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A solidão do corpo
(...) um travão inesperado e o corpo rodopiou sendo atirado à distância.
Estava perto do mar e sentia ainda a brisa que afagava o seu ventre. A
dor começava a invadir os membros e a nuca, depois de uma sensação de
leveza, os olhos buscando o espaço e a vida que se extinguia. Uma
estranha lassidão tomava posse do seu ser. Percebeu, de relance, a sua
situação. Estava só, não podia articular uma palavra, mas seu pensamento
ia longe e recolhia imagens da sua infância, da sua juventude e da sua
vida adulta.
Nesse momento, fechou a porta da sala, apagou as luzes, desligou o ar
condicionado. Os mesmos hábitos de todos os dias. Olhou para o quadro
onde escrevera algumas frases. Pensou em apagá-las mas a preguiça
venceu-o e deixou-as assim mesmo. Dirigindo o carro, pelo mesmo
itinerário, mal ouvia a música do auto-rádio, sempre desatento às coisas
que o cercavam. Brincava com o seu pensamento e misturava lembranças de
viagens, da família e de pequenos acontecimentos.
(...) pôde distinguir algumas imagens de sua breve vida. Não podia
selecioná-las, porque a mente já não ajudava. As imagens começavam a
ficar baças, tentou recompô-las, talvez instântaneos da família, de
lugares e de pessoas. De que servira tanta alegria, tanta
espontaneidade, tanto à vontade, que a alguns incomodava, no seu afã de
conquistar o mundo? Teria sido feliz aquela mulher, cujo corpo na
estrada, à beira-mar, se entregava à dor e à solidão?
Leu a notícia no café da manhã. O jornal dobrado junto da bandeja de que
se servia habitualmente. A princípio confundiu a informação, depois veio
o esclarecimento. Há muito que não sabia dela, se era feliz ou infeliz.
Em tempos passados, chegara a compreender seus gostos e suas
contradições. Talvez a aceitasse assim mesmo e não conseguira distinguir
o que nela o havia atraído, se a sua juventude, se a sua desenvoltura,
se a sua ambição.
(...) ela interroga-se e interroga os que passaram pela sua vida. O que
quiseram de mim? A minha liberdade? A minha submissão? Por que não me
deixaram ser feliz? As imagens afastaram-se do espírito, cujo corpo
permanecia na estrada. Algumas lembranças da escola e do trabalho. Das
crianças e dos amigos. Queria uma vez mais, ainda que fosse a última,
sentir o sol, o mar, a pele queimada, a música, o riso.
Retornou à sala. No quadro, as frases continuavam intactas. Apagou-as,
não queria pensar agora em nenhuma teoria. Lembrou-se dos versos de John
Donne. Não somos uma ilha, somos parte de um continente. Cada um de nós
que morre é uma parte de nós que se vai. Uma insustentável tristeza
começou a tomar conta do seu ser. Tinha pena dos que morriam jovens. Uma
imensa pena pela dor que havia no mundo e pelo desespero das pessoas.
(...) no silêncio do asfalto, uma mulher ainda jovem despedia-se do seu
corpo. Nenhuma dor, uma infinita paz. Os seus olhos, que se confundiam
com a laguna, começaram a se fechar, como se mão invisível os tivesse
tocado.
Valeria a pena recordar o que acontecera? Não iria causar mais mágoas?
Um dia, quem sabe, compreenderiam melhor. A vida é tão breve, como um
sopro de ar num dia quente de verão. Aquele primeiro toque de mãos...
Não, não valeria a pena retirar do passado lembranças que deveriam ficar
guardadas. Para sempre. Mesmo que o novo verão trouxesse tantas imagens
de volta.
CARLOS D'ALGE nasceu em Chaves, Portugal, em 1930, tendo viajado
para o Brasil aos seis anos de idade. Graduado em Letras, Direito e
Educação, é professor de Literatura da Universidade Federal do Ceará.
Membro da Academia Cearense de Letras. Doze livros editados. Seus contos
apareceram em jornais, revistas e antologias, como O Talento Cearense em
Contos, com a narrativa "Breve Ensaio Sobre a Solidão" e no volume A
Mulher de Passagem, de 1993.
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