Catarina

Catarina olhava bem de perto o passarinho azul preso na gaiola de cobre esverdeado. Aqueles olhos enormes eram luas para os pequenos olhinhos rápidos do bichinho que pulava, cantava uns inícios de melodias, umas melodias que ela iria cantar lá depois com uns 34 anos, sentada na cadeira do escritório e pensar: onde eu ouvi isso antes? Deve ser numa propaganda. E continuava sentada um pouco, pensando em nada, nem no serviço atrasado, nem nas janelas espelhadas verdes para fora e transparentes para dentro, espelhos de bronze fissurados. Em cima da mesa do escritório, ela tinha um imã com clipes caóticos e suaves, presos a si numa tensão e fragilidade da iminência de um beijo roubado, um beijo: catarina passando a mão devagar nas penas azuis lázuli do pássaro, as plumas que afundavam um pouquinho e escondiam a ponta dos dedos pequeninos da menina de sete anos. Afundavam exatamente como quando ela foi no teatro e viu as longas cortinas de veludo azul escuro. Eram impenetráveis, maciças, cápsula das imaginações, protegendo um frágil sonho de uma platéia de olhos cansados e gordos. Ela tinha um tutu rosa, deus, e seis anos, os pés pequenos de sapatilhas passando na goma laca em pó pelo chão, uns cristais amarelos enormes, podiam caber na mão toda, poeira grudenta. Não ouviu quando a professora chamou, uma, duas vezes, e alguma mão (daquelas mãos más que aparecem sem corpo e atuam, matam, interrompem um momento assim: lágrima e jogam tudo na crueldade) a jogou para dentro do palco, as mãozinhas dela abertas, espalmando o ar, encontraram o abraço condolente da cortina antes que o corpo caísse TUM e todos os olhos gordos esquecessem as pálpebras e olhassem para a menininha de rosa que caiu da cochia na hora errada. Lá no meio do palco ficou um cristal amarelinho, reluzente como uma pepita nos pés das frenéticas bailarinas que queriam roubar a cena do desastre, uma mão segurando o veludo azul e os olhos fechados, fechados e ela pisca forte, assim, quando o passarinho pega uma semente com a patinha e joga longe, longe, tic lá no chão vermelho. Um dedinho passou por cima de um arame da gaiola, pouca pressão. O sol da manhã. Um caminho de luz empoeirada da janela ao chão. Algo se perdera, pensará Catarina adulta e em seu vestido azul, olhando para uma gaiola vazia. Algo se perdera quando ela encostou o dedo na gaiola ou quando isso: alguma coisa já não pertencia mais ali. Talvez pintasse o cabelo no dia seguinte ou fosse naquela velha livraria onde ela passava as tardes procurando o título de livro mais estranho nas prateleiras sem fim dos livros marrons, talvez cozinhasse assim: silenciosa, lembrando da avó e da receita de pudim que ela nunca conseguiu pegar porque a casa das avós pegou fogo e o livro de receita foi se desfazendo no ar assim, véus de leveza mergulhando em um fogo liso, uma fumaça pequena toda cheia de um cheiro de creme hidratante, uma fumaça com gosto de bolinhos de chuva. Compraria flores, então. Iria habitar a gaiola com pequenas flores. Convencida, saía daquela vitrine de gaiolas e verduras impaciente, fuga antes que o pensamento voltasse e ela, parada na esquina, esperando o sinal abrir, lembrasse: o dedinho que corria pelo trinco da gaiola e o passarinho uma mancha pequena, pequena, pequena. Ele não se despediu dela, pensou ela pequena, não cantou uma ária simples e singela, simplesmente saiu voando da gaiola bruto, rápido como uma dor que atravessa o coração, ela vendo seu primeiro namorado com uma estranha no sofá aos beijos, ela fechando a porta devagar, andando pela casa, no quarto, na cozinha, na cozinha, beber água, talvez. E bebia água convulsivamente. O pássaro foi-se assim. Ela ficou ali olhando. Ela na cozinha olhando o copo d'água, transparente, impassível: me beba. A gaiola silenciosa. Uma urgência silenciosa de qualquer coisa: vamos, destino, me dê qualquer coisa. Alguém que chegue. Uma flor que caia do céu. Uma tempestade, um grito. Nada. Gemidos abafados na sala ao lado e o silêncio pequeno do pássaro indo. Um caminhão intruso que passou na porta da casa chamou as duas, acorde!, acorde!, eu vivo!. Pousou o copo na pia. Sentou no chão com o vestido azul claro com rendas. Não choraram, mas acharam que deveriam, por isso fizeram uma força, assim, como se espreme uma pasta de dente por um último sussurro. Catarina criança deixou devagar a gaiola aberta até quando se mudou de casa quando passou na faculdade fechou a portinha verdinha com um encontrão descuidado passando com uma caixa de livros. Catarina menina não chorou. Encheu um balde de lama do quintal com uma pá de plástico vermelha, misturou com uma graminha seca e entrou na sala, surpreendendo os dois com uma chuva nojenta de bichinhos do quintal e terra no sofá verde-musgo da tia. Enfim expiraram aliviadas: vivi. Como uma mancha azul que vai se confundindo com o céu, assim, vivi, respondi ao estímulo da vida.

Naquela noite, Catarina criança sonhou com três gatos laranjas dormindo no sol. Ela deitava perto deles, aconchegada no tapete onde eles dormiam e todos diziam: bem-vinda. E dormia o sono quente, quente, um sono na barriga barulhenta da avó.

As pantufas cor de creme ao lado da cama concordaram, risonhas.