Ilustração: Kirk Russ

Beth

Ela estava encolhida e ninguém percebia, mas tinha diminuído o que podia para não ocupar espaço na mesa. Beth estava triste. Gustavo encontrou um amigo que não via há muito tempo, ele estava agora morando em Brasília e os dois ficaram sentados na mesa com ela, que já sofria com a câimbra.

- E a Daphine? Vocês estão namorando ainda?

E o amigo abaixou a cabeça com o peso da resposta. Há em nós uma grande ligação emocional e física e era aquela uma demonstração que a questão agredia de uma forma que a nuca pendia, a nuca ardia, a nuca queria um tempo. Cinco minutos e veio:

- Não ficou sabendo? A Daphine me ligou e disse que estava apaixonada por outra pessoa. Eu perguntei quem era, queria acabar com o cara e quando ela me disse que era uma menina e que queria até me apresentar a garota, puxa, aí véio, o negócio complica. A Daphine é foda. A Daphine com 16 anos já era chamada de "Dááááphine", era galinha antes de querer ser. A Daphine acabou comigo beleza.

Gustavo ficou sem graça, não era capaz de consolar. E nem pretendia trazer à tona as queixas. Estava com dor de cabeça e não queria misturar cerveja com o hálito do passado de outro. Sua pretensão era uma resposta breve e a escolha de um novo assunto, como são mesmo as conversas de bar.

- Não fala pra ninguém que eu namorei a Daphine. Queima filme.

- Mas você gostava dela e ela parecia gostar de você. Valeu na época, cara.

- Gostava... gosta... o problema, Gustavo, é que ela gosta de mim e de todo mundo.

Gustavo perdeu a paciência e mudou o assunto sem levar em consideração a necessidade do amigo. Perguntou onde ele morava em Brasília.

- Moro em um prédio, no terceiro andar. Lembra que eu tava nas ondas de suicidar? Lá nem rola. Só quebra as pernas, nem compensa. E também quando eu lembro o motivo que me fazia querer morrer...

Gustavo foi rápido.

- Então... lá é uma cidade boa?

- Nossa, altas fitas. O branco lá é de qualidade, mas vou te mandar uma idéia: vai na farmácia aqui e pede Beladite, remédio pra dor de garganta. Sintetizado com ópio, véi. E bola também... mas, bola eu tomo de vez em quando, só pra dormir. É ducaralho. Lá não pode dar pinta, suja demais, o lance é que minha mãe já quer me tirar de lá, acha que eu enturmei.

- E vai pra onde? Franca?

- É, onde a minha família toda está. Lá tem barzinho classe A, faz frio, mas vou me enturmar denovo, com certeza. Não adianta.

Ninguém percebia, mas chovia na cidade e chovia muito. E para surpesa do leitor, Beth tinha virado peixe de tanto aperto contra o corpo humano e mirava seus olhos na torrente causada pelo excesso de água. Sonhava poder nadar por ali, entre os carros e as pessoas. Nem queria morar no mar, era exatamente o presente da natureza para o concreto que entusiasmava sua condição, era a cidade mesmo, era a água misturada com fumaça de escapamento que traria a felicidade desejada. Beth estava ainda na mesa e, sem fazer barulho com as nadadeiras, pulou para o chão, andou até a calçada e mergulhou. A força da enxurrada levou Beth para todos os bairros, ela viu várias pessoas e algumas vezes saltava para a rua espiando as conversas em lugares públicos. Escutou gente falando de obra de arte, decepção com o casamento, educação de filhos, preço excessivo de enlatados, novo outdoor da empresa concorrente, a tendência da moda. Voltava e brincava mais; queria aprender a nadar de costas, dar saltos grandiosos, tentar ir contra a correnteza, mas acabou parando naquele mesmo bar. Correu para o banheiro, se enxugou, voltou para a mesa e ninguém percebia que chovia na cidade e que aquele era sempre um acontecimento importante.

CECÍLIA BORGES
mora em Uberlândia/ MG e, em 2.001, com 16 anos, publicou através de um projeto do colégio em que eu estudava na época, um livro de poesias intitulado "Resposta". Desde então, procura investir na qualidade dos seus textos. Atualmente, cursa Letras na UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e Publicidade na UNITRI (Centro Universitário do Triângulo).