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Pêssegos partidos
Quando você partir, parta em um domingo. Nada de músicas e danças, nada
de olhares melancólicos e semblantes tristes. Quando você partir, parta
em um domingo. Não era assim o refrão de uma das músicas que ensaiávamos
por horas a fio para, no final do dia, apresentar à nossa grande
platéia: você e eu? Vezes sem fim, nossos caminhos se sobrepuseram como
as vozes em nossos musicais webberianos: entrecruzando-se, separando-se,
reencontrando-se e, num crescendo, encaminhando-se ao gran finale
melodramático de um tenor decadente. Pobre Lorde Andrew Lloyd, jamais
poderia supor que suas canções serviriam de trilha sonora para um
musical de botequim. Desses cheios de clichês que se repetem ad nauseam
e que todo mundo tem um igual para contar. Seja ocorrido consigo mesmo
ou com aquele amigo do amigo.
Comigo não foi diferente e foi em um domingo.
Desembarcamos no litoral com muito sol e poucas malas. Achar um hotel na
temporada alta seria difícil se estivéssemos de fato procurando por um.
A abundância de pensões, por outro lado, casou-se de imediato com o
baixo orçamento de que dispúnhamos e antes do almoço já estávamos
instalados em nosso cubículo com vista para um jardim que fazia jus ao
nome do estabelecimento: Hotel Floresta. Banheiro coletivo e uma única
rede na varanda. Senhoras de quadris largos em banquinhos estreitos
atentamente cuidando dos seus e dos outros.
Calor demais e roupas de menos são os meios mais eficientes para pôr fim
a qualquer constrangimento inicial que duas pessoas possam ter. E foi
assim mesmo -- ao final do primeiro dia éramos carne e unha, ao final do
segundo, ficávamos à vontade e ao final do terceiro, tomávamos banho
juntos. Banhos demorados com xampu de pêssego. Pêssegos maduros,
pêssegos partidos. Não tardou muito e logo já passávamos as tardes
fazendo o que todos fazem para manter este mundo povoado; seja
propositadamente, seja acidentalmente. Pobres corredores diminutos.
Nunca perceberam que naquela corrida frenética todos éramos perdedores.
Devo confessar que, dos anos que passamos juntos, poucas evidências
físicas restaram, sobretudo pelo sigilo das intimidades. Umas
fotografias jogadas aqui e ali, correspondências esquecidas em gavetas
entulhadas, algumas flores secas e um baú de lembranças; estas sim em
abastança. Seja benção ou maldição, lá estão elas entranhadas e
revividas, com diálogos feitos e refeitos, fazendo do presente uma
extensão do passado. O passado que nunca passa.
Justamente por não passar é que me encontro aqui, no mesmo litoral onde
tudo começou. Seguindo a multidão que sai da igreja centenária, chego,
desapercebido, ao mesmo banco onde nos sentávamos para compartilhar um
sorvete coberto de risos. Domingo, você partiria em um domingo e me
levaria a um parque repleto de árvores frondosas. Já estava tudo
planejado. Nada de cartas de despedida, nada de discussões. Triste o
bastante ver você partindo, dizia o refrão.
O centro municipal de campismo não fica muito longe de casa. Ademais de
ser o único parque das redondezas onde as pessoas podem relaxar durante
o fim de semana, é também o último bastião da natureza local. Dado o
adiantado da hora, porém, não creio que o parque fosse o nosso destino,
mas foi justo nas proximidades dele que o carro deixou de funcionar. Foi
bem ali que ficamos esperando o socorro mecânico, debaixo de um
pinheirinho franzino que hoje já é uma árvore robusta. Se alguém
procurar com cuidado verá algumas linhas incrustadas no tronco, registro
baldado de nossa presença.
Com o carro a reboque, você acenou e não disse nada, mesmo sabendo que
seria a última vez que nos veríamos. Partiu em silêncio e nunca disse
adeus, nem obrigado por tudo. É assim que todo mundo faz quando vai
embora. Obrigado por tudo e desculpe pelo incômodo. Fiquei ali, parado.
-- Não parta assim em silêncio, sem dizer uma só palavra. Você sabe a
letra de cor.
Entre caminhões carregados, atravessei a rodovia. Não senti nada. Só o
cheiro doce dos pêssegos maduros espalhados pelo asfalto. Pêssegos
partidos. Pêssegos ensangüentados.
Parti desta vida, é verdade, mas não deste mundo.
Ainda restam assuntos inacabados.
ALMIR DA SILVEIRA é pós-graduado em língua inglesa e há mais de dez
anos se dedica ao ensino, tradução e elaboração de material didático.
Voraz leitor, possui uma predileção pelos gêneros de micro-fiction e
flash-fiction.
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