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Rawet, o solitário caminhante do mundo
Tudo o que há de absurdo no mundo concreto
encontra logo um ponto de referência: o sonho. O encadeamento de imagens
dessa experiência alucinatória é a metáfora mais antiga que existe para
a aleatória sucessão de eventos do cotidiano. Do sonho para a
psicanálise: um salto. Apropriando-me da fórmula psicanalítica, diria
que a obra de Samuel Rawet é a realização de desejos inconscientes,
feita de conteúdos ocultos e inaceitáveis até mesmo para o próprio
autor. Isso explicaria a alta velocidade de seu discurso, o hermetismo
raivoso de alguns símbolos, o entrechoque de crenças díspares e as
diversas ambigüidades — étnica, sexual, profissional — em torno das
quais este entrechoque não pára de girar.
Samuel Urys Rawet nasceu em 1929, em
Klimontow, aldeia de judeus poloneses. Veio para o Brasil em 1936, aos
sete anos, e até os vinte morou no bairro de Leopoldina, no Rio de
Janeiro. Apesar do forte interesse por literatura, só começou a escrever
na faculdade, na Escola Nacional de Engenharia. Em 1956, quando a José
Olympio publicou os Contos do imigrante, Rawet já havia escrito
dezenas de peças de teatro, e destruído praticamente todas. Como
engenheiro, trabalhou com a equipe de Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e
Lúcio Costa, na construção de Brasília. Os livros que se seguiram ao
primeiro — Diálogo (contos, 1963), Abama (novela, 1964) e
Os sete sonhos (contos, 1967) — tiveram editor, mas a partir de
1969 Rawet foi obrigado a publicar do próprio bolso. Assim foi com O
terreno de uma polegada quadrada (contos, 1969), Alienação e
realidade (ensaios, 1970) e Eu-Tu-Ele (ensaios, 1972), todos
de ensaios. Os últimos anos de vida foram os mais solitários, devido ao
seu excessivo retraimento, à mania de perseguição e aos constantes
conflitos com sua origem judáica. Não se casou, não teve filhos. No
final da vida, isolou-se por completo do mundo social. Gostava de
percorrer a pé as superquadras de Brasília, hábito que lhe valeu o
apelido de o solitário caminhante do planalto. Em 1984, foi
encontrado morto na sala de sua casa, vítima de um aneurisma cerebral.
Na minha opinião, o melhor livro de contos
de Rawet é Os sete sonhos, sendo este conto especificamente, ao
lado de Fé de ofício e Kelevim, os de que mais gosto.
Os sete sonhos narra sucessivos saltos, de um plano onírico a outro,
dentro de um mesmo e contínuo sono: uma urgente viagem de regresso ao
primeiro sonho. No início encontramos o protagonista sentado numa
poltrona de vime, observando um moinho movido à água, dentro de uma
paisagem ensolarada. A cena é descrita com a precisão de um estrategista
e o rigor de um matemático, o que torna inevitável a conclusão de que
neste trabalho o Rawet engenheiro colaborou, e muito, com o prosador. O
protagonista ergue-se da cadeira, deixa a varanda onde estava, contorna
as árvores de uma estrada e se dirige ao moinho. Mas ao se ajoelhar
junto a engrenagem que impele a mó, acorda no sexto sonho. “Na mesma
posição em que adormecera para sonhar o moinho”. A narrativa adensa-se,
tornando-se claustrofóbica, graças à busca incessante, por parte do
narrador, dos possíveis nexos entre os sonhos. Após o último salto —
espantado, o protagonista percebe que passara pelo primeiro sonho sem
sequer notar-lhe o aspecto —, acorda num quarto de hotel, de volta à
realidade. Mas no final a realidade inverte-se: andando na rua, um
tremor lhe dá a sensação de que ter saído do hotel e estar andando na
rua é, talvez, só o princípio “do primeiro sonho de outros sete, de
sonhos descendentes, negativos, impregnados de sua ação cotidiana”.
O estrategista e o matemático que há no
engenheiro-escritor também participam intensamente dos demais contos da
coletânea. Em Kelevim, eles narram a perseguição de uma cidade
imaginária — segundo o próprio autor, produto de sua preguiça mental — a
um homem “que teimava em viver, para escândalo de todos”. Certamente em
resposta à Pasárgada de Manuel Bandeira, a peripécia chega ao fim com
uma guinada abrupta do narrador: “Em Kelevim levo uma grande vantagem:
não sou amigo de ninguém”. Tão provocativo quanto este, o terceiro conto
que mencionei, Fé de ofício, vai mais longe na negação da
catarse, essa experiência até certo ponto escapista, como objetivo a ser
alcançado por todo texto de ficção: simplesmente não entrega ao leitor
um conto acabado, fornecendo-lhe, no lugar, quatro páginas de ruminações
e rubricas, anotações e esboços de uma narrativa ainda por ser escrita:
“Tenho presentes dois esboços de personagens, e um semi-esboço de
cenário, e não sei por que me deva agarrar a alguma convenção de conto,
não formulada aliás, e só apresentar a história depois de solver em
detalhes os enigmas que personagens e cenários representam.” Mais
adiante, o tom descamba para o jocoso: “As duas figuras têm como
constante a insanidade mental. A primeira não sabe se é exatamente o
cavalo branco de um general famoso ou uma poça d’água; a segunda oscila
permanentemente entre os dois sexos, o que talvez provoque a gula de
algum psicanalista”. E assim vai. A voz do Rawet ensaísta toma o
controle da situação, desautorizando o ficcionista a finalmente dar
início ao seu espetáculo de entretenimento. O saldo: um texto
bem-realizado, paradigma de tantos outros gerados na faixa de tempo
(1970-1990) em que os gêneros se interpenetraram e se confundiram
furiosamente: meta-romances feitos de recortes de jornal, de minicontos,
de bilhetes e de toda a sorte de elementos não-ficcionais; meta-ensaios
feitos de deduções duvidosas e citações falsificadas, com o objetivo de
se aproximar mais e mais da realidade pouco ordenada em que vivemos —
com o irritante objetivo de provar que a vida é sonho.
NELSON DE OLIVEIRA nasceu em Guaíra
(SP), em 1966. Mestre em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP, defendendo dissertação sobre os romancistas
Campos de Carvalho e António Lobo Antunes. Entre 1998 e 2001 colaborou
regularmente, com resenhas de livros, no caderno Prosa & Verso (O
Globo), no Caderno de Sábado (Jornal da Tarde) e no Caderno 2 (Estadão).
Atualmente colabora no Idéias (Jornal do Brasil), no Pensar (Correio
Braziliense), no Rascunho e na revista Bravo!. Publicou "Naquela época
tínhamos um gato" (Companhia das Letras, 1998), contos, Finalista do
Prêmio Jabuti de 1999; "Os saltitantes seres da lua", (Relume-Dumará,
1997), contos e em 2004 publicará o livro de contos "Sólidos gozosos &
solidões geométricas" (Record). Organizou ainda as antologias "Geração
90: os transgressores" e "Geração 90: manuscritos de computador" para a
editora Boitempo, em 2001.
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