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Federica
Sempre que se começa a
ter amor a alguém,
no Ramerrão, o amor
pega e cresce é porque,
de certo jeito, a
gente quer que isso seja, e vai,
na idéia, querendo e
ajudando, mas [...] quando
é destino dado, maior
do que o miúdo, a gente
ama inteiriço, fatal,
carecendo de querer, e é um
só facear com as
surpresas. Amor desse, cresce
primeiro, brota é
depois.
Guimarães Rosa
Há muito
que terminava as minhas férias na Itália. Não sei, era uma atração quase
física. Era como se pressentisse, lá, um grande acontecimento, desses
meio mágicos, meio místicos, meio inexplicáveis. Desses que mudam a vida
num único instante, assim:
. Não foi por casualidade
que fui parar em Mantova. Aliás, não acredito em casualidade. Acredito
em destino. A diferença é que ele é palpável, visível, viável, ele tem
cor, tem cheiro, desafia todos os sentidos a cada momento. Ele próprio é
uma sucessão de sentidos e de momentos. Um fio no labirinto. Um deus
poderoso e múltiplo encarnado em cada um de nós. Fico pensando que seu
jogo é o xadrez e suas peças, as pessoas que ele aproxima e afasta,
aproxima e afasta e sente prazer.
Olha, não
estou aqui por acaso. Estou por destino. Era nosso destino estarmos
aqui, neste bar e não em outro, bebendo. Os americanos têm uma palavra
linda para isto: kismet. Não é bonita? Acredito em Kismet, por isso fui
parar em Mantova.
Queria
revisitar a parte antiga da cidade, com seus museus, com seus palácios,
e me deixar transportar para outros tempos, redescobrir que o mundo não
termina no horizonte, que a vida não termina na morte e que eu, por
baixo da armadura, eu posso mais. Quando o mais for meu kismet.
Foi o que
fiz. No meu último dia, naquele ano, em Mantova, voltei ao Museo del
Risorgimento e ao do Palazzo Ducale. Meu amigo! Fiquei encantado de
tanta História, mais, muito mais embriagado do que estou agora. Por
favor, garçom, mais um vinho! Não conseguia sair da Piazza Sordello!
Quanta coisa se deixa para trás no mundo, na vida! Mas era meu último
dia na Itália e eu tinha que voltar ao hotel e me preparar para
reingressar na vidinha redonda de que fala Drummond.
Era outono
e no outono tudo fica mais melancólico, não achas? O outono é uma
saudade absurda do que não se viveu.
Antes de
subir para jogar as roupas na mala, sentei numa mesa, no bar do hotel, e
comecei, porque não queria perder o que tinha vivido, comecei a fazer
algumas anotações para o meu livro. Uma faixa de sol batia no meu
caderno, despedindo-se do dia.
Era um dia
para ser, não fosse o encantamento melancólico da praça no outono, do
peso da História, porque civilização pesa!, e como pesa!, era um dia
para ser como outro qualquer. Não! Não! Era um dia destinado para ser,
ele mesmo, kismet.
Estava tão
absorto nas minhas anotações que não percebi que já não estava sozinho.
Fui surpreendido pelo garçom, quando colocou uma taça de champanhe na
minha frente. Agora, a intensidade da faixa de sol no meu caderno era
mais fraca.
Disse-lhe
que havia um engano, não tinha pedido nada. Por favor, mais vinho. Ele,
então, sorriu e respondeu que aquela senhora estava me oferecendo o
champanhe.
Aquela
senhora era uma mulher bonita, magra, cabelos pretos na altura dos
ombros, uns trinta e tantos, talvez. Eu diria que poderia ser tudo,
menos o tipo de mulher que oferece champanhe a um desconhecido.
Fechei meu
caderno, meio sem jeito, meio atrapalhado, e bebi devagar, sentindo um
olhar insistente jogado contra mim.
O sol,
ainda mais fraco, incidia sobre a taça.
Depois de
um dia sofrido de tanta saudade e solidão, depois de andar ao acaso,
sabendo que o melhor da minha vida eu já tinha vivido, entrei no bar do
hotel, só por entrar.
Sentei na
mesa do canto e me deixei ficar. Imensamente triste. Difícil pensar que
tinha que continuar vivendo por viver.
O bar
estava vazio, havia apenas um homem sentado próximo a mim, escrevendo
num caderno que aparava uma faixa de sol. Era um fim de tarde de outono
e, no outono, tudo fica mais triste.
Vez que
outra, ele levantava a cabeça, mas, concentrado que estava no que
escrevia, não via nada nem ninguém.
Foi então
que percebi seu olhar e o seu olhar era o olhar de Stefano! Assustada,
contive um grito. Depois, emocionada, segurei o choro. Enlouquecida de
saudades quis vê-lo melhor e de perto. Meu coração batia acelerado,
minha respiração tornou-se ofegante, minhas mãos e meu corpo tremiam.
Queria ver aquele olhar mais e mais e mais e queria vê-lo de perto.
Precisava
que ele notasse a minha presença e chamei o garçom e pedi que servisse
àquele senhor uma taça de champanhe.
Esqueci de
pensar o que ele pensaria de mim. Não me interessava o que ele pensaria
de mim. Pensasse o que pensasse, eu não conseguia desviar os olhos do
olhar. Atrás da faixa de sol que caía sobre o cristal da taça, às vezes
parecia azul, às vezes parecia verde.
Ele me
olhou com olhos de interrogação. Fechou o caderno e bebeu lentamente.
No
silêncio,
nossosolhosseencontravam.
Eu até
achava que podia ser um sujeito interessante, era culto, viajado, talvez
sensível, tímido, mas, por mais que procurasse qualidades plausíveis em
mim, sabia que não era bonito nem charmoso nem jovem nem coisa nenhuma.
Comum! Comum me descreve bem. Por que, então, o champanhe e aquele olhar
insistente?
Pedi ao
garçom duas taças e levei-as à sua mesa. Perguntei se podia sentar, ela
respondeu que sim. Estendi-lhe uma taça, dizendo que estava retribuindo
a sua gentileza. Ela agradeceu com um sorriso bonito.
Nos
apresentamos com um breve aperto de mão. Federica é o seu nome.
Diante do
meu italiano precário, perguntou minha origem. Rimos, os dois.
Perguntei se estava há
muito em Mantova e ela disse que desde que nascera. Fiquei encantado!
Contei-lhe da atração que a parte antiga da cidade exercia sobre mim, e
ela concordou entusiasmada que sobre ela também. E contei-lhe dos meus
dias, dos meus escritos, do meu trabalho e ela acompanhou atentamente
olhando no fundo dos meus olhos.
Quando
parei de falar, porque me dei conta de que apenas eu falava, Federica
disse que estava tarde e que precisava ir embora.
Não havia
mais sol sobre a mesa.
Chamou o
garçom e ele lhe trouxe duas taças. Com elas, veio em minha direção. Eu?
Nervosa, excitada, amedrontada. Eu, que nunca tinha medo de nada, estava
amedrontada. Nunca tinha feito aquilo!
Ele disse
que queria retribuir a minha gentileza. Perguntou se podia sentar e eu
concordei. Queria não demonstrar o que estava sentindo, lutei comigo
para não demonstrar o que estava sentindo.
Era um
homem alto, magro, de sorriso grande. Era um homem bonito. Uns cinqüenta
anos, talvez. E, acima de tudo, era um grande falador, de uma conversa
agradável e delicada. Um homem culto. Disse que era escritor e falou
sobre a sua vida e sobre sua paixão por Mantova.
Eu? Eu
estava encantada, querendo mergulhar e me embebedar naqueles olhos que
me restituíam o homem que amei.
Quando a
razão me acordou, achei aquilo tudo uma enorme loucura e disse-lhe que
precisava ir embora. Ninguém volta da morte, minha solidão me dizia,
ninguém.
Queria pedir que não
fosse, não ainda, estava tudo tão agradável! e depois, o meu trem só
saía de madrugada, mas. Não tive coragem de pedir. Por quê? Não sei.
Tenho dessas, às vezes. Creio que tive medo de ir além do que deveria.
Perguntei
se poderia acompanhá-la. Me alcança o vinho, por favor. Ela disse que
sim.
Andamos em
silêncio em direção à praça Sordello. Seria um gran finale para a minha
estadia em Mantova. Mas. Havia uma resposta que eu não podia deixar de
ter e cortei o silêncio da noite recém nascida e perguntei por que o
champanhe? Por que eu?
A resposta
me desconcertou: por causa dos meus olhos. De acordo com o sol, ela
disse, ora eram verdes, ora eram azuis e só havia conhecido uma pessoa,
em toda a sua vida, com os olhos assim, ora verdes, ora azuis, o único
homem a quem amara e que morrera há exatos seis meses atrás.
Fiquei
calado. Queria dizer sinto muito, mas, estranhamente, eu não sentia
muito. Fiquei calado e Federica ficou calada e procurávamos decifrar
nosso silêncio. O meu, egoísta, mesquinho, ciumento, irracional. O dela,
de puro sofrimento.
O outono
trazia um vento e uma noite gelados e o gelo se instalou na minha alma,
como a me proteger da verdade. Embora todas as mulheres que tive, nunca
havia conhecido uma mulher como Federica. Não me pergunta por quê. Ela
tinha ou ela era o que – de repente me dava conta – ela era o que eu
havia procurado durante toda a minha vida! Eu sentia isso nos ossos, na
carne, na alma. Eu simplesmente sentia. Não, obrigado!, não quero beber
agora. Tenho, ainda, algum controle sobre mim e não quero perdê-lo.
Diante de
uma livraria, Federica pediu que a esperasse.
Que grande
turbilhão se instalava dentro de mim!
Ela voltou
com um jeito decidido e com o jeito decidido – talvez isso me
intimidasse um pouco – estendeu a mão. Era um presente. Um peso de
papel, ela disse que seria útil para um escritor, mesmo um bissexto como
eu. Uma esfera de vidro que, ela disse, de acordo com o sol ora fica
verde, ora fica azul. Agradeci.
Continuamos caminhando em direção à praça. De novo o silêncio.
Naquele
cenário, Federica ficava ainda mais bonita, desenhava uma idéia de
completude, me fazia feliz. Queria poder abraçá-la, mas. Não faria nada
que a assustasse, que a ofendesse, que pudesse ferir sua saudade.
No meio da
Piazza Sordello, ela parou. Respirou profundamente o ar. Olhou dentro
dos meus olhos, anunciando uma última vez e me disse adeus.
Eduardo,
era esse o seu nome, perguntou se podia me acompanhar. Queria dizer não,
mas foi tudo muito mais forte do que a minha fragilidade e disse sim.
Não me
arrependi. Não me arrependo. Na verdade, estava grata àquele homem que
eu não conhecia e que chegava assim, de mansinho, coberto de
delicadezas, dono de um olhar capaz de brincar com o tempo.
Ele
perguntou por quê? e eu falei com a voz presa, com uma lágrima teimosa,
eu falei de Stefano. Depois, quando consegui me recompor, pensei que
deveria agradecer a ele os momentos de susto e de encantamento. Entrei
na Lombardia à procura de um livro, mas vi, nas prateleiras, uns pesos
de papel e um deles me chamou a atenção: sob a luz, ora era verde, ora
era azul. Foi o que escolhi.
Eduardo
sorriu agradecido e continuamos caminhando em silêncio.
Eduardo, eu e a
minha solidão.
Fiquei
parado, com medo de ir mais além do que poderia. Fiquei parado por puro
respeito. Fiquei parado enquanto Federica sumia, encantada, entre museus
e palácios.
Estava tão sozinha e tão doída que desejei que ele me
abraçasse e tive medo. Tive medo de trair Stefano.
No meio da
Piazza Sordello, respirei fundo o ar gelado da noite e, decidida, disse
adeus.
Ele ficou
parado, enquanto eu me afastava. Não olhei para trás, não podia perder
duas vezes os mesmos olhos.
Sabia,
sim, que Eduardo ia embora naquela madrugada – há coisa mais triste do
que um trem partindo na madrugada?- e não perguntei se, algum dia,
voltaria a Mantova. Com a alma apertada, não creio que ele voltará.
É claro que
não parti naquela noite, a última, nem nas seguintes. Esperei por
Federica no bar do hotel, nos fins de tarde. Sentei sempre na mesa da
faixa do sol. Vivi todas as lembranças e perdas que traz o outono.
Perguntei por ela. Procurei por ela. Enlouquecido de amor por ela.
Voltei a
Mantova nas férias seguintes e seguintes e seguintes. Talvez o deus do
destino jogasse de aproximar de novo. Kismet. Uma palavra bonita.
Quando,
cansado e desesperançado, penso que foi tudo imaginação de um velho
escritor, olho para o peso que segura as páginas do meu último livro.
Bem sei que não eram meus olhos aqueles que Federica via, quando olhava
para mim e, ainda assim, porque este é o meu destino, procuro por ela. A
faixa de sol incidindo sobre a esfera de vidro faz um reflexo ora verde
ora azul.
Hoje,
passado tanto tempo, fico pensando que a vida me deu uma segunda chance
e eu, sangrando, não pude perceber. Stefano esteve e estará para sempre
guardado em mim, feito um amor eterno interrompido, mas, porque, a
despeito de todo o sofrimento, ele estava morto e eu, viva, houve um
nome – Eduardo –, um olhar e uma possibilidade.
Eu,
escondido de mim, do meu ridículo, da minha racionalidade, quase num
ritual profano, eu chamo por ele. Kismet! Mas o destino tem vida própria
e deixou de se interessar pela minha vida. Talvez porque, no xadrez, eu
não seja mais do que um lance óbvio. Pronto! Foi assim que tudo
aconteceu. Agora, meu amigo, me deixa beber esta outra vida em paz.
Garçom!
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