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A tortura pela esperança
Tradução de Roberto
Schmitt-Prym
Ao Senhor Edouard Nieter
"Oh! Uma voz, uma voz, para gritar!..." Edgar Poe - O Poço e o Pêndulo.
Há muitos anos, ao cair da tarde, nos cárceres do Santo Ofício de
Saragoça, o venerando Pedro Arbuez de Espila - sexto prior dos
dominicanos de Segóvia, terceiro Grande Inquisidor de Espanha -, seguido
de um frade redentor (mestre torturador) e precedido de dois
encarregados da Inquisição, os quais seguravam duas candeias, descia
para uma enxovia perdida. Rangeu a fechadura de uma enorme porta;
entraram num mefítico in pace, no qual a janela gradeada lá em cima
deixava entrever, entre os anéis chumbados à parede, um cavalete escuro
de sangue, um queimador, um cântaro. Sobre uma cama de palha, preso por
grilhões, canga de ferro ao pescoço, sentava-se, desfigurado, um homem
em trapos, de idade incerta.
O prisioneiro não era outro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu
aragonês acusado de usura e de impiedoso desdém pelos pobres que, tem sido
diariamente submetido a torturas, há mais de um ano. Todavia, "sua
cegueira é tão dura quanto o seu couro", e ele recusa-se a abjurar sua
fé.
O rabino, brioso de uma ascendência milenar, orgulhoso de seus
antepassados - pois todos os judeus dignos desse nome são ciosos do seu
sangue -, descendia talmudicamente de Othoniel e, por conseguinte, de
Ipsiboe, mulher desse último Juiz de Israel, circunstância em que também
sustentara a sua coragem diante de incessantes suplícios.
Foi com lágrimas nos olhos, ao pensar que essa alma tão firme se escusava à
salvação, que o venerando Pedro Arbuez de Espila, tendo se aproximado do
fremente rabino, pronunciou as seguintes palavras:
- Meu filho, alegra-te: vão acabar agora as tuas provações neste mundo.
Embora, em face de tanta obstinação, eu tenha sido forçado, com lástima,
a permitir o emprego de tantos rigores, o meu encargo de fraterna
correção tem seus limites. És a figueira, que passando tanto tempo sem
frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se
a infinita Misericórdia te iluminará no teu último instante! Esperemos
que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois, em paz esta noite.
Serás incluído amanhã no auto-de-fé: isto é, saras submetido ao
queimadeiro, fogueira premonitória das Chamas Eternas; como sabes, meu
filho, só arde à distância e a Morte leva duas horas para chegar (muitas
vezes três), por causa dos panos molhados e gelados com que temos o
cuidado de proteger a frente e o coração dos holocaustos. Serão apenas
quarenta e três. Considere que, estando colocado na última fila,
disporás do tempo necessário para invocar Deus, para te ofertar esse
batismo do fogo, que é do Espírito Santo. Tenha assim, esperança na Luz
e durma.
Ao acabar este discurso, dom Arbuez, depois de, com um gesto, mandar
desagrilhoar o infeliz, abraçou-o ternamente. Depois coube a vez ao
frade redentor, que, sussurrando, pediu ao judeu perdão pelo que o
obrigara a sofrer para o redimir; por fim, cingiram-no os dois
encarregados cujo beijo, dado através dos capuzes, foi silencioso.
Terminada a cerimônia, deixaram o cativo nas trevas, só e atônito.
* * *
O rabino Aser Abarbanel, de boca seca e olhar embrutecido de sofrimento
começou por fitar, sem muita atenção, a porta fechada. - "Fechada?..."
Esta palavra, no mais íntimo de si, despertava, nos seus confusos
pensamentos, um devaneio. Acontecia que entrevira por um instante, pela
fresta entre a porta e a muralha, o cintilar de lanternas. Uma idéia
mórbida de esperança, devido à fraqueza de seu cérebro, convulsionou-lhe
todo o ser. Arrastou-se para a insólita coisa que aparecera! E,
suavemente, inserindo um dedo com grande cautela na nesga, puxou a porta
para si. Que assombro! Por extraordinário acaso, o encarregado que a
fechara rodara a grossa chave um pouco antes do embate contra os
montantes de pedra, de modo que a lingüeta enferrujada não entrara no
seu encaixe, e a porta voltou a rodar nos gonzos.
O rabino arriscou um olhar para fora.
Encoberto por uma espécie de obscuridade lívida, distinguiu primeiro um
semicírculo de paredes terrosas recortadas por degraus em espiral; e,
diante dele, cinco ou seis degraus de pedra acima, um portal escuro,
aberto para imenso corredor, do qual apenas as primeiras arcadas lhe
eram visíveis.
Deitando-se rastejou até ao rés desse limiar - sim, era mesmo um
corredor, mas de comprimento desmedido! Iluminava-o uma luz pálida, um
brilho onírico: suspensas das abóbadas, chamas de vigia banhavam de tons
azuis, a intervalos, o ar pardacento: - o fundo longínquo era todo
sombra. Nem uma porta lateral em toda essa extensão! De um só dos lados,
à esquerda, havia seteiras, com grelhas em cruz, abertas nas paredes,
que deixavam perpassar o crepúsculo - que devia estar anoitecendo, dadas
as réstias rubras que de quando em quando riscavam o lajeado. E que
silêncio assustador!... Contudo, ao fundo, nas profundas dessas brumas,
uma saída poderia dar para a liberdade! A vacilante esperança do judeu
era tenaz, pois era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou
camuflar-se com o tom sombrio das longas muralhas. Avançou lentamente,
arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um grito, quando lhe
martirizava uma chaga mais recente.
De súbito, chegou até ele, no eco da senda de pedra, o ruído de
sandálias que se aproximava. Tremeu; a ansiedade abafava-o; escureceu se
lhe a vista. Não era possível! Seria o fim? Agachou-se num côncavo e,
quase morto, esperou.
Era um encarregado apressado. Passou rapidamente, de lacerador na mão,
de capuz rebaixado, terrível, e desapareceu. A agonia do rabino parecia
ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou ele, quase uma hora,
incapaz de mover-se. Receando redobrados tormentos caso fosse apanhado,
assaltou-o a idéia de voltar ao calabouço. Mas a velha esperança
sussurrou-lhe na alma o divino talvez, que nos conforta sempre, nas mais
dolorosas circunstâncias. Acontecera um milagre! Não havia que duvidar
mais! Pôs-se a rastejar de novo, para a possível fuga. Avançava
extenuado de sofrimento e de fome, trêmulo de angústias - e esse
sepulcral corredor parecia alongar-se misteriosamente! E ele, avançando
sem parar, continuava mirando a sombra distante, onde tinha de estar a
saída salvadora.
- Oh! Oh! - voltavam a soar passos, mas, desta vez, mais lentos e mais
pesados. Surgiram, ao fundo, emergindo no ar pardacento, com os seus
chapéus compridos e de abas enroladas, as formas brancas e negras de
dois inquisidores. Conversavam em voz baixa e pareciam discutir sobre um
ponto importante, pois gesticulavam veementemente.
Ao vê-los, o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão
desordenadamente o coração que quase o sufocava; seus andrajos estavam
úmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel, estendido ao longo da
parede, a boca aberta, sob os raios luminosos de uma chama de vigia,
orando ao Deus de David.
Diante dele, os dois inquisidores detiveram-se sob luz fraca da lâmpada
- e isto certamente por um acaso da discussão. Um deles, escutando o seu
interlocutor, se pôs a olhar para o rabino. E, sob esse olhar, cuja
expressão absorta começou por não compreender, o infeliz julgava sentir
as tenazes quentes a lacerarem-lhe de novo as pobres carnes; então ia
voltar a ser um grito e uma chaga! Desfalecendo, oprimido, com as
pálpebras vibrantes, arrepiava-se ao roçar do burel do outro. Mas, coisa
estranha, mas natural, o olhar do inquisidor era evidentemente o de
alguém profundamente absorto na resposta que daria, absorto pelo que
ouvia: estava fixo - e parecia olhar o judeu sem o ver!
Com efeito, passados alguns minutos, os dois sinistros debatedores
continuaram o seu caminho, a passos lentos, sempre conversando em voz
baixa, em direção ao compito de onde viera o prisioneiro: NÃO FORA
VISTO!... No meio da horrível confusão dos pensamentos, brotou-lhe do
espírito esta idéia: "Não me vêem porque estou morto?" Uma horrível
impressão tirou-o da letargia: ao fitar o muro, junto ao rosto, julgou
ver, diante dos seus, dois olhos ferozes que o espreitavam!... Voltou a
cabeça num súbito frenesi de pavor, arrepiando-se-lhe os cabelos!...
Mas, não! Não. Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos
do inquisidor, ainda impressos nos seus, e deles projetados sobre duas
manchas na muralha.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava
(absurdamente, sem dúvida) ser a sua salvação, para as sombras das qual
não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos, com as
mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e dai a pouco entrava no trecho
escuro daquele horrível corredor.
De súbito, o miserável sentiu um frio nas mãos que apoiava nas lajes:
uma lufada de ar frio, vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as
duas paredes. - Ah, Deus! Se esta porta desse para o lado de fora!
Sentiu-se invadido de uma vertigem de esperança! Examinou a porta de
alto a baixo, sem conseguir distingui-la bem, dada a escuridão que
reinava à volta. - Pôs-se a tatear: nem ferrolho, nem fechadura. - Uma
simples aldrava!... Endireitou se: o trinco cedeu-lhe ao polegar: a
silenciosa porta abriu-se diante dele.
* * *
- ALELUIA!... - murmurou, num imenso suspiro de ação de graças, o
rabino, que estava agora em pé no limiar, contemplando a cena que tinha
diante dos olhos.
Ao abrir se, a porta deixara ver jardins, uma noite estrelada! A
primavera, a liberdade, a vida! Dava para os campos que se prolongavam
para as serras, cujas sinuosas linhas azuis se perfilavam no horizonte -
enfim, era a salvação! Ah, fugir! Havia de correr toda a noite por entre
os limoeiros cuja fragrância chagavam até ele. Uma vez nas montanhas,
estaria salvo! Inalou o bom ar sagrado; o vento reanimava-o,
expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu, no coração dilatado, o Veni foras
de Lázaro! E, para voltar a abençoar o Deus que lhe concedia tal
misericórdia, estendeu os braços à sua frente, elevando os olhos ao
firmamento. Era o êxtase da alegria!
Então, julgou ver a sombra dos seus braços virar-se para ele: - julgou
sentir que esses braços o abraçavam, o enlaçavam, e que o cingiam
ternamente ao peito de alguém. De fato, havia uma alta figura junto da
sua. Confiante, desceu o olhar para essa figura - e ficou imóvel,
ofegante, estarrecido, de olhar baço, tremendo, de faces inchadas e
espumando de terror.
- Horror! - estava nos braços do Grande Inquisidor, o venerável Pedro
Arbuez de Espila, que o fitava, com grossas lágrimas nos olhos, e um ar
de bom pastor que voltou a encontrar a ovelha tresmalhada!...
O tenebroso dominicano apertava o judeu ao peito com tão fervoroso
impulso de caridade, que os picos do cilício monástico lhe esgadanharam
a pele. E, enquanto o rabino Aser Abarbanel, de olhos revoltos sob as
pálpebras, estrebuchava de angústia entre os braços do ascético Dom
Arbuez e percebia confusamente que todas as fases da fatal noite mais
não eram do que um suplício previsto, o da Esperança!, o Grande
Inquisidor, num tom de pungente censura e de olhar consternado,
murmurava-lhe ao ouvido, com o hálito ardente e debilitada pelos jejuns:
- Então, meu filho, o que é isso? Então, na véspera talvez da
salvação... querias deixar-nos?
VILLIERS
DE L'ISLE ADAM (1838-1889). Jean Marie Mathias Philippe Auguste,
conde de Villiers de l´Isle Adam, nasceu em Saint-Brieuc, Bretanha, numa
família de antiga nobreza rural arruinada. Em Paris freqüentou os cafés
e os círculos literários, conheceu Baudelaire, o jovem Mallarmé e
Huysmans. Já apaixonado pelo ocultismo, pela literatura de Poe e pelo
sistema filosófico de Hegel, publicou em 1858 o seu primeiro livro de
poemas. Romancista e dramaturgo, Villiers é conhecido pela imaginação e
bizarria dos seus contos.
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