Ametista roxa

Minha amiga Hilda escreveu que, para Deus, nada é triste, nem escuro, nem fede a bosta. Tudo é bonito para Ele. Escreveu também que aquela parte do corpo de Deus de onde sai o vento e onde o sol não ilumina, é toda de ouro e bem no centro tem uma ametista roxa. Mais ainda, se a gente olhar no fundão, no escuro do cu de Deus — perdão — encontra todo o mundo. Até a serpente do paraíso encontra. Além disso, contou Hilda, Deus não é grandalhão como se imagina. Tem um tipo mignon, voz aguda e canela fina. Vou eu saber se é verdade. Eu que nunca vi Deus. Quer dizer, só um dia vi e isso nem gosto de contar, pois já ameaçam com choques e aqueles comprimidos que me deixam torto. Imagina se ficam sabendo que aprendi, também através da fofoqueira da Hilda, que Maria tinha uma verruga na lateral da coisa — perdão — e quando José ou o Espírito Santo iam meter ela dizia cuidado com a verruga! Por isso ficou virgem. Escrevo essas idéias porque, se não faço, elas tomam conta da minha cabeça e me jogam no inferno. Se bem que não tem adiantado muito, outros pensamentos começam a aparecer, coisas tipo Jesus pelado com o negócio duro — perdão. E tanto voltam esses pensamentos ruins, que terminei concluindo: minha chance de salvação é dedicar a vida a divulgar a história do meu mano André, o santo. Meu irmão que, depois de cinqüenta, apareceu na televisão quando todo mundo achava que ele estava morto. Todo mundo menos eu, diga-se.

A doutora Jane, que é a encarregada da praxiterapia, tem me ajudado muito e diz que devo escrever tudo o que penso. Também é melhor escrever porque quando tento falar me atrapalho com as perguntas que as pessoas fazem, duvidando que um pobre coitado tenha um irmão ungido por Deus. Também escrevo porque, se não revelo a santidade dele, ninguém ficaria sabendo. Alguns homens santos não gostam de aparecer, e meu irmão é desses. Fosse mais exibido, como é a maioria dos santos, hoje seria padroeiro, com direito a feriado religioso e procissão.

Recordo que a peregrinação do mano André, o santo, como eu digo e sustento, começou em 1950. Ele estava com dezessete anos, o estádio ainda não fora construído e onde hoje é o Olímpico, ficava a Vila-caiu-do-Céu, onde tudo acontecia. Se havia desastre de avião na Europa, podia contar que naquela semana caía avião na vila. Se noticiassem atentado na Espanha, cedo ou tarde explodiria bomba na vila. Ou perto, como foi o caso da explosão no paiol do CPOR. E se houvesse conflito armado em alguma parte do mundo, onde aconteceria outro logo em seguida? Nas situações de guerra, eu já sabia das providências a tomar: subia no galho mais alto da goiabeira do pátio e ficava horas bombardeando os japoneses e passando mensagens aos aliados. Isso nos intervalos das tardes em que vestia camiseta do Grêmio e aplicava goleadas no Inter. Época boa, repleta de heroísmo e fama. Cantoras da Revista do Rádio vinham me procurar e eu tinha relações com muitas delas. Isso sem contar as artistas de cinema que apareciam com as coxas de fora em fotos da Eu Sei Tudo. Os dias transcorriam tranqüilos e ninguém pensaria que justo ali, na Azenha, que outros chamam Medianeira, em pleno século vinte, aconteceria um milagre: André.

Minha mãe lembra até hoje que, desde pequeno, André era quieto, solitário. Ficava horas escondido, lendo a Bíblia. Ninguém se metia quando ele estava nessas leituras ou citava incompreensíveis frases em latim. A gente respeitava, pois o André dizia ser língua de santo. Minha avó, beata de missa todo dia, passou a dizer que Deus estava reservando algo sublime para o meu irmão e que o André nada mais fazia que levar a vida com a calma e a convicção de um predestinado, à espera de algum sinal. E o sinal veio na parede da Casa Catraca, onde pregaram um cartaz que a família guarda até hoje:

COMUNICADO ROSACRUZ

Nós, representantes do Colegiado da Cruz das Rosas, dirigimo-nos aos que desejem filiar-se à Irmandade: transmitiremos o dom da sabedoria suprema. Conosco, aprenderão a passar do estado invisível para o visível, e do visível para o invisível. Serão levados a qualquer país que desejem visitar.

O candidato desejoso de atingir tal saber está, desde agora, informado que conhecemos seus pensamentos. E quem for movido unicamente pela curiosidade, jamais conseguirá entrar em contato conosco. Isto só é possível para os que nutrem genuína intenção.

Não precisamos revelar o local da nossa sede: se alguém estiver convicto do desejo de juntar-se ao Colegiado, nós o identificaremos e ele se identificará.
-----------------------------------

André trouxe o cartaz para casa e lembro como ele repetiu centenas de vezes essas palavras, cada vez com maior entusiasmo. Mãos erguidas para o céu, exclamava ter chegado a hora: encontraria os Rosacruzes. Convidou-me para ir junto, mas eu não quis. Mesmo tendo só sete anos e sendo o irmão mais moço, achei que meu dever era ficar em casa, cuidando de nossa mãe e nossas irmãs que estavam muito tristes. Também porque tive medo.

No dia seguinte ao do cartaz, André iniciou um jejum e explicou ser preparativo para encontrar a Irmandade. Estava jejuando há duas semanas, fazendo qual Santo Antônio vida de anjo na terra, quando teve a idéia de perguntar a Deus se havia no mundo alguém mais virtuoso do que ele, André. E o interrogou durante um Pai Nosso: existe, Senhor, alguém mais virtuoso do que eu? Passaram-se dias. Deus mudo e André já achando não haver pessoa mais pura. Foi então que lhe apareceu Santa Teresinha Ahumada. Muito linda, a santa, e muito terna. Vestida com um manto azul e cercada por uma claridade sobrenatural, olhava firme no olho do meu irmão. Um olhar franco, carinhoso e algo irônico. Imagino, pelo que o André contou, que o olhar da santa era semelhante ao da Ana Paula Padrão, a apresentadora do jornal da TV. Pois é, acho que a santa era bem parecida com ela. Quando faço essa comparação com a Ana Paula, que nem existia na época da aparição, minha mãe, velhinha de oitenta e cinco, fica com medo de eu recomeçar com as idéias que os psiquiatras dizem que são de esquizofrênico e vão querer me deixar mais tempo aqui na enfermaria, onde só o que tem de bom é a praxiterapia, a doutora Jane e a TV.

Mas, voltando à santa, depois de olhar André com ternura, ela falou. E o que disse deixou-o desapontado. Havia, sim, alguém muito mais virtuoso. Alguém que o suplantava em qualquer requisito para recompensas do céu. Foi um choque para André, até então achando-se pronto para encontrar os Rosacruzes. Apesar do desapontamento, a humildade própria dos santos fez com que decidisse: acharia o tal homem campeão de bondade. Deixou um bilhete e, naquela madrugada, sumiu de casa.

Nas semanas seguintes, foi visto perambulando em ruas do Cristal, na Tristeza e até na Pedra Redonda. Depois dos bairros de Porto Alegre, André passou a visitar cidades vizinhas: Canoas, Esteio, Sapucaia e Caxias do Sul, na frente da Catedral. E quando perguntavam o que ele estava fazendo, ele respondia que à procura de homem santo, desmedida e abuso de virtude. E riam na cara dele. Diziam santo é coisa do passado. Mas a André não importunavam os deboches, vencia tudo e todos, bastava armar-se com o sinal da cruz.

No primeiro ano de peregrinação ainda mandou carta toda semana. Passado esse tempo, não mais se ouviu falar dele. E até no jornal a família colocou nota para ver se sabiam de seu paradeiro e ninguém sabia. Dez anos depois, Deus me apareceu num sonho e revelou que André viajara com um circo. Mas sabe como são os santos. André não considerava circo circo. Ele concebia circo cidade precisada de fé, lugar repleto de pecado, habitado por anões, ilusionistas e por gente que praticava saltos mortais sem rede, arriscando a vida por alguns aplausos. Por isso, sentiu-se na obrigação de redimir aquele povo. Viveu com eles muito tempo, limpando bosta de cavalo, tigre, elefante e camelo, que todos esses bichos havia. Tanto empenhou-se na salvação daquelas almas que quando o circo estava se apresentando em São Paulo, em um sábado à tarde, platéia lotada, o domador exibindo seu número, eis que André entra na jaula dos leões carregando uma cruz, bem ao modo de Daniel. Parecia que os leões sabiam da história, pois curvaram-se e começaram a lamber os pés do meu irmão. As pessoas aplaudiam André e riam do domador, que precisava de chicote, cadeira, pistola e gritos para enfrentar as feras. No fim do dia, o domador expulsou André, dizendo aqui só tem gente boa, ninguém precisa de salvação e se queres salvar alguém vai é pro Rio de Janeiro que lá tem vício e pecadores. E lá se foi André para o Rio de Janeiro. Junto a esperança de encontrar o homem que Santa Teresinha descrevera desmesura de pureza. Depois de mendigar pelas ruas do Rio, André peregrinou até o Corcovado e escreveu mensagens nos pés do Cristo Redentor. Mensagens de júbilo, pois encontrara seu aliado na procura pelo virtuoso. O problema é que uns turistas começaram a rir dos gestos piedosos e André compreendeu que um deles, um americano de camisa colorida em exagero, era a transfiguração do Demo. Determinado, entrou em luta com satã e tanto bateu que chamaram a polícia e o colocaram no Hospital Miguel Couto, onde ninguém fala coisa com coisa. E André, que nunca foi de contrariar, coisa com coisa não falou também durante anos. Isso eu sei porque Deus me revelou em sonhos, pouco tempo antes de me prenderem aqui no Hospital, dizendo que era coisa de louco o que eu andava escrevendo nas paredes da cidade a respeito do meu irmão.

Essa revelação divina foi a última notícia que recebi dele durante os últimos quarenta anos. Todos que ouviam a história me diziam que André devia ter morrido, que não era coisa de santo a vida dele coisa nenhuma, que era coisa de louco isto sim. E eu o único a acreditar que ele devia estar em alguma parte do mundo, fazendo algo importante, só esperando o sinal. Até que, na semana passada, a enfermeira ligou a TV e havia imagens do Afganistão, onde vivem aqueles que derrubaram os edifícios nos Estados Unidos. Mostrava um bando de gente faminta e advinha quem eu vi no meio do povo? Meu irmão André. O Dr. Moacir, meu psiquiatra, disse que é a minha imaginação, que o André não existe mais. Todos me chamam de louco e perguntam como é que eu ia reconhecer meu irmão depois de cinqüenta anos e o que ele estaria fazendo no Afganistão e eu tenho a certeza que ele está fazendo aquele trabalho silencioso dos santos: converter muçulmanos ao cristianismo.

Isso é o que sei depois de ter visto meu irmão na TV. Conto para cumprir promessa feita e para me livrar dos maus pensamentos. E também por andar saudoso dos tempos em que nossa família estava inteira e o Estádio ainda não fora construído. Dos dias em que as artistas da Eu Sei Tudo vinham me visitar. Da época em que o pai ainda não tinha morrido como morreu, uma semana antes de colocarem o cartaz na Casa Catraca. Penso que nossa vida poderia ter sido diferente e sinto vontade de chorar. Só peço a Deus não me deixar dormir antes do Jornal da TV. Quero ver a Ana Paula olhando dentro do meu olho, enquanto me conta as notícias do mundo. Me devolvendo a esperança com seu olhar de santa. Bem parecida ela é.