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As trabalhadoras
São Paulo, 05h30 da manhã, num bairro bem afastado do centro da cidade.
Judith acordara bem cedo; era uma rotineira segunda-feira. Abriu o
guarda-roupa, tirou do cabide o uniforme passado, vestiu as meias
grossas e brancas. Os cabelos negros, de antepassados africanos, eram
difíceis de ajeitar; um ou outro grampo nos fios enrolados deixavam-no
alinhado num antigo penteado de nome touca. Logo o ônibus passaria na
rua debaixo da sua casa, com o mesmo motorista de sempre, o que lhe dava
mais segurança em meio à escuridão do dia de inverno. Pensava muito
nisto de estar segura, às vezes como uma obsessão até, por causa de sua
filhinha Poliana, que deixava adormecida junto a uma velha boneca de
pano, com o dedo na boca e na cama da avó, que ficava com ela.
Nessa mesma rua, uma outra mulher também esperava por aquele ônibus de
linha; era Rute, formosa nos seus trinta anos, de pernas grossas e que
não arredava o pé da porta de sua pequena casa sem passar um batom. No
ponto de ônibus encontrara Judith impaciente com a demora do transporte
coletivo, pensando "tomara que o carro não tenha quebrado mais uma vez",
enquanto ela, Rute, que tinha cabelos castanhos e compridos, e um nariz
pequeno, sem ser arrebitado, arrumava a bolsa colada ao corpo,
conferindo as passagens contadas uma a uma pelo departamento pessoal da
fábrica em que trabalhava. As duas avistaram os faróis acesos do ônibus
vindo ao longe, descendo a rua em meio ao alvorecer do dia: amanhecia, e
o frio das primeiras horas da manhã faziam-nas aconchegarem-se aos
cachecóis que carregavam em volta dos pescoços alvos.
As duas subiram no transporte, quando este parou com o aceno de suas
mãos. Passaram a catraca, foram sentar-se.
Num dos bancos do ônibus, estava Dora. O seu rosto voltava-se ora para a
janela, ora para o livro que levava consigo, aberto sobre as longas e
magras pernas. Mantinha ela um olhar lânguido, contemplando as ruas em
que o transporte passava, quase esquecendo-se de que era tão cedo. Não
costumava sair em tão alta hora da manhã, mas é que uma de suas clientes
tinha agora um compromisso novo, que Dora estava bastante curiosa para
saber o que era. A freguesa queria um cuidado habilidoso, como poucos
que se vêem por aí, com as mãos e com os pés; e Dora o fazia com
perfeição. Como muitos dos passageiros que estavam ali no transporte
coletivo, inclusive Judith e Rute, locomover-se na grande cidade sem
gastar tempo era quase impossível. Dora havia dormido pouco, estudado
muito na noite anterior; temia a prova da faculdade que faria logo mais
na nova noite que ainda ia se apresentar, mas sabia que a faria com
preparo, ainda que com sacrifício. Tinha vinte e pouquíssimos anos,
possuía uma beleza discreta, e por isso mesmo, quando descoberta,
encantadora, com seus olhos claros, de cílios curtos, quase escondidos
pelos aros grossos dos óculos que carregava no rosto. Ela levava consigo
também um estojo de trabalho xadrez, que caiu no chão por uma freada
brusca dada pelo ônibus, quando uma moto atravessara imprudentemente o
seu caminho. Judith, que estava perto da moça, abaixou-se, e, num
instante, pegou o estojo, devolvendo-o a Dora. Esta a agradeceu com um
sorriso que não pôde se estender muito: havia o fato de que Judith já se
acotovelava entre os demais passageiros para chegar até a porta da
saída, pois o ponto em que desceria era o próximo, em frente ao hotel.
Judith saiu do ônibus, arrumou as meias brancas grossas, tratou de tirar
o crachá da bolsa e entrar no resort. Deu bom dia às recepcionistas,
passou o cartão de ponto no relógio digital, e foi tomar o seu café da
manhã junto às outras camareiras. O dia seria cheio; o final de semana
prolongado por causa de um feriado e um Fórum Cultural que estava
acontecendo em São
Paulo deixavam o hotel ainda mais lotado, com um vai-e-vem de pessoas
quase insuportável para o arrumar dos quartos, salvo por sua experiente
agilidade adquirida anos a fio de trabalho.
O ônibus que deixara Judith no hotel, logo aproximou-se da rua mais
próxima da fábrica em que Rute trabalhava. Era uma fábrica de uma grife
famosa, e exigia de suas costureiras um arremate primoroso. Rute o
tinha. Ela era, além de uma das mais rápidas dentre elas, a que mais
capricho empregava no que fazia. O ziguezaguear da máquina era para ela
um espetáculo de linhas e tecidos que não se cansava de ver; a agulha a
penetrar no tecido para prender um pedaço de pano a outro, e outro, e
outro mais. A tesoura, em suas mãos, era um instrumento quase cirúrgico,
fazendo qualquer médico um aprendiz na arte da costura ao lado de Rute.
Ela desceu do ônibus, atravessou a avenida com cuidado e entrou fábrica
adentro. Bateu o cartão de ponto, acomodou a bolsa no armário em que as
mulheres que ali trabalhavam guardavam seus pertences, e foi para a sala
de costura. Sentou-se a sua máquina. Era hora de costurar.
Dora ainda olhava para as ruas da cidade de dentro do ônibus quando se
deu conta de que estava perto da casa de dona Cida. Haveria bolo de fubá
para comerem juntas, antes de começar a arrumar a unhas da freguesa?
Pois aquela era uma cliente que a esperava sempre com algum lanche feito
para acompanhar o café. E como dona Cida gostava de conversar. Falava
muito, às vezes sem descanso para a língua nem para os ouvidos da
manicure; falava mais que o homem da cobra em plena praça da Sé. Ainda
bem. Dora interessava-se por histórias. Carregava sempre consigo um
romance, que ia lendo às tantas, dentro das conduções que tomava.
Dona Cida esperava por Dora com um bolo pronto sim, mas desta vez de
laranja. De uns dias para cá, a cliente estava outra, com uma prosa mais
alegre, com um olhar mais vivo. Assim que ela colocou as mãos e os pés
ao dispor da jovem, começou a rir. O dia ia ser bonito, não importava o
tanto de roupa que ainda lavaria com todo aquele frio, nem o filho que
só lhe trazia aborrecimentos, não importava que as contas, desse mês,
estavam um tanto mais caras e com muito mais impostos vindos da
prefeitura; parecia que nada, absolutamente nada, naquele dia, podia
arruinar o humor dela. Dora estava atenta com a agitação, logo cedo, da
cliente, enquanto ela mesmo bocejava cheia de olheiras por ter ficado em
cima dos livros na noite anterior. Foi só tirar o alicate do estojo
xadrez, pegar os esmaltes, que dona Cida começou a falar.
- Hoje eu tenho um encontro. Capricha, menina.
Dora alinhou o corpo no banquinho em que estava, concentrou-se no que
estava fazendo. Dona Cida encarregou-se de ir falando: arranjara um
namorado. Estava contente da vida; ele sabia até dançar. Conhecera-o no
Clube Piratininga, numa mesa de jogo. Dona Cida vira que o coitado
estava a perder todas as rodadas do jogo! Então fora o consolar no final
da tarde, de lencinho bordado em uma mão e leque na outra, sempre
movimentado e a fazer-lhe corrente de ar, em pleno inverno, por causa do
calor que sentia na menopausa. Era durona na canastra mas trazia dentro
do peito um coração mais mole do que pudim. E ele fora tocado de uma vez
só, quando o senhor disse a ela que estava a perder por pura gentileza!
Ah, mas que dona Cida fizesse a ele um favor. Que devolvesse o seu
coração! Ele havia sido roubado naquela tarde pelos grandes olhos verdes
da viúva - na verdade por causa de seus grandes seios fartos - mas ele
era um cavalheiro; que ela não se importasse com as rodadas de cartas,
que viesse a jogá-las novamente com ele, mas que fizesse o favor de
devolver o seu coração! "Não resisti! Não resisti!" disse dona Cida,
entre risos. Ofereceu mais bolo à manicure, que recusou por causa do
regime (imagine, havia engordado uns três quilos só de ansiedade por
causa das provas do semestre!). Dora prestava atenção ao trabalho que
executava e bocejava ao mesmo tempo. "Mas o que é isso?" perguntou Dona
Cida, "De onde vem tanto sono"? A manicure comentou sobre a prova que
estivera a estudar até as tantas da madrugada, enquanto o alicatinho ia
comendo as cutículas gordas da senhora. E, depois de um breve silêncio
entre as duas: "E seu namorado, Dora?" perguntou a cliente. "Eu não
tenho namorado, dona Cida". O silêncio voltou e permaneceu entre as
duas, durante alguns minutos, como se uma coisa muito densa estivesse
sendo segurada pelo ar! Dona Cida, que até aqui era só risos, de repente
ficou séria. Apertou as bochechas da jovem e pediu que a manicure
passasse o esmalte tom de ameixa. E finalmente desembuchou a frase presa
na ponta da língua grande: "a vida não está só nos livros!"
"A vida não está só nos livros", pensou Dora, enquanto esperava pelo
ônibus que a levaria a outra cliente de hora marcada. A frase soou como
uma martelada, era claro que ela ressentia-se de, jovem e bem disposta
que era, estar por aí como uma xícara sem pires, uma flor sem jardim.
Até dona Cida estava a ver estrelas! Como isso a irritara!
Olhara o relógio; quase a hora certa do ônibus. Entre um resmungo e
outro, estava só no ponto e chutou uma latinha de refrigerante caída na
calçada, aborrecida. Os cachorros vira-latas que andavam por ali
assustaram-se com o barulho, e foram fuçar em outro lixo deixado pela
portaria descuidada de um prédio do bairro paulistano. Depois de alguns
bons minutos de espera pelo transporte coletivo, que estava atrasado,
Dora tratou de esfriar a cabeça. Abriu a bolsa e retirou dali um
romance. Faltava muito pouco para terminar a sua leitura.
São Paulo, 12h30 da tarde; o termômetro da avenida Faria Lima marca 12
graus.
A fábrica de costura estava a todo vapor naquele dia. Rute mal costurava
uma peça e já vinha outra para ser arrematada. Suspirou de aborrecimento
ao lembrar-se no que tinha na marmita: carne moída refogada com vagem.
Já fazia dois dias que comia a mesma coisa. Era fim de mês e a grana,
curta. Além disso, tinha ainda muitos aviamentos para comprar: o vestido
de noiva que agora costurava, de noite, em casa, estava consumindo todo
o seu ordenado. Mas imaginar o vestido pronto logo a animava de novo, a
ponto de a fazer uma das mais velozes no salão de costura, deixando as
mulheres que trabalhavam com ela com inveja do seu costurar preciso. As
novatas, então, lerdas como tartarugas, temerosas de estragarem a peça
em mãos, admiravam-na. Na hora do almoço, umas tentavam, quando iam
sentar-se para comer na cozinha da fábrica, puxar conversa com Rute,
para saber como ela podia ter tamanha técnica.
Anos de trabalho e mais trabalho, respondia ela, rindo-se. Era bastante
tímida, não gostava de falar de si, do que fazia. Só sentia no peito
bastante amor por toda aquela produção acontecendo, aquelas agulhas
todas fazendo barulho de uma vez só. Mas a alegria mesmo dos últimos
tempos estava vindo do tal vestido de noiva que estava costurando, peça
por peça, com todo o zelo do mundo.
Certa noite, na companhia do seu gato pardo, Rute sentiu-se tão só na
frente da televisão que teve uma idéia: a de costurar o seu próprio
vestido de noiva, mesmo sem ter o noivo. Decidiu que costuraria o mais
belo vestido de noiva que pudesse no talento de suas mãos. Foi primeiro
fiando a idéia na cabeça, fiando, costurando pensamento por pensamento,
arrematando cada idéia nova que surgia até que, numa bela noite, viu-se
já a mexer em linha e agulha, a desenhar o molde do vestido, a malear o
tecido. E ele veio parar em suas mãos, antes mesmo de arranjar o noivo.
Mas agora isso para Rute era um mero detalhe.
São Paulo, 17h30 da tarde; bairro nobre da cidade.
A cama que Judith acabara de fazer era a última do dia. Recolhera os
lençóis, colocara-os no carrinho que ia para a lavanderia e rapidamente
estendeu outros, afofando os travesseiros para deixar tudo bem ordenado
e acolhedor. Pronto. Podia agora ir até a recepção, dar tchau às
meninas, bater o seu relógio de ponto. Estava louca para ir para casa,
ver Poliana. A sua mãe devia estar fazendo sopa para o jantar, e era bom
quando Judith conseguia conciliar o horário do trabalho com a hora em
que Poliana chegava da escola, depois de uma tarde inteira de atividades
e um par de meias bem sujas. Judith estava para sair quando uma das
recepcionistas a chamou.
- Judith, hoje uma das camareiras não vem por causa de uma dispensa
médica. O gerente pediu para você fazer um descanso agora, mas dobrar o
seu horário, porque o hotel está cheio demais.
Judith torceu o nariz. Queria ver Poliana, não mais camas! Mas teve de
se controlar, dar meia volta até o relógio de ponto novamente e
recomeçar a jornada. Iria jantar ali, no hotel, e não com sua filha.
Quando voltou aos quartos, estava pensativa demais em Poliana. Ela era
uma garota muito esperta. Recordara-se que fora numa noite parecida como
essa, exatamente há sete anos atrás, onde as pessoas passeavam nos
corredores do hotel para lá e para cá bem agasalhadas, umas indo tomar
chocolate quente no restaurante, outras a namorar no aconchego da
lareira dos apartamentos, que ela fora concebida. A recomendação do
contrato empregatício era claro: nenhum envolvimento dos empregados com
os clientes. Judith o sabia até de ponta cabeça, até conhecer o hóspede
Reinaldo, que sentiu uma grande atração pela camareira.
Era para ser apenas mais um dia de trabalho. Mas Judith fora pega
desprevenida quando arrumava a sua cama: ele voltava para o hotel
durante o horário do passeio do pacote de viagem. Os dois olharam-se e
trocaram poucas palavras; ela desculpou-se por estar ainda ali. Então
quem se desculpou foi ele, a diária já estava vencida e ele resolvera
ficar com outra. Tinha também um passeio do pacote da agência de turismo
que ele teria de estar fazendo, mas não estava. Então ele aproveitou e
perguntou o nome dela. Judith encabulara-se toda.
Encontraram-se novamente, na noite seguinte, pelos corredores do hotel.
Reinaldo, ao invés de subir no elevador social, meteu-se no outro, assim
que viu Judith entrando nele. "O que você está fazendo aqui?" perguntou
ela, assustada, e ele foi direto, "eu vim ver você". Depois calaram-se,
como se não houvesse mais nada a ser dito, era como se tudo já estivesse
certo; gostaram-se desde o primeiro instante que se viram. "Que horas
termina o seu expediente?" perguntou ele, "isso é loucura", encabulou-se
ela outra vez. Acertaram que se veriam à noite, quando ela não mais
estivesse de uniforme e nem de meias brancas. Ah, e o cabelo de Judith
estaria solto, sem a habitual touca, mas isso Reinaldo só descobriria
depois, quando se encontraram num barzinho perto do hotel, e passaram a
noite juntos.
Não, passaram uma semana juntos. Assim que Judith saía do hotel, os dois
davam um jeito e se encontravam. Reinaldo fez promessas. Disse que
voltaria em breve, no mais breve tempo que pudesse sair novamente de
Santa Catarina. Judith resolvera dar-lhe confiança, achava não estar
exagerando na dose que, em matéria de coração, é tão difícil acertar.
Esperou pelo novo feriado, e o outro, e todos os outros que vieram, sem
que Reinaldo aparecesse novamente. O telefone que ele dera a ela nunca
completara uma ligação entre os dois: quando Judith tentou falar com
ele, quem atendeu do outro lado da linha fora uma mulher, que não se
identificou como esposa ou não, mas que se mostrou de unhas e dentes
afiados para defender o seu território marcado.
Talvez quando ele soubesse do fruto de seus encontros com a camareira a
vida tivesse um outro rumo para Judith, talvez. Mas foram tantos os
poréns que a notícia de fato nunca chegou aos ouvidos de Reinaldo.
Judith passou do tempo da verde juventude e principiou a idade adulta.
Foi quando se viu a afofar os travesseiros cheia de recordações e uma
enorme mágoa que a consumia há anos: a de Poliana crescer sem a presença
de um pai.
O pensamento no assunto viera, naquele princípio de noite de inverno,
para Judith como a força de um leão, que ela não tinha a mínima idéia de
como domar de novo, e de novo, como o fizera até ali.
Ela juntou as últimas fronhas que iam para a lavanderia. Era apenas mais
um dia de trabalho.
ALINE ULRICH nasceu em Americana-SP, em 1977. Atualmente faz
mestrado em Literatura Brasileira na USP, em São Paulo. Formou-se em
Ciências Sociais pela UFSCar em 2000. Ganhou o primeiro lugar no
concurso nacional de contos da 1ª Bienal de Cultura e Ciência da UNE,
realizada de 23 a 30 de janeiro de 1999, em Salvador, Bahia, com o conto
Executango, publicado na revista Olhar, ano I, n. 2, da CECH/USFCar
(Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São
Carlos). Escreveu Histórias & Memórias, biografia romanceada de uma
matriarca do interior paulista, com metodologia de história oral e
pesquisa histórica da cidade de Rio Claro, que será publicada em 2005. É
autora também do livro de contos A vaca e os profanos, ainda não
editado. O título As trabalhadoras dá nome ao seu novo livro de contos,
onde as personagens refletem o quotidiano e os conflitos contemporâneos
acontecidos durante o trabalho que realizam, em uma grande cidade como
São Paulo.
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