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Azul & Verde (Blue & Green)
Tradução de Leonardo
Vieira de Almeida

Verde
Pingentes de vidro pendem do ar. A luz desliza pelo vidro e forma uma
lagoa de verde. O dia inteiro os dez dedos do lustre gotejam verdes
sobre o mármore. As plumas dos periquitos - seus gorjeios estrídulos -
afiadas lâminas das palmeiras - verdes também; verdes hastes cintilando
ao sol. Mas o áspero vidro goteja no mármore; lagoas pairam sobre a
areia deserta; camelos cambaleiam ao atravessá-las; juncos as margeiam;
ervas silvestres obstruem o caminho; aqui e ali uma floração branca; o
sapo agita-se; à noite as estrelas coagulam-se hirtas. Vem o entardecer,
e a sombra varre o verde sobre o consolo da lareira, a eriçada face do
oceano. Nenhum navio vem; ondas sem rumo flutuam sob o céu inócuo. É
noite; as hastes gotejam borrões de azul. O verde se vai.
Azul
O monstro de nariz arrebitado emerge da superfície e esguicha por suas
grossas narinas duas colunas de água que, branco flamejante no centro,
derramam uma fímbria de espumas azuis. Afagam de risco azul o encerado
negro de sua pele. Lançando água pela boca e narinas canta, impetuoso
contra a água, e o azul se fecha sobre ele inundando os seixos polidos
de seus olhos. Atirado à praia ele jaz, cego, obtuso, soltando estéreis
escamas azuis. Seu azul metálico tinge o ferro desbotado da praia. Azuis
são as costelas de um barco a remo em destroços. Uma onda encapela-se
sob os sinos azuis. Mas a catedral é diferente, fria, carregada de
incenso, desmaiado azul nos véus das madonas.
O tradutor,
Leonardo Vieira de Almeida, é
escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do livro de contos Os que
estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento
literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no
jornal Panorama e nos sites literários Paralelos e
Bestiário.
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