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A cólera das legiões
Ancestrais desejos nômades irrompem,
enraivecidos pelo cativeiro.
A condição de fera acorda de novo
do seu sono brumoso.
(Jack London)
Acabo de reler, pela última vez, o comunicado oficial que recebi há dois
dias, pela manhã, selado com o timbre obscuro do governador. Num
primeiro momento pensei em queimá-lo, mas resolvi deixá-lo junto com os
outros papéis (que guardo no arquivo para que o passado não se perca).
Só assim posso registrar a oscilação de ânimo das pessoas - das
autoridades e dos detentos -, a maneira como reagem e mudam de opinião
ao soprar do menor vento. Pode ser que todo esse trabalho venha a
resultar em nada e toda essa pilha de documentos acabe enfim virando
cinza. Mas tentarei resistir. Aguardarei a chegada dos helicópteros. Não
deixarei que manchem o nome de Marcus Flavinius.
* * * *
Lembro-me da primeira vez em que avistei estas grades e adentrei no
pavilhão, os detentos em formação para ouvir minhas palavras. Na
verdade, nada tinha a dizer: queria apenas que permanecessem em silêncio
sob o meu olhar. Mas como tivessem uma faísca de dúvida nos olhos,
resolvi falar para que logo soubessem das minhas intenções e disse-lhes
sem rodeios que o tempo das fugas e das rebeliões havia acabado.
Nunca negligenciei os meus propósitos no exercício de minhas funções.
Com o tempo, aprendi que mesmo a indulgência deve ser severa, sobretudo
quando se passa os dias a lidar com pessoas que têm pensamentos atrás
das orelhas. É difícil saber o que há por detrás de seus olhos, conhecer
suas intenções, detectar seus códigos, interceptar as mensagens que
passam pelas celas como rios subterrâneos. É preciso dar alguma
utilidade para esses vadios, vigiá-los constantemente, perscrutar
através das paredes a próxima tramóia, a imponderável fuga que tramam
atrás das grades.
Há também os guardas, os carcereiros. É preciso permitir-lhes algumas
compensações, para que não sejam subornados pelos prisioneiros. É certo
que eles têm a sua parte para deixar que os presos dêem telefonemas e
que sempre os deixei caçar o seu sustento com esses pequenos
expedientes, mas ninguém poderá dizer que durante a minha gestão
ocorreram fugas facilitadas pelos funcionários. É necessário cuidar
também dos novos internos, que chegam em levas, em ondas sucessivas que
batem em várias direções e que é preciso represar com o látego. Um
guarda com um fio de arame nas mãos não é um simples funcionário, é um
legislador: a lição cala bem fundo na alma e os que insistem em ficar
esbravejando entre os dentes acabam sempre dando ocasião para um novo
espetáculo.
Naturalmente houve resistências quando decidi mudar o regime
disciplinar. Os detentos não aceitaram as novas medidas sem que fosse
necessário o emprego de alguma energia. Mandei atear fogo a um deles,
como exemplo. Os carcereiros trouxeram-no até o pátio e cobriram o seu
rosto com um capuz. A visão era aterradora: o infeliz queimava sem ver
as chamas, como que picado por escorpiões invisíveis. Nos casos mais
graves - nos refratários - ordenei que aplicassem algo que não deixa
vestígios e é tão eficaz quanto a lobotomia: há comprimidos que podem
dobrar a vontade humana. Todo esse esforço não foi suficiente, pois,
passado o efeito de várias aplicações, eles retornavam ainda mais
enraivecidos e inconformados com o cativeiro.
Recebi vários ofícios do governador e do secretário de segurança, um
amontoado de conjecturas manifestando desaprovação quanto aos meus
métodos. Respondi-lhes cortesmente que sem eles jamais poderiam fazer
ressoar nos palácios e nos salões da ostentação o som dos seus próprios
sapatos. Afinal de contas, alguém precisa fazer o trabalho sujo. Os
cárceres são propícios à demagogia. Nas minhas mãos fica a escória, o
lixo que eles produzem. Nas minhas mãos o trabalho diuturno de
distribuir penas e castigos, anotar em letra miúda as mínimas
ocorrências, abrir setores inteiros à inspeção pública. Nas minhas mãos
a tarefa de reduzir os custos, sim, os custos, e encontrar
permanentemente a melhor maneira de administrar toda essa barbárie.
Homens vistosos, de mãos pequenas e olhos pequenos - eis o que são.
Déspotas de mãos limpas, nada sabem sobre o rumor das casernas, não
conhecem o odor dos estábulos, como poderiam querer ditar a moral dos
calabouços?
Não esmoreci em meus propósitos. Para aperfeiçoar a vigilância, mandei
instalar monitores nos corredores. Mandei também erguer tubulações de
gás entre as celas - um gás paralisante, nada letal - e adverti os
internos de que não hesitaria em acionar as chaves, para esmaecê-los em
sua tentativa de ganhar as ruas.
É certo que a situação é excepcional, uma vez que me encontro
prisioneiro da própria estrutura que administro (sou diretor deste
presídio há oito anos, ou pelo menos o era até receber o envelope com o
comunicado obscuro do governador e até antes de estourar a rebelião).
Não temo a morte, em absoluto: conheço-a de perto como a um cão amigo.
No meu trabalho, não passa de uma mera ocorrência, que às vezes é
preciso antecipar e outras postergar.
Meu único erro foi não ter instalado a tubulação de gás nas oficinas,
precisamente onde começou todo o motim. Um dos detentos pegou um formão,
partiu a cabeça de um dos guardas e o desarmou. Isso foi suficiente para
atirar para frente a alcatéia inteira, misturando-se todos na ânsia de
arrancar o ferrolho da porta e desabar como um enxame sobre os outros
guardas. Na hora em que a porta cedeu, já não havia esperança para eles.
Quando fui alertado para acionar o mecanismo, metade dos presos estava
fora das celas. A metade rebelada tomou o pavilhão, fez dos guardas
reféns e, após duas horas, a outra metade foi ressurgindo aos poucos do
seu sono brumoso. Em pouco tempo tomaram o pátio central e as guaritas
internas. Dominaram mais reféns e os ataram a botijões de gás - dois dos
quais fizeram voar pelos ares com tiros certeiros tão logo os
helicópteros fizeram sua primeira investida. Ao cair da noite cortaram a
luz e, em seguida, os cabos telefônicos.
Ainda há pouco um dos helicópteros voltou. Deu duas voltas sobre o
pavilhão, despejou algumas rajadas de metralhadora sobre os detentos e
depois saiu zumbindo como um grande marimbondo negro. Com certeza não
pensam mais em me resgatar: vieram apenas olhar a extensão da desgraça.
Além disso, talvez estejam ocupados em outros lugares, tentando abafar a
turbulência dos últimos dias. É sempre assim: nos tratam como cães,
olhando-nos de cima com uma indulgência calculada. Quando perdem o
controle da situação, voltam os olhos na direção de nossos sabres, do
fio da espada que lhes garante o sono. Os cães, sim, os cães...
* * * *
A comida acabou e acabo de acender o único toco de vela que me restou. A
chama já começa a oscilar, deitando sua luz lôbrega e mortiça sobre o
papel em que escrevo. A essa altura os presos devem estar serrando a
última grade (poderiam incendiar todo o anexo, mas querem colocar suas
mãos em mim). Sim, agora mesmo os escuto atrás da porta - da derradeira
porta que nos separa - com facas apertadas entre os dentes e prestes a
tomar de assalto todo o gabinete.
Não temo por mim. Penso que terei pouco se me arrancarem o pescoço dos
ombros. Conheço o meu destino: fui educado no ódio e no desprezo e
morrerei desprezado e odiado como todos os verdugos. A moral dos homens
pouco me atrai - mas, se o arquivo permanecer intacto, imune às chamas,
os que o lerem saberão quem foi Marcus Flavinius.
OVÍDIO POLI JUNIOR é Doutorando em Literatura Brasileira pela
Universidade de São Paulo. Integrante da comissão editorial da Revista
Teresa, publicação da Área de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da
USP. Professor no ensino superior e coordenador de oficinas de criação
literária. Menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski
e no Concurso Nacional de Contos promovido pela Fundação Cultural de
Paranavaí-PR (2002). Classificado entre os finalistas do Prêmio
Guimarães Rosa, promovido pela RFI (Paris) em 1997. Tenho ensaios,
resenhas e contos publicados em antologias, sites e revistas literárias.
Publiquei um volume de contos em 1996 (As Grutas de Altamira). Preparo
para este ano um volume de contos e, para 2006, um romance
satírico-picaresco.
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