Dois contos


A Metade de Um Eclipse

E Santo entrou em casa e sua esposa estava mais linda do que cinco diferentes tipos de passarinhos. E o arco-íris lhe deu bom dia. E sua esposa trouxe um ramo de ervas perfumadas e os dois com a ajuda de três anjos puseram as cadeiras no jardim. E um sol sorridente e a sombra de uma árvore balançava e o sol e o vidro da janela mais limpa que os olhos das crianças. E não existia dor, e não existia mais medo, e naquele exato o açougueiro notou que o seu avental era da cor de um céu no mês de maio. E o Santo se levantou, beijou sua esposa, passou a mão em seus cabelos negros e disse:

- Eu não acredito.
- Em?
- Que esse dia vai durar para sempre.

E a sua casa. E a sua esposa pôs as mãos no rosto e as lágrimas não paravam de jorrar. E o arco-íris, e a janela e o avental do açougueiro se tornaram… Um grito. E as ervas … amargas. E a música. E a árvore, e as moscas aos milhares. E a dor voltou a existir, e o pânico, e o fogo partiu o jardim em dois - este, a metade de um eclipse.

E o Santo se levantou no meio do vendaval e beijou sua esposa, e mesmo assim, com carinho, passou a mão em seus cabelos negros.



Milagre

Me levantei em um dia muito frio. Não tinha acordado direito e o único motivo de sair da escuridão do quarto para atravessar o gelo era a necessidade de procurar um outro emprego. Eu estava enlouquecendo, no sentido mais técnico da palavra. Olhei pela janela. O termômetro. Fiz a barba. Acendi um cigarro. Queria voltar para a cama. Não podia. O cadeado da bicicleta estava congelado. Ninguém nunca te disse que a Suécia é um inferno? Eu sei, ninguém diz estas coisas de um país como a Suécia. Resolvi caminhar até a agência de empregos. Estava tranquilo porque sabia que eles no mínimo iriam me dizer algo do tipo: “Você tem sorte de estar empregado, muitos aqui sequer tem a chance de cair morto em algum lugar”. Eu estava morto. Quer trocar de trabalho comigo?, eu responderia. Eu limpo a merda da bunda suja de gente velha e doente e de gente louca que não consegue se levantar da cama também suja de merda. Pagam pouco, menos do que você imagina. Mal dá para comer algo diferente de macarrão com salsicha e comprar algum sabão que purifique o cheiro impregnante de merda não apenas da minha roupa mas também de dentro da minha cabeça. Eu quero trocar de trabalho, fazer uma outra coisa. Mas eu não sabia fazer nada. Eu não tinha nenhuma educação que pudesse me livrar dos piores empregos do mundo. Nenhum papel, nada. Eu tenho 35 anos e não sei como ao menos consegui chegar até aqui sem nunca ter sabido fazer coisa nenhuma. Sem nunca ter sido preso. Nem cometido algum crime. Deve ter sido sorte. A mesma que cansada deveria estar começando a deslizar pelas minhas calças, meias, sapatos. Andava pela rua impressionado com o meu rosto. A barba feita acusava um tipo de cansaço nas vitrines embaçadas. Mostrava a marca do álcool, do execesso de cigarros, de um desaponto qualquer, de alguma outra substância. Continuei caminhando pensando se os meus sapatos furassem eu estaria perdido, não poderia comprar outro, parei de pensar nisso…E parei diante da agência de empregos, faltavam quinze minutos para ela funcionar, para aquela máquina começar a escolher o que poderíamos ou não fazer, o que vestir, o que comer, o que sonhar, talvez. Me senti melhor quando cheguei lá. Dois ou três aleijados, gente com o rosto muito pior do que o meu, fumavam no lado de fora, no frio colossal, esperando a porta se abrir. Um carro pára e um homem manco e com lágrimas tatuadas no rosto sai e se junta ao grupo. Ninguém troca uma palavra. Mal nos olhamos. Todos esperamos que alguma coisa aconteça. Imagino como os milagres são reduzidos a porções ínfimas diante as vidas miseráveis. Tem gente que quer ter um carro novo, outros querem que uma mulher de pernas bonitas apareça, outros sonham com férias melhores em um país exótico. Nós queremos apenas um emprego que nos livre de comer macarrão com salsicha todos os dias da semana e que nos proteja de um furo nos sapatos e se conseguirmos isso seremos as pessoas mais felizes do mundo, talvez entremos até para a igreja, talvez recuperemos até a fé em Deus, ou no amor, ou em muitas outras coisas. Tão pouco, por tão pouco chamamos isso de um milagre.

JORGE CARDOSO é autor de Mal pela Raiz. Vive atualmente na Suécia onde trabalha com curta metragens.