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De que lado fica o sexo
O sujeito diante de mim perguntou aquilo sem nenhum sinal prévio, e eu
fiquei ali sem ação, simplesmente olhando para ele, que me olhava de
volta. Como assim?
- De que lado fica o sexo?
A pergunta de novo. Aquilo era preocupante. De um lugar como aquele eu
não esperava nada além de comentários sobre o clima úmido e frio dos
últimos dias, coisas tolas para preencher o tempo que sempre se perde.
Agora isso.
Existe essa coisa em mim que detesta que eu cause uma pouca impressão em
quem quer que seja. Auto-estima fragilizada por anos de convivência com
meu pai, qual outra a causa? Minha mãe, talvez, minha ex-mulher, outro
talvez, mas eu certamente não vim até aqui para uma sessão de debates
sobre meus muitos, muitos problemas. E, no entanto, a verdade é que não
tolero a idéia de parecer que eu não sei, que não tenho qualquer
pensamento construído a respeito desse assunto, qualquer que seja ele, -
quem sabe você me retorna a mesma pergunta por e-mail e eu faço um
esforço de mostrar algo em troca, quem sabe você faz de conta que não se
frustrou por não receber de volta uma resposta e esquece da pergunta?
Nunca, nunca, nunca e penso em um passado de tantas posições
insustentáveis, tantas opiniões irrefletidas, tantas coisas ditas que
ficariam melhor jamais faladas, mas não, sempre a pressão, a pressão por
responder qualquer coisa, pelamordedeus, qualquer coisa.
Pensando nas minhas muitas horas de terapia, me pareceu que o sexo
deveria, em princípio estar à direita. Afinal, tudo quanto é repressão,
com todo o judaico-cristianismo da nossa civilização, tudo o que nossas
mães se preocupam em tolher e que depois nos faz odiá-las para sempre,
sempre tem sexo no meio. À direita, definitivamente. Não pode pra cá,
não pode pra lá. Generais, quando davam golpes, iam logo proibindo tudo
o que estivesse relacionado com sexo. Quando não proibiam, dificultavam.
O Papa idem. Diz que não pode. Não pode com ou sem camisinha, não pode
pílula, não pode oral, anal, nasal, clitoral, basal, qualquer que seja o
al. Não pode. Ergo, direita.
- De que lado?
A voz dele agora parecia mais preocupada, acho que pelo meu silêncio.
Mas eu sinceramente preferia não afirmar algo de que precisasse me
arrepender mais tarde; ao menos hoje eu preferia leveza e um almoço com
amigos, mais tarde, falar de coisas de homens e mais nada. Minha vizinha
de mesa no trabalho foi quem recomendou este sujeito insistindo que ele
era ótimo e que eu adoraria, sabe, do tipo que não se encontra mais por
aí nos dias de hoje?
De que lado então?
À esquerda? Não dava pra negar que o sexo sempre teve este aspecto
regicida, inconforme. Ele sempre soube suportar a violência e se impor
no final. Nem igrejas, nem as roupas dos séculos entre 14 e 19, nem a
era vitoriana, nem o socialismo real, nem as guerras e nem mesmo a AIDS,
foram capazes de abalar a nossa crença de que existe algo de basicamente
certo com o sexo, não importando tudo o que digam em contrário.
No entanto, havia tanta coisa! Homens e suas ereções se esvaindo ao
menor sinal de contratempo. Mulheres passando a vida inteira sem
conseguir dizer aos parceiros que simplesmente não era aquela a forma
certa de serem tocadas, penetradas, beijadas, amarradas, quaisquer adas
que pudessem contribuir de alguma forma para a facilitação dos orgasmos
que buscamos todos incessantemente. Esquerda autêntica não podia ser
assim, stalinismo nunca foi esquerda.
"De que lado?" Perguntou ele pela última vez, já com esse tom desanimado
na voz, de quem percebe que não vai ter uma resposta, o olhar dele o
mesmo que devemos ter quando perguntamos às nossas mulheres o que afinal
elas estão sentindo e porque estão desse jeito tão distante, justo hoje,
qualquer que seja o motivo que faça desse hoje teórico um dia especial.
A gente sabe, antes de terminar de produzir a ultima sílaba com
entonação de pergunta, a gente já sabe que a resposta simplesmente não
vai vir, que ela vai nos olhar de volta com dor e não dizer nada, porque
ela não sabe a resposta, porque ela sabe a resposta, mas oferecer essa
resposta simplesmente quebraria a mágica e faria tudo perder o sentido,
como se houvesse algum sentido nesse silêncio sem fim. Ele me olhava do
mesmo jeito, e eu olhava de volta do mesmo jeito que elas nos olham,
acho.
E pode parecer pouco a alguém que apenas esteja lendo, mas foi assim que
encerramos nosso encontro. Ele, um alfaiate sem a resposta de que
precisava pra executar o seu trabalho; eu, o infeliz dono de uma calça
que insiste em tornar o meu caminhar desconfortável, a cada passo dado,
que são muitos, pensem bem, por mais curto que seja o caminho, por mais
que se tente não pensar nisso.
MARCELO CARNEIRO DA
CUNHA nasceu em Porto Alegre, em 1957. É formado em Jornalismo e
sócio de uma empresa de design e comunicação com sedes em Porto Alegre,
São Paulo e Curitiba. Foi escritor-residente da Fundação Ledig House, em
Nova York, e já publicou doze livros. Vários deles foram protagonizados
por personagens adolescentes e classificados como literatura
infanto-juvenil, com o que o autor nem sempre concordou, embora já tenha
sido premiado pela Associação Paulista de Críticos de Artes e pela
Fundação Nacional do Livro Infanto-juvenil, entre outras instituições. A
geração e a turma a que o autor pertence, em Porto Alegre, se dedicou
principalmente ao cinema. Marcelo já escreveu roteiros para dois curtas,
Batalha naval, vencedor de cinco dos seis troféus para sua categoria em
Gramado, e O branco, um dos mais premiados curtas brasileiros em
festivais no mundo todo. Atualmente, dois romances de Marcelo estão
sendo adaptados para longas metragens. O Nosso Juiz pode ser o
próximo...
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