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Survive
O menino que desembarcou no Rio de Janeiro, em 1898, chamava-se Ali
Kalil. Tinha apenas 12 anos e vinha do Líbano, acompanhado de um tio e
da irmã menor. Fugiam às pressas de mais uma guerra santa que eclodira
meses antes. Esse foi o verdadeiro julgamento de Salomão para sua mãe,
que permanecera na terra natal. Em 1981, Isabel, uma das netas do
libanês, era redatora do jornal A Hora em Porto Alegre. Às vezes,
entristecia-se ao imaginar como aquela distante bisavó teria sofrido ao
separar-se dos filhos. Por que não viera junto, que forças a teriam
impedido? Teria morrido logo ou chorado por intermináveis anos? Quem
saberá? Era como se todas as respostas desse lado da família tivessem
afundado no meio do oceano. Dos antepassados maternos, tinha notícia do
tataravô, um espanhol que vivera na Banda Oriental por volta de 1880, em
uma vila chamada Serrería. Dele, era certo apenas que se unira a uma
mestiça, e tiveram muitos filhos - todos de pele muito alva, como a dele
- e uma menina de cabelos crespos e tez morena.
- Esa negra no es mi hija - costumava repetir Dom Pedro Rivera, e é
somente por meio dessa frase, contada de geração em geração, que Isabel
tinha conhecimento da existência de nobre alma espanhola na América.
Devido à cor de sua pele, entre as irmãs, ela era a única destinada ao
trabalho pesado da lavoura. Aos 13 anos, depois de sofrer diferentes
humilhações, Máxima (era esse o nome da moreninha) foi mandada a servir
uma família no vilarejo de Dom Pedrito. Lá, engravidou do filho do
patrão. Depois de inúmeras discórdias familiares, casaram-se. É dessa
mestiça e desse pequeno proprietário de terras que provém a outra parte
da família de Isabel. Para provar a fidelidade da mãe de Máxima, nas
gerações seguintes, sempre nasceram algumas crianças de pele muito
branca, e outras mais morenas, com cabelos cacheados. Naturalmente, a
absolvição póstuma não valeu grande coisa àquela mulher.
Isabel sentia essas duas identidades difusas como se fossem apenas uma.
Só haveria diferenças entre ambas caso tivesse nascido homem. Para uma
mulher - pensava - as coisas não eram muito diferentes no Líbano ou no
Sul da América do Sul.
No dia em que completou trinta anos, saiu do jornal só. Teve vontade de
chorar, de se drogar, mas uma imobilidade a envolvia. Nas semanas
seguintes, arrastou-se de casa para o trabalho, do trabalho para casa.
Dormia longamente, doze horas por dia, se fosse possível. Um dia, uma
parenta foi visitá-la. Ao abrir a porta, Isabel viu refletido na
expressão da velha senhora o horror de sua aparência. Tudo foi
rapidamente arranjado para que fosse fazer um tratamento em Montevidéu,
sob os cuidados de Margot, tia-avó que não via desde criança.
Submeteu-se à decisão familiar, desfrutando intimamente da idéia de
receber os cuidados de alguém. No dia da partida, limpou a casa
meticulosamente, certificou-se mais de uma vez de que o gás estivesse
desligado e as janelas bem trancadas. Chamou um táxi para levá-la da
Cidade Baixa à estação rodoviária e, antes de sair, secou delicadamente
as gotas de água que haviam respingado na pia. Trancou a porta, deixando
os cômodos escuros para trás. A cada degrau, o peito comprimia-se em uma
sensação de abandono. Partia para a primeira parte da jornada, cujo
roteiro previa uma parada na metade do caminho.
Lufadas de vento morno provocaram-lhe náuseas, e um arrepio percorreu
sua espinha quando desceu do ônibus na fronteira. Era o mesmo vento que
gostava de sentir quando adolescente e isso trouxe lembranças
embaralhadas do tempo em que andava pelas ruas da cidade, encontrando
amigos, rindo e gastando impunemente o vigor da vida. Hoje, era o
oposto. Cada passo lhe era custoso, e do espírito juvenil não restava
nada além dessas lembranças involuntárias. Embora estivesse longe de ser
velha, o tédio, o cansaço, tudo pesava-lhe como sucessivas camadas de pó
e de mofo acumuladas sobre si, de forma que nenhum resquício de seu
antigo brilho escapava por fresta alguma.
Voltou ao ônibus, a viagem recomeçaria em breve. Alguns passageiros,
percebendo a fragilidade de sua saúde, olhavam-na com curiosidade (com
piedade até). Isabel sorriu tristemente e murmurou que estava bem. Da
janela do veículo em movimento, pensou ter visto a palavra "Serrería" em
uma velha placa e um homem sentado à beira da estrada. Seria Dom Pedro
Rivera? Riu intimamente da idéia absurda. Avistou alguns ranchos, sonhou
com outros. Algum tempo depois, percebeu que o ônibus havia parado em um
pequeno posto à beira da estrada. Um cavalo inacreditavelmente branco,
de crinas longas e airosas, amarrado a uma árvore, atraiu seu olhar. Sem
pensar por um momento sequer, aproximou-se, montou o animal e cavalgou
alucinadamente por aquelas pradarias. O vento fazia com que seus cabelos
voassem, libertando as mechas castanhas no espaço, as emaranhando às
crinas do cavalo. A matéria se mesclava ao ar, aos suores e aos vapores
das nuvens, tudo por alguns segundos que tiveram gosto de eternidade.
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- Wake up, wake up! Um homem a sacudia. Abriu os olhos. O céu nublado
sobre si, onde estava o magnífico animal? Ela devaneava, estirada ao
longo da estrada. Um veterinário inglês em viagem pelo Uruguai tentava
trazê-la de volta do desmaio. Isabel tivera uma espécie de convulsão
associada à febre alta, explicou ele à tia Margot, que a esperava aflita
na rodoviária. Antes de partir, o inglês colocou na palma de sua mão um
bilhete, que ela guardou, sem ler, no bolso do casaco.
Os dias seguintes foram de lenta convalescença, cuidando pela janela o
movimento também lento de pessoas e coisas. Por vezes, seu pensamento
encontrava, inadvertidamente, o cavalo branco, e ela revivia - cada vez
mais fraca - a sensação de liberdade e de medo que tivera. Dias depois,
lembrou-se do bilhete. Estava escrito em inglês e dizia: "Take care.
Life is not easy, but, anyway, we must try to survive. Yours, ..." Ela
não lia muito bem no idioma estrangeiro, mas achou graça e, depois,
intrigou-se com o jogo de significados da palavra "survive" quando
transposta para o espanhol.
- El sur vive... Sobrevive - murmurou a si mesma.
Semanas se passaram. Era início do outono e Isabel estava no jardim
quando foi surpreendida por um homem que a observava desde a calçada.
- Isabel ?! - disse ele, enquanto abria o portão carcomido pela
ferrugem. Percebendo o espanto da outra, apresentou-se. Era Diego, seu
primo. Não se viam desde criança. Ele sorriu. Ela o olhou e simplesmente
não pôde falar nada, pois aquele sorriso acabara de inundá-la, como se
uma barragem tivesse sido rompida, e a força das águas carregasse tudo
rio abaixo, lavando, em um segundo, o mofo dos anos. A partir desse dia,
a paixão foi inevitável, causando acelerações cardíacas e devaneios mais
sérios que as convulsões febris de outrora. A felicidade, enfim, se
materializava.
No início de outubro, descobriu-se esperando um filho. Ao saber da
notícia, Diego sorriu e foi amável. A menina nasceu no inverno, em uma
manhã branca de geada. Margot mandou chamar Diego. Isabel, da cama,
escutava trechos desconexos da conversa, quando ouviu algo com o qual
tudo fez sentido:
- Lo que pasa, tía Margot, es que esa negra nos es mi hija.
MARLOVA ASEFF é jornalista e
doutoranda em teoria literária
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