolde Bosak

A viagem

Isolde Bosak

Cansei da superfície, da linha do horizonte e das pessoas. Resolvi ir para o centro da terra. Lá não passarei frio, terei o silêncio e a sombra de que necessito. Além disso está desabitado. Comecei a cavar um túnel no meu canteiro de couve de Bruxelas, já inçado de pés de maconha ; Cavava quatro horas pela manhã, depois de ler os absurdos do jornal e quase vomitar o café. Francamente... não preciso mais ler jornais. Os complexos vitamínicos que comecei a ingerir, me dariam a força para cavar. Sei que tem ginseng no meio. É um ótimo energético. Não me cansaria por pouca coisa. Depois de fazer um almoço leve, verduras cruas e raízes, ( teria de ir me acostumando com a legítima dieta subterrânea) mais uma cápsula de cálcio, para preparar o corpo quando estivesse carente de luz.

Estabeleci um cronograma : cavando de segunda a domingo, durante dez horas por dia...tinha de aproveitar o horário de verão. Na velocidade de cinco-metros dia, chegaria lá em, deixa ver...seriam sete dias...trinta dias...cento e cinqüenta metros no mês. Até março estaria...hum... Bem ...gostaria de passar o meu aniversário no centro da terra, mas talvez não dê tempo.

Nos primeiros dias, além de iniciar uma abertura para o túnel estrada, fiz descobertas arqueológicas. Abaixo das raízes do canteiro, emergiram cacos de louça, vidros, azulejos, os quais peneirei com a terra, separei e cataloguei. Da minha infância encontrei pedaços de carros de lata enferrujados e desbotados, cabeças de bonecas, bolitas coloridas e ossos de galinha. A tudo ia escovando e se fosse o caso, deixava correr água por cima até ficar limpo. Secava, guardando em caixas de sapatos, com a descrição e data do período em que estes pedaços enterrados viveram sob o sol. Como este trabalho estivesse me ocupando tempo demais, diminui o meu horário de sono, para seguir o cronograma planejado. Passei a me acordar uma hora antes, e nem acendia a luz. Teria mesmo de me habituar a uma vida sem ela.

Quanto à terra que ia retirando, colocava toda em sacos de supermercado na calçada, até que estes terminaram e passei, então, a despejar o produto do dia num quarto da casa, há muito desocupado.

No início da escavação, me surpreendia com o cheiro da terra, com as raízes ainda quentes, com o gosto das minhocas, com os tatus-bolinha e lacraias que me deixavam as mãos coçando durante o sono. Das unhas já não conseguia mais retirar a terra. Minhas digitais, desenhadas com traços barrentos, agora submergiam apagadas na crosta única dos dedos. Aos poucos deixei de catalogar os achados, carcaças de animais ancestrais, bússolas, lanternas de pavio, ponteiros de relógios e até um pequeno caixão com nada, além de uns trapos cinzentos. Tudo indo parar em outro cômodo da casa, que fui ajeitando, arredando, entulhando com a terra e seus pertences.

Durante este período, comecei a dormir no túnel, no final dele. Engatinhava uns doze metros e me aninhava no côncavo. Nas primeiras noites, até que estranhei a quantidade de bichos coabitando no meu espaço. Cheguei a me irritar e pensei em desistir desta viagem. Afinal, não era meu intuito conviver com ninguém.

A terra ia tomando conta das outras peças de minha casa. Havia deixado um caminho para o banheiro, e só. Minha cama, há muito, já não utilizava. De comida, coisas cruas do estoque da geladeira, que arredara para perto do pátio. Além disso, as pequenas larvas, alguns insetos, casulos, serviam como proteína em minha alimentação. Cheguei a constatar a migração dos pequenos seres que habitavam meu túnel: passaram a viver na caverna em que estava se convertendo a casa.

Dia e noite já não tinham mais sentido. O importante era continuar o trajeto rumo ao centro da terra. Deixei de entrar na minha antiga morada... até para não me confundir, tão semelhantes estavam. Apesar de viver coberto de barro, minha pele ficava a cada dia mais clara, transparente. Enxergava muito pouco, mas sentia a terra respirando, ouvia as raízes crescendo e percebia uma outra vida aqui debaixo. Era tudo que eu não queria. Mesmo assim continuei. A pá, com que havia começado, ficara, há muito, presa em uma imensa raiz. Usava unhas e pés para cavar, empurrar. Num dado momento encontrei um pedaço muito mole de solo, como areia. Empurrei fracamente. Desabou. Tinha chegado num espaço diferente. De olhos fechados senti uma certa claridade. Me incomodou bastante. Chegara ao centro da terra ? Ouvi alguns sons, acho que eram vozes. Depois nada lembro. Só sei que estou aqui, deitado na penumbra, esperando.