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Samuel Rawet
O recente dos
Contos de Novelas Reunidos, de Samuel Rawet (Rio, Civilização
Brasileira; 490 páginas) permitiu evocar a obra e a trajetória de um
autor que, há muito tempo ausente das livrarias, transformara-se numa
figura cult, em parte por causa do caráter peculiar de sua literatura e
em parte por sua tumultuada existência. Judeu polonês, nascido
em
Klimontow a 23 de julho de 1929, Rawet imigrou com sua família para o
Brasil em 1936. Morando no Rio, aprendeu o português, formou-se em
engenharia e, em 1963 foi para Brasilia, trabalhar, junto com Joaquim
Cardozo, famoso calculista e também poeta, na construção da nova
capital. Simultaneamente escrevia: contos, novelas, ensaios, peças
teatrais. Sua obra inclui:
-
Contos do imigrante (1956)
-
Diálogo (1963)
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Abama (1964)
-
Os
Sete Sonhos (1967)
-
O
Terreno de uma Polegada Quadrada (1969)
-
Viagens de Ahasverus à Terra Alheia (1970)
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Devaneios de um Solitário Aprendiz da Ironia (1970)
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Alienação e Realidade (1970)
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Eu, tu e ele (1972)
-
Angústia e Conhecimento (1978).
Contos do imigrante,
em
particular, foi saudado como uma obra inovadora e recebeu rasgados
elogios da crítica. Com o passar do tempo, contudo, foi-se tornando cada
vez mais evidente a perturbação mental de Rawet, que assumiu a forma de
violento anti-semitismo, ou seja, auto-ódio judaico. Ele imaginava-se
vítima de uma conspiração judaica, que denunciava através de artigos
publicados em vários jornais do Brasil. Andava pelas ruas de Brasília,
de short e chinelos, com uma gaiola na mão, destinada, segundo dizia, a
“pegar os ratos judeus”. Desta última faceta posso dar testemunho
pessoal.
Durante muito tempo quis conhecer Samuel Rawet. Algumas vezes, em
Brasília, liguei para seu trabalho, apenas para receber a informação de
que ele “raramente aparecia por lá”. Mas então houve um encontro de
escritores, em São Paulo, e aí ocorreu um perturbador incidente.
Eu
estava num painel junto com Rubem Fonseca e Dyonelio Machado. No
corredor, a caminho do salão onde se realizaria a atividade, Rubem
Fonseca virou-se para mim e disse que tinha decicido não participar:
escritor não é para falar, disse ele, escritor tem de escrever.
Alarmado, ponderei que as pessoas já estavam à nossa espera e que aquele
não era o momento mais adequado para chegar àquela conclusão. Rubem não
quis saber: despediu-se e foi embora. E eu também não vou falar, disse
Dyonelio, acrescentando: “Sei o que eles vão pensar: olha só como o
velhinho ainda está lúcido.” Com o que também saiu.
Fiquei
sozinho, jovem escritor (isso faz um bocado de tempo), apavorado. Fui
até o salão, expliquei que o painel programado não mais aconteceria e
que eu não sabia o que dizer. O público foi compreensivo e alguém pediu
que eu falasse sobre meu próprio trabalho. Contei sobre minhas origens e
sobre a influência judaica em meu trabalho, acrescentando que nisso eu
não era original: o pioneiro nessa área havia sido Samuel Rawet.
Quando
terminou a sessão, alguém se aproximou e perguntou se eu conhecia Samuel
Rawet. Eu disse que não, e que nem sabia de sua presença ali. A pessoa
me levou até um homem baixinho, magrinho, que vestia um grotesco
macacão. Apresentei-me, disse que era um prazer conhecê-lo. Pois para
mim não é prazer nenhum, respondeu, aos berros, eu odeio vocês todos.
(Esse “vocês” referindo-se, obviamente, aos judeus.)
De
imediato estabeleceu-se uma confusão. A professora Bella Jozef, que
estava comigo, pôs-se a chorar, outros ficaram indignados. Mas eu
(talvez mobilizando meu lado médico) consegui controlar-me, pedi-lhe que
se acalmasse e fui embora.
Algum
tempo mais tarde, em 1984. Samuel Rawet foi encontrado morto no
apartamento da cidade-satélite de Sobradinho onde morava só; aliás, o
óbito só foi notado quando os vizinhos, por causa do cheiro, arrombaram
a porta.
Doença mental e
literatura não é uma associação rara.
Em Touched
with fire: manic-depressive illness and the artistic temperament
(New York, Free Press, 1994) a psiquiatra Kay R. Jamison relaciona
centenas de casos famosos. A conclusão se
impõe: doença não favorece a genialidade, ao contrário, destrói-a. O
talento de Samuel Rawet foi liquidado por sua paranóia. Mas sua obra,
original e perturbadora, merece ser lida.
MOACIR SCLIAR,
nascido em Porto Alegre, em 1937, é autor de 53 livros, em vários
gêneros: conto, romance, crônica, ficção juvenil, ensaio. Obras suas
foram publicadas nos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha,
Portugal, Inglaterra, Itália, Tchecoslováquia, Suécia, Noruega, Polônia,
Bulgária, Japão, Argentina, Colômbia, Venezuela, México, Canadá, Israel
e outros países, com grande repercussão crítica.
Recebeu vários prêmios, entre os quais: Academia Mineira de Letras
(1968), Joaquim Manuel de Macedo (1974), Érico Veríssimo (1975), Cidade
de Porto Alegre (1976), Brasília (1977), Guimarães Rosa (1977),
Associação Paulista de Críticos de Arte (1980), Casa de las Américas
(1989), José Lins do Rego, da Academia Brasileira de Letras (1998),
Jabuti (1988, 1993 e 2000, neste último ano por A Mulher que Escreveu a
Bíblia). Tem trabalhos adaptados para cinema, tevê, teatro e rádio. É
colunista dos jornais Zero Hora (Porto Alegre) e Folha de S. Paulo. Foi
professor visitante nas Universidades de Brown e Austin.
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