Ilustração: Oscar Boeira

Sabino

“E esta calma, esta canga, esta obediência”.
A PARAGEM - Dante Milano


Sabino ia distraído à frente dos bois que quase lhe furavam as nádegas com os chifres. Era o guia dos bois. Pensava no que faria quando terminasse aquele carreto e ficou tão absorvido em si mesmo que levou susto com o grito do tio.

“Presta atenção, menino.Tá levando os bois pro mato, sêo merda”.

Os adestrados bois de guia seguiam com pachorra o menino Sabino, saindo um pouco da estrada. As demais parelhas foram atrás, desviando o carro do rumo.

Sabino avivou-se com o grito e levou os bois de volta para a estrada, chamando-os pelo nome. O carro rodou, então, pelos sulcos, deslizou vagarosamente com sua carga pesada, chiando pelo atrito do eixo nos cocões de aroeira. A cantiga do carro misturou-se ao silêncio do ermo e ao ar azulado do mês de maio.

O pensamento de Sabino saiu de novo fora da estrada e, então, ouviu a voz da mãe, tão perto como se ela falasse aos seus ouvidos, chegou a sentir o cheiro de alfazema de seus cabelos.

“Seu tio é assim mesmo, filho, tenha paciência. Logo seu pai vai mandar você estudar na cidade e você fica livre dos bois e do carro. Tudo que peço é paciência, meu filho”.

“Eu gosto dos boi e do carro, mãe. Entendo o que a senhora diz para eu ter paciência. Eu tenho. O que não sei é porque tenho de agüentar tudo isso, esse xingatório sem rumo, eu que faço tudo como ele manda, tudo direito. Ter paciência eu tenho”.

O carro caminhava agora pelo melhor trecho da estrada, plano e sem sulcos, coberto com uma areia fina nos lados em que passam as rodas. No meio, de fora a fora, touças de capim. Era uma grande extensão de cerrado, com árvores pequenas e tortas, chão duro e algum pedregulho de espaço a espaço. Nenhum animal silvestre à vista, a não ser um bando de anuns sobre alguns galhos de arbustos, que balançavam a cada pouso ou a cada vôo.Lá longe, um pinhé voava baixo. Nem sinal de um só miserável córrego.

”Ô terra seca do diabo”.

Sabino teve sede, olhou e não viu a cabaça d’água dependurada em nenhum fueiro.

“Nem dessa vez ele trouxe a cabaça, mesmo sabendo que o carreto era de léguas e não há rio nem córregos por aqui”.

Olhou para cima, para o céu, viu nuvens carregadas de água e teve esperança de beber água da chuva, se Deus quisesse. “Uma vez teve de beber água empoçada na beira da estrada”. Até chegar onde tinham de deixar a carga, ia morrer de sede, se não chovesse. Mas nem tempo de chuva era, aquelas nuvens estavam de passagem, levadas pelo vento. O sol queimava a vista e a cabeça nua de Sabino.

“Esqueci o chapéu”.

O carro rodava lento e sua cantiga era também lenta, como um gemido atravessado no peito.



***



Tremendo de frio, Sabino caminhava pelo trilho em meio ao capim meloso apinhado de gotas de orvalho gelado que molhou suas pernas descobertas e suas roupas. Ainda estava escuro, mas um barrado rosa para o lado em que o sol nasce dizia que a claridade do dia se aproximava.

Encontrou os bois no malhadouro, menos os dois curraleiros. Esses sumiram na coivara encoberta pela neblina e ficaram quietinhos. Só foram descobertos pelo som dos cincerros que badalavam ao menor movimento. Conseguiu, com dificuldade, que os velhacos curraleiros se juntassem aos outros bois. Naquele dia, Sabino atrasou.

“Moleza! Lerdo! Não serve para nada”.

Nunca recebia um elogio, era como se fosse um traste.

No curral, tangeu os bois, em parelha, para a canga. Primeiro, os bois da guia. Depois, os outros, os do meio, os da chavelha, os do coice. Eram todos bois adestrados, que não davam trabalho. Menos os do pé-da-guia, os curraleiros, que não aceitavam a canga com facilidade.

Todo carreiro tinha suas manias e o tio de Sabino não ficava fora da regra. Não ajoujava nenhuma junta, muito menos os manhosos curraleiros. Não fazia o que era natural ser feito e o coitado do Sabino é quem sofria quando a brocha da canga escapulia e um boi ficava solto.

“Vai atrás do boi, moleza”. “Cerca o boi”.

O tempo de moagem de cana havia acabado e os carretos diminuíram, a não ser um ou outro contrato particular, como o daquele dia. Na noite anterior, antes de dormir, Sabino tinha sido avisado pelo tio:

- “Amanhã tem de campear os boi mais cedo. Vam’ buscar rutilo na Chapada”.

A Chapada era muito longe. A carga era para ser entregue urgente na estação da estrada de ferro para ser despachada.



***



Então o carro rodava pelo trecho bom da estrada, com areia fina nos lugares por onde passavam as rodas e com touças de capim no meio. A viagem era serena. O tio, num momento de compreensão, disse:

“Sabino, deita em cima da carga e descansa um pouco, a estrada é reta e sem buracos e o carro vai levar pelo menos duas horas até chegar no pedaço ruim. Aqui não precisa de candeeiro”.

Sabino esqueceu a sede. As nuvens de água fugiram, tinha mesmo que esquecer a sede.

“Quando terminar a viagem vou deitar de borco no poço do córrego, onde os bois também bebem, e vou me encher de água”.

No momento, como os bois, ele só ajuntava escuma no canto da boca seca, de tanta sede. Mas, esqueceu a sede para ter o descanso. Pelo menos isso.

O carro cantava uma cantiga monótona como se estivesse cansado e como quando estava cheio de cana até acima da borda da esteira. Mas dessa vez era o rutilo. As pedras estavam dentro de pequenos sacos de linhagem. A carga não era alta, mas muito pesada. Sabino descansou a varinha de ferrão, que nunca utilizava, em cima dos sacos de rutilo, e ali deitou-se, olhando para as nuvens de água que já iam longe. O sol batendo-lhe no rosto e a garganta ardendo de secura. Fechou os olhos.

Com os olhos fechados tinha o dom de ver a mãe e ouviu a sua voz candente, mas voz de mãe, com doçura atrás da energia:

“Filho, o que eu peço é para ter paciência”.

Quando saiu, naquela madrugada, ela mais uma vez deu conselhos, e disse o que havia dito várias vezes antes:

“Pega com Deus, meu filho. Olha o chapéu, não esquece. O sol nesse tempo é muito quente. Come devagar. Mania de carreiro de comer correndo!”.

Sabino esqueceu o chapéu. Deitou-se de costas sobre os sacos de rutilo, tentou ver as nuvens de água que já descambavam para o outro lado do céu, deixou que o sol lhe batesse forte no rosto e ficou embalado pela cantiga do carro.

“Como canta bonito esse carro. Se a gente pusesse um cacho de mamonas debaixo do cocão, em vez de graxa, o canto ficava ainda mais bonito”.

Não conseguiu cochilar nem relaxar o corpo. Sentou-se, depois, e olhou os sacos de rutilo, ruminou para que servia aquilo e teve vontade de ver as pedras. Havia um saco arrombado, vazio pela metade. Enfiou a mão para catar uma ou duas pedras – para reconhecer o rutilo de que tanto falavam – e sentiu aquilo que na hora pareceu um choque elétrico. Puxou a mão depressa e trouxe junto, dependurada na parte interna da mão, logo perto de onde começa o dedo mindinho, uma cobra pequena, sacolejando a cauda e produzindo um barulhinho de chocalho, que ele já ouvira antes, em touças de capim, nas roças. Jogou longe a cobrinha e olhou a mão: havia dois buraquinhos muito bem feitos pelas duas presas da pequena cascavel.

“Pega com Deus, filho” – ouviu a mãe de novo.

A dor não era tão forte, mais forte foi o medo que sentiu naquela hora. Não viu o tempo passar, ele ali parado, segurando a mão direita com a esquerda, olhando os buracos das presas com olhos arregalados. A voz apequenou-se. Tentou gritar, mas a voz saiu baixa e abafada pela cantiga do carro. Deitou-se de novo sobre os sacos de rutilo.

As nuvens começaram a voltar aos seus olhos. Mas eram nuvens como névoa, não nuvens de água. Os ouvidos zumbiam como um enxame de abelhas.

Havia ali seis parelhas de bois puxando um carro carregado com minério de titânio, um carreiro com a vara de ferrão voltada para os bois e para si mesmo, e ele, olhando para o azul imenso e sentindo, naquele momento, toda a solidão do mundo. Tentou de novo chamar o tio mas, a língua engrolava as palavras. Quis ficar de pé e estatelou-se sobre a carga. O mundo pareceu vazio, de repente. Tudo sumiu, até a cantiga do carro. Só crescia a névoa. Nem o fogo do sol ele sentia. Só um fogo por dentro. Seus olhos frios e pesados procuravam entender porque, de repente, tudo havia mudado. E viu a mãe de novo.

“Mãe, me acode”.

“Pega com Deus, filho” - repetia a mãe, como um disco estragado.

Levantou as mãos e procurou o rosto da mãe e as mãos gesticularam no vazio. Tudo era nuvem, agora. A sede aumentou.

“Por que o tio não traz água na cabaça, será que ele não tem sede hora nenhuma?”

O pensamento não girava, não conseguia entender o que se passava.



De repente, as nuvens de água voltaram, imensas, e encheram o céu. De seus flancos desceram cachoeiras irisadas de água cristalina e cobriram o carro e os bois. O carro cantou mais bonito e de todos os lados, no cerrado, os pássaros apareceram, voando em bandos, circulando sobre a estrada. Sabino abriu os olhos e viu tudo muito claro, muito azul. Ao seu lado, uma cabaça cheia de água.

“Olha, gente, o tio não esqueceu...”.

Pegou a cabaça, virou-a na boca e saciou a sua sede.

FAUSTO VALLE - médico, escritor. Ex-vice presidente da UBE de Goiás. Tem 5 livros publicados. De poesia: A Fonte do Sal, 1988; Cravos Sobre a Mesa, 1992; Relógio de Areia, 1998; Aldeia Absurda, 1999. De contos: Confraria dos Marimbondos, 2001. Inéditos: Um Boi no Telhado (contos) e Ainda sem título (poesia).