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Samuel Rawet: Fiel a si mesmo
O que há de belo no homem é a capacidade
de sonhar um ideal.
De trágico, a de confrontá-lo com o real.
- Quando realmente sonha e confronta!
Samuel Rawet
Eu mesmo sou a matéria do meu livro.
Montaigne
Sob o impacto da leitura do poeta Vicente
Huidobro, Samuel Rawet escreveu que “a visão” das obras completas de um
autor não o atraía, ele que não gostava de livros volumosos: “Gosto de
catar entre os volumes isolados o que me oferece em cheiro, tato e visão
a garra do monstro.” A imagem é boa e ecoa curiosamente nesta reunião de
sua ficção. Nas últimas três décadas, ele foi lido muito a seu gosto, em
volumes isolados, geralmente garimpados em sebos, ou em pequenas
antologias, tão raras e difíceis de encontrar como a maioria dos seus
livros.
Quais seriam as características básicas de
sua obra? Em linhas gerais, personagens imersos na angústia da
inadaptação e da incomunicabilidade, a condição ambígua do imigrante
(cindido entre dois mundos, duas linguagens), a experiência dramática do
exílio (a condição judaica), a desagregação social, a marginalidade, a
alienação. Nesse sentido, poucos escritores brasileiros terão enfrentado
tão frontalmente essa condição - na vida, na literatura -, naquele plano
que Kazantzakis definiu como identidade profunda (da raça), não como
idéia abstrata, mas como uma realidade de sangue e carne. Não por acaso
Samuel Rawet se fixou, em mais de um momento, na obra e na figura de
Cruz e Sousa, seu igual. A certa altura de O terreno de uma polegada
quadrada, diz o narrador: “Judeu é isso, é aquilo, qualquer coisa
parecida com o que enfrentara pessoalmente em sua condição de mulato, e
mulato é negro, e negro é isso, é aquilo. Nenhuma violência, nenhum
obstáculo, concreto, um estado de espírito, apenas, a criar barreiras,
um incômodo feito de miudezas que moem, trituram, dilaceram e exacerbam
pequenos impulsos, sonhos. (...) Pensara acaso alguma vez na dor de
Farias Brito, na dor de Cruz e Sousa, na dor de Lima Barreto?”
Quase nunca lembrado pela maioria dos
historiadores literários, visto como um antípoda ou um excêntrico,
incompreendido, estigmatizado, Rawet foi gradualmente se afastando da
luta literária, passando a viver e publicar seus livros à margem do
circuito literário. Edições precariamente distribuídas, pagas pelo
próprio bolso e esquecidas em salas de pequenos editores ignorados e
inescrupulosos, como observou Fausto Cunha. Assim, começou a ser lido
anonimamente, cultuado em silêncio, distante do burburinho das festas e
badalações do chamado mundo da literatura.
Samuel Urys Rawet nasceu em Klimontow,
pequena aldeia próxima de Varsóvia, Polônia, a 23 de julho de 1929.
Naturalizado brasileiro em 1936 (“Aqui cheguei quando tinha sete anos,
aqui começou minha vida de imigrante”, escreve em Devaneios de um
solitário aprendiz da ironia), criado no subúrbio carioca, de acordo
com a entrevista concedida a Flávio Moreira da Costa em 1969 - “Até os
vinte e poucos anos morei nos subúrbios da Leopoldina. Sou
fundamentalmente suburbano, o subúrbio está muito ligado a mim. Aprendi
o português na rua, apanhando e falando errado - acho até que este é o
melhor método pedagógico em todos os sentidos. Aprendi tudo na rua.”
Entre 1949 e 1951, sob a liderança de Dinah Silveira de Queiroz,
integrou o grupo Café da Manhã, ao lado de Fausto Cunha, Renard Perez,
Jones Rocha, Luiz Canabrava e Nataniel Dantas, entre outros. Por essa
mesma época, passou também a colaborar com a Revista Branca, de
Saldanha Coelho. Engenheiro formado pela antiga Escola Nacional de
Engenharia (1949-1953), a partir de 1957 trabalhou como calculista de
concreto armado na equipe de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Joaquim
Cardozo. Ajudou a construir Brasília, calculou sozinho o prédio do
Congresso Nacional e, no Rio, o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra.
Em Israel, durante um ano acompanhou Niemeyer no projeto da Universidade
de Haifa. Ainda em Devaneios de um solitário aprendiz da ironia:
“No fundo, bem no fundo de meu desespero, tinha meus sonhos. (...) Eu
não precisava de drogas para delirar. Eu delirava.” Fascinado pelo
teatro e pelo ensaísmo, em ambos os gêneros deixou vasta produção, em
grande parte inédita em livro. Residiu sobretudo no Rio de Janeiro. Em
Brasília, permaneceu de 1962 a 1969 e de 1974 a 1984, ano em que, na
última semana de agosto, foi encontrado morto em casa, na cidade
satélite de Sobradinho. Para Antonio Carlos Villaça, Rawet isolara-se,
talvez cansado, ou desiludido. De 1956 a 1981, publicou doze livros.
Entre 1967 e 1972, a fase mais intensa: sete livros novos e duas
reedições (vendeu um apartamento em Brasília para isso), sem falar nas
suas edições artesanais, entre elas, Devaneios de um solitário
aprendiz da ironia. Ele não podia esperar: “Percebo que não preciso
de respostas para prosseguir. Preciso de perguntas.”
Com a morte, chegou o momento do oblívio
e, posteriormente, das inevitáveis exumações literárias. História
arrastada que eventualmente se agrega a aspectos dolorosos da sua vida,
da sua personalidade explosiva, da sua inadequação. Essas exumações
quase sempre tomam como ponto de partida ou chegada o ensaio “Kafka e a
mineralidade judaica ou a tonga da mironga do kabuletê” (Escrita,
n. 24, set. 1977), no qual Rawet rompe com os judeus, numa atitude
resultante, segundo Moacyr Scliar, de auto-ódio judaico. Assis Brasil,
todavia, toca a ferida mais de perto: “A família foi o principal motivo
da sua libertação.” Sob este ponto de vista, o ensaio Angústia e
conhecimento é desmistificador, bem como a observação de Gilda Salem
Szklo, que considerou esse rompimento com as raízes judaicas um “ato de
transfiguração” dentro do seu “itinerário espiritual”. De acordo com uma
bela imagem de Isaac Deutscher, ele parecia estar, ao mesmo tempo,
dentro e fora do judaísmo. O que equivale a dizer que Samuel Rawet foi
fiel a si mesmo até o fim.
Sob o impacto da morte, Alberto Dines
assinalou a esse respeito: “Mudaram tanto assim os judeus para que seu
inventor na moderna literatura brasileira fosse designado como antijudeu?
Aquele que optou pelo despojamento, pela humildade, pela singeleza de
viver, aquele que era todo pensamento, um despossuído - tal e qual os
profetas - dedicado apenas a compreender o mundo, aquela ternura pelo
bicho solitário e marginal poderia ser anti-semita? Duvido. Viveu em
silêncio, morreu em silêncio, deixou-se destroçar pela vida como se
tivesse muitas para desperdiçar. Eis um heroísmo e uma generosidade que
não se tem notícia nas páginas literárias de hoje em dia, iluminadas
pelas lantejoulas da amizade e da empulhação. Rawet não encontrou
proteção na prancheta de engenheiro, nem nas pensões baratas da rua do
Catete onde morou no Rio.”
Ultrapassando o aspecto polêmico, Rosana
Kohl Bines, no excelente estudo “A prosa desbocada do ilustre escritor
estrangeiro”, tocou num ponto que me parece crucial: “Uma identidade
hifenizada de judeu-brasileiro, que se traduz como linguagem partida.
Entre a palavra chula e a palavra filosófica, não há mediação, só
atrito. Não se vislumbra a via do diálogo. O hífen marca antes um abismo
entre duas figuras, duas condutas, duas gramáticas que se tomam por
irreconciliáveis. De um lado, Rawet, o judeu imigrante, educado no
cheder, afeito aos livros e à indagação intelectual, ávido leitor e
escritor sofisticado. De outro, Rawet, o carioca suburbano, educado na
pedagogia das ruas, boêmio, malandro e desbocado, para quem o palavrão
se torna sinônimo de ‘prosa saborosa, brasileira’. O embate entre estas
duas polaridades se trava em linguagem e é feroz. (...) A voz narrativa
sustenta uma veemência que beira o insuportável. A palavra soa como
grito e como grito nos compele a uma espécie de escuta forçada a ferro e
fogo, da qual saímos sempre ‘chamuscados’.”
É certo que a temática judaica, adensada
ou rarefeita, nunca o abandonou. E, dos Contos do imigrante aos
últimos contos, no volume Que os mortos enterrem seus mortos, ou
do “poema sinfônico” Abama às páginas de Viagens de Ahasverus
à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e
de um futuro que já passou porque sonhado, Rawet terminou o seu
périplo tal como em si mesmo transformado. Pouco a pouco, e sobretudo
depois de Os setes sonhos, a matéria que o anima passa a
alimentar uma via de mão dupla que o leva da ficção ao ensaio e
vice-versa. Na intenção de libertar-se “de algumas idéias obsessivas” (Consciência
e valor), começa a dedicar-se ao ensaio propriamente dito e, ao
freqüentar os dois gêneros simultaneamente, num entrecruzar de
indagações éticas e estéticas, ele observa em Alienação e realidade:
“Hoje a palavra mudou para mim. É pura ambigüidade em relação ao real, e
os dois extremos experimentados me convencem ainda mais: delírio e
ironia.” Logo mais, em Eu-tu-ele, chega a admitir que “a
literatura para mim agora é uma forma de auto-conhecimento.
Apenas.”
É sintomático que Almeida Fischer tenha
preferido ver hermetismo e dificuldades de leitura em O terreno de
uma polegada quadrada. Não atentou para o nonsense, a ironia
e a violenta crítica social e moral, o radicalismo de seu imaginário.
Hélio Pólvora, contudo, não se enganou: é o livro mais espontâneo de
Rawet. O recorte ensaístico, como em grande parte dos contos de Os
sete sonhos, está presente, e os pequenos detalhes autobiográficos
deixam de atuar como fundo de palco apenas (como em Contos do
imigrante ou em Diálogo), uma vez que ensaio e conto,
circulando em espaços limítrofes, liberam a passagem para a evasão
memorialística. Talvez destoem deste conjunto “Madrugada seca” e “O pão
de nossa miséria”, um flerte de Rawet com o que seria a moda da época.
Nesses contos, ele não parece estar em seu elemento. Mas sem dúvida está
em seu elemento em alguns contos extraordinários - “O terreno de uma
polegada quadrada”, “Reinvenção de Lázaro”, “Lisboa à noite”, “Johny
Golem”, assim como estava plenamente em seu elemento em “Os sete
sonhos”, “Fé de ofício”, “Sôbolos rios que vão”, “Kelevim” e “Crônica de
um vagabundo”, de Os sete sonhos, principalmente ao evocar um
universo em constante desagregação, emblemático de sua literatura. Nesse
contexto, “Crônica de um vagabundo” é passo inaugural para o
encantatório, para o ímpeto de celebração do cotidiano alcançado em O
terreno de uma polegada quadrada e, mais adiante, para a áspera
iluminação de Viagens de Ahasverus... Nesse passo, não será
difícil vislumbrar em “Crônica de um vagabundo” sinais que prenunciam as
Viagens de Ahasverus...: “Galopa teus sonhos e revive-os
exatamente nessa estrada de asfalto e poeira. Ou então retém a visão de
um segundo que te custou anos de trabalho e de esforço. O instante em
que pela primeira vez te deslumbraste com um entardecer metálico de uma
franja vermelha na crista dos montes e uma chapa rósea se esbatendo em
roxo, azul, cinza e noite. Quem sabe desgraçaste tua vida apenas para
conquistar esse instante, que nunca mais se repetiu, nem te interessa
mais.”
Novamente em Devaneios de um solitário
aprendiz da ironia: “Sou eterno imigrante; parto de mim para mim
mesmo, de meu corpo para meu corpo, mutável.” Na famosa entrevista à
Farida Issa, em O Globo, seu depoimento também é veemente e
provocador: “Acho que sempre falta tudo ao homem, daí a sua grandeza.
Ele tem que conquistar a cada momento a sua realidade. O problema é que
ignora isso. Falta-lhe a consciência de que sua consciência é permanente
criadora de realidade, entre os limites de nascimento e morte. Falta-lhe
a consciência de sua insignificância no mundo, para ter realmente o
direito de conquistar um significado. Falta-lhe a consciência da própria
morte, para diante dela afirmar seus valores fundamentais, e afastar,
repugnado, os valores eternos que lhe oferecem. O homem ainda não
existe, ele está sempre no futuro. Daí a grandeza de seu presente. E a
miséria.” Tudo isso converge para um livro densamente construído, que em
certa medida concentra todas as suas preocupações formais e
existenciais, como percebeu logo de início Assis Brasil - Viagens de
Ahasverus... É como se Rawet procurasse canais de respiração em meio
à angústia (“um sentimento que de tão familiar lhe era agradável”), como
se pudesse enfim libertar-se dos grilhões de sua intermitente máquina de
pensar, agora deliberadamente onírico, criador “permanente de realidades
singulares”. No metamorfismo simbólico de Ahasverus, ele se
acerca da “exigência interna do ser”, e estabelece “um sentido pessoal
de ética”. O que talvez lhe permita, por alguns momentos, respirar mais
solto, como em Consciência e valor: “Gostaria de finalizar com um
sonho. Eu vivo sob os signos dos sonhos. Provavelmente um dia sonharei
que estou morrendo e ao acordar... acordar?”
Em suma, a obra de Rawet, como escreveu em
1967 Anatol Rosenfeld a respeito da obra de Kafka, pode ser considerada
toda ela “uma epopéia da frustração, da procura baldada de integração e
ajustamento”. Dos Contos do imigrante, nos quais se travam lutas
ferozes de adaptação ao desconhecido, até chegar à mitologia do
cotidiano insólito dos contos de Os sete sonhos, de O terreno
de uma polegada quadrada, de Que os mortos enterrem seus mortos,
em tudo que escreveu, Rawet desce à raiz de um “sofrimento triturado”
que se traduz em desejo de aproximação com o outro, com o diferente,
detalhe que não escapou ao olhar emotivo de Gilda Salem Szklo: “Seus
contos tratam as personagens de forma fragmentária, insatisfatória,
incompleta, que não deixa de ser o modo com que elaboramos o
conhecimento de nossos semelhantes.” Já em Diálogo, o narrador
adverte: “Um homem é sempre um estranho diante do outro.”
É ainda Gilda Szklo quem sugere o melhor
diálogo do leitor com a obra de Rawet: “Na realidade, a melhor maneira
de ler Rawet não é racionalmente; não é intelectualizar. Devemos entrar
na obra quase telepaticamente, penetrar na sua essência através da sua
linguagem, dos movimentos, das pausas, dos gestos que são sinais e
evidências das motivações das personagens. Requer de nós uma empatia
natural, aquilo que Goethe chamou de ‘afinidades eletivas’.” Em outras
palavras, só a empatia profunda pode nos aproximar de um autor, nessa
confluência de acasos que é o encontro do leitor com o autor e
vice-versa. Isso porque Samuel Rawet, como Machado de Assis, Clarice
Lispector ou Dalton Trevisan, na esfera dos escritores que valem
realmente, exige o leitor razoavelmente preparado, familiarizado com a
selva escura da condição humana. Assim: pronto para catar o que lhe
oferece em cheiro, tato e visão a garra do monstro.
Prefácio à edição dos Contos e novelas
reunidas, de Samuel Rawet, org. de André Seffrin (Civilização
Brasileira, 2004).
ANDRÉ SEFFRIN (1965) é crítico
literário e ensaísta. Colaborou com diversos veículos de imprensa, entre
jornais e revistas especializadas, tais como O Globo, Jornal
do Brasil, Jornal da Tarde, Gazeta Mercantil,
OPasquim21, Última Hora, Jornal do Commercio,
Manchete, Veredas, Bravo!, Poesia Sempre,
Rio-Artes, Colóquio-Letras etc., alguns eventualmente,
outros, durante longos períodos. Autor de apresentações, prefácios e
ensaios para edições de (e sobre) escritores brasileiros, também
organizou vários livros, entre os quais Dicionário de pintores
brasileiros, de Walmir Ayala (Curitiba: Editora da UFPR, 1997),
Antologia poética, de Foed Castro Chamma (Curitiba: Imprensa Oficial
do Paraná, 2001), O desconhecido e Mãos vazias e O
enfeitiçado, Inácio e Baltazar, de Lúcio Cardoso (Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000 e 2002) e Contos e novelas reunidos,
de Samuel Rawet (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004). Para
edições de arte, escreveu ensaios biográficos a respeito de Roberto
Burle Marx (1995), Joaquim Tenreiro (1998) e Sergio Rodrigues (2000).
Reside no Rio de Janeiro.
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