
Ilustração: Anita Malfatti |
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Penélope
Sempre fui um desenhista sem ambição. Despercebido em minha saleta,
desenhava letras, garrafas, automóveis. Voltando ao meu apartamento,
abria enlatados e esquentava minha comida. Continuo assim.
Cheguei à solidão através de três mulheres. Só na primeira houve paixão.
Nas outras, um ceticismo prático. Enquanto isso, me iludia: cinema,
jogo, praia, viagens de fim-de-semana. Também isso se perdeu. Ao fim
(nem tanto: quarenta anos), restei numa exaustão conformada, fitando a
parede branca, asas tortas se debatendo em silêncio. Mas a capacidade de
ficar sozinho alimentou minha soberba: a sensação de liberdade, a ilusão
da escolha.
Passei a desenhar também à noite, por conta própria. Formas: ruas,
casas, homens, mulheres. O que parecia uma fuga - nos meus desenhos eu
estava em casa - se transformou em prazer. O painel da aparência se
ordenava nos meus traços. Nas minhas ruas, eu mesmo fazia a História.
Punha os desenhos na parede e me protegia neste mundo inventado, que ia
se desdobrando, folhas sobre folhas. Rosto na janela, multidões nas
ruas, prédios vazios, alguém perdido no beco. Uma rua, um bairro, uma
cidade inteira parecida com a minha ramificava-se em vizinhos, primos,
mães, órfãos, árvores, risadas e socos. Uma mulher apressada, um rosto
súbito que se volta no vento da tarde, me atraiu. Chamava-se Penélope,
um nome a um tempo clássico e falso. Perdi muitas horas olhando para
ela, que, não mais que um vulto, parecia pronta.
Tentei esquecê-la, mas a cada novo desenho eu voltava à minha Penélope
suspensa na parede, imperfeita e acabada, completa para sempre como um
sol morto. A sensação de alguém conhecido, mas que não conhecemos. De
onde? De nenhum lugar. Talvez... e eu abria mais uma folha em branco,
prosseguindo o mapa em outra direção. Por pouco tempo; uma distração e
meus olhos voltavam a ela, com medo - muito que eu olhasse, e Penélope
súbita revelaria o amarelo do tempo, o truque do traço, a invenção do
papel.
Precisava enfrentá-la. Recortei Penélope da multidão e coloquei-a diante
de mim. Como era incompleta! E no entanto... Decidi, presunçoso, lhe dar
todos os traços do meu realismo. Lá ia eu, bêbado de uma idéia,
empilhando Penélopes em preto-e-branco, a começar pelo rosto. Sempre a
sensação de alguém conhecido, uma sombra, um sinal, uma inexistente
prima da infância, uma funcionária de supermercado, um esbarrão na praça
da Figueira (a face inquisitiva se voltando), um suspiro esperando o
ônibus que não chega, mãos que se tocam no mesmo jornal da banca, mas
quando? Ao me perder - não, esses olhos não são dela - rasgava o papel e
recomeçava, voltando sempre ao primeiro esboço, o verdadeiro. Um cego
tateando estátuas.
Afinal - um cigarro saboroso nos lábios, uma tragada na alma - dominei
sua face, cada linha e nuance. Que prazer, olhando o teto! Desdobrei
Penélope, cada vez mais dócil. De frente. Olhando para mim. De longe.
Cabeça erguida. Tirando o sapato. Escovando os dentes. Silenciosa.
Triste. Alegre. Com os cabelos compridos - compridos, negros e espessos.
Depois, cortei seus cabelos. Fiz Penélope chorar. Dormir. Pensar. Lado a
lado, comparava os desenhos. Ela mesma se comparava ao espelho,
rigorosamente a mesma mulher.
E como eu ria, feliz da vida! O desespero de voltar do emprego - agora
pintando cartazes de filmes, vida útil de uma semana, O Exterminador do
Passado, A Viúva Faceira, Longo Teto Noite Adentro, Bambolê III, O
Incrível Homem que Esquecia - o desespero de me entregar à Penélope,
desvendá-la, nua, na intimidade do banho, de abrir a porta de seu
guarda-roupa e pendurar lá tudo que ela quisesse. Desenhei quatro
diamantes na gaveta do seu criado-mudo.
Braços, pernas, seios, curvas. Como era exatamente Penélope? Nas
primeiras tentativas ela entristeceu, porque eu estava mentindo,
enganado pelos padrões dos outros. Até que, sem saída - nem fui
trabalhar naquela tarde - descobri o corpo que correspondia exatamente
ao seu rosto. Um corpo, uma altura, um peso. Os braços me pareceram
desproporcionais; ao refazê-los, as medidas teimavam - braços, mãos,
unhas. Inteira, e com pudor. Nua, fechava os olhos, a mão cobrindo a
pequena mancha da perna, uma queimadura da infância? Outra página
desenhada, a expressão a um tempo íntima e distante. De onde essa mulher
tão familiar?
Cobri os meus espaços de Penélope. Horas e horas contemplando alguém que
me criava. Tão completa! Mas eu não tinha o poder de desvendá-la.
Desenhei-a se oferecendo, até implorando que eu me lançasse naquele
aquário de nada - e sempre uma redoma preservando-a. Deixei Penélope em
paz, imóvel nas minhas paredes. Abria uma lata de cerveja e passeava
pelos desenhos, com a falsa indiferença de quem já desistiu. Meses
depois, bêbado, tentei redesenhá-la, e fracassei. Senti medo. Idêntica a
ela mesma, Penélope achou graça. Eu também, ressentido e mais velho.
A onipresença das minhas paredes se transformou numa sombra das ruas:
senti que me vigiavam. No ônibus, na praça, nas curvas da Trindade, a
sombra de Penélope me acompanhava, como quem depende, como quem se
diverte, como quem não tem saída. Uma proximidade inquieta: de algum
lugar, em algum momento, alguém vai segurar minha mão para um encontro
assustador e inevitável. Onde andará Penélope? Um tanto por vingança, um
tanto por desejo, tomei seu rosto emprestado para um outdoor na
beira-mar anunciando xampu de farmácia, a serviço de um novo emprego.
Tão deformada assim, colorida!
Num sábado bissexto, passei o dia no Pântano do Sul, bebendo só.
Esperava o ônibus das cinco. Alguém me chamou para empurrar um carro na
areia:
- Penélope?
Ela não disse nem sim nem não, mostrando o pneu enterrado. Pensei que
estivesse assustada, mas não; apenas distante, perguntou se eu ia à
cidade. Fiz que sim, o sol na cabeça. Ela acelerou, eu empurrei, e o
carro saiu fácil, mas me encheu de areia. Ela abriu a porta, eu entrei,
inseguro. Por dez minutos falamos banalidades: o banco sujo de areia, o
vento, o calor, o cinto de segurança, que não funciona. Depois,
extensões agoniantes de silêncio, ao longo do caminho que ela já sabia.
Eu vigiava aquele perfil: idêntica. Na Trindade, Penélope estacionou o
carro e desligou o motor. Olhou para mim, muito séria. Alguém que se
destaca de uma página em branco, na precisão do meu lápis. Leviano e
cavalheiro, abri a porta para ela e segurei sua mão: mão firme e quente.
Gostei de Penélope assim, em silêncio: um medo terrível de que a voz
alta diminuísse minha obra.
Entramos no apartamento e ela foi direto aos desenhos. Nem espanto, só
um quase sorriso:
- Essa sou eu?!
Não respondi, nem ela esperava resposta. Caminhou pelas paredes,
vendo-se tão perfeitamente imóvel.
- Você me vigiava.
- Você me vigiava...
Afinal ela achou graça, previsivelmente inclinando a cabeça e passando a
mão nos cabelos, exata no meu desenho. Seguiu-se um buraco de silêncio,
tão pesado que não saía do lugar. Atravessar esse terror, a fala: a
interminável tortura dos detalhes, a profissão, o corte da roupa, o
leite na geladeira, o prazo, o troco no cinema, a memória, o acúmulo
despropositado das coisas que se deve fazer, cada uma delas nos tirando
um pedaço. Insisti no silêncio: cada palavra e estamos menores - medo de
olhar para Penélope e descobrir um erro. Que horror é esse que ameaça
minha solidão?
Nos meses que se seguiram - sei lá onde vivia Penélope, sei lá que
espaço ocupava no mundo! - jamais pronunciei seu nome. Quem sabe nele se
evidenciasse o engano e o desastre? Mas não: lá estava a pequena mancha
na perna, que ela movia com a leveza de um bico-de-pena, nua no nosso
desejo. Uma ânsia corrosiva de descobri-la mais e mais, mas tudo nela já
estava desenhado, página a página. Amei Penélope com desespero,
pressentindo o fim.
Depois, começou lentamente a morte de Penélope. Semana a semana ela
perdia a cor, a firmeza, a voz. Perdia a leveza, a elegância e o brilho
dos olhos, surtos de escuridão numa página em branco. Uma noite, minha
mão trespassou seu braço, como a um vento. Metade do rosto eclipsava-se,
uma lua sem rumo. Eu vi Penélope sofrer: suas últimas frases, sem
sintaxe, imploravam alguma coisa que parecia salvação. Há três dias,
acordei definitivamente sem Penélope, todas as paredes em branco. Ontem,
da janela do quarto, vi oficiais do trânsito rebocando seu carro,
abandonado na calçada estreita.
(Da antologia Este Amor Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996.
pp. 35-39. Publicado originalmente em A cidade inventada. Curitiba:
Criar Edições, 1980)
CRISTOVÂO
TEZZA nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mas fez de Curitiba,
onde vive há mais de trinta anos, sua cidade de adoção e pano de fundo
de sua literatura. É professor do Departamento de Lingüística da
Universidade Federal do Paraná. Pela Editora Rocco publicou os romances
Uma noite em Curitiba, Breve espaço entre cor e sombra (vencedor do
Prêmio Machado de Assis de melhor romance do ano de 1998, concedido pela
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), Trapo, Ensaio da paixão , A
suavidade do vento e Juliano Pavollini, e o estudo de teoria
literária Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo.
Publicou recentemente
O
fotógrafo. Romance. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
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