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Óbito 75.888
(À moda de
Mauro Pinheiro)
Para
Moacyr Scliar
Naquela
segunda-feira em que não compareceu à repartição, ninguém deu por conta.
Era sempre assim: uma depressão de fim-de-semana, um acometimento
hepático pós-feriado, um incômodo psicológico, uma simples não-vontade
de ir trabalhar... E não aparecia, pronto.
Corta o
ponto, Vicente...
Mais uma vez,
ninguém ligou. Nem tocou o telefone de sua casa. Sobradinho, a mais
aprazível cidade do cerrado, era ali mesmo, quase um pulo. Mas ele
devia estar cansado e não desceu a serra para, ao menos, assinar o
ponto, como muitos faziam nas repartições naquela época sinecurosa e de
vacas gordas sob a ditadura.
O chefe da
seção de engenharia do Ministério também não chamou para sua
casa, como nas primeiras ausências. Deve ser mais uma das dele.
Só pega no tranco.
Não chovia nem
fazia sol para os lados da Asa Norte. Apenas as cigarras de agosto e a
névoa seca de um tempo de estiagem a penalizar o cerrado do Planalto
Central. Vir ao Plano Piloto? Nem pensar. Poderia ser surpreendido por
um colega de trabalho, como daquela vez em que tirou licença médica e
foi visto antes do meio-dia saindo de um boteco no Conic, tradicional
centro de escritórios e variegado comércio popular, que à noite dá lugar
aos “inferninhos” e assume seu lado “underground”. Melhor ficar em
casa, vendo a tevê em preto e branco ou voltar-se aos livros de sempre:
Hamlet, Guerra e Paz, Um homem sem qualidades,
Tolstoi, O Aleph, Carta à noiva, Coreografia dos
danados, ainda um Rosa, um Bandeira, um Becket, um Lobato, de quem,
sobretudo, gostava. Nem havia times de futebol em Brasília que
justificassem sua torcida. Desconfio: ele detestava futebol, Paulo
Coelho, os best sellers americanos e a travestida pseudomúsica
sertaneja (com seu lirismo vulgar e padronizado). Em campo, preocupações
apenas com a campanha que prenunciava Tancredo Neves na disputa do
Colégio Eleitoral que, para os radicais da esquerda que só aceitavam as
Diretas Já, era uma saída conservadora, para mitigar a pressão
popular.
Na estante, com
um dos pés quebrados sustentado num tijolo: uma vitrola Phillips;
antigos vinis empoeirados de música clássica e jazz; num quadro com o
vidro trincado, uma foto desbotada com soldados sobre tanques na
Primavera de Praga; a receita de óculos amarelecida sob uma penca de
chaves; sobre um pires de porcelana rachado, a vela Cristal usada até a
metade; uma carta num envelope de Ituiutaba, com as iniciais LV do
remetente; a cartela de Lexotan – companheiro de seus últimos anos.
Poeira e cansaço nas paredes. Insularidade que se constata a cada passo.
Naquela semana,
os jornais falavam, além das notícias das alianças políticas para pôr
fim ao governo militar, de obviedades. E dias antes alguém o viu de
bermuda, as barbas grisalhas mal cortadas, com suas havaianas, uma
gaiola na mão, em plena via pública, quando foi surpreendido por um
transeunte.
- “Vou pegar
rato judeu”.
Na terça-feira,
não compareceu a uma reunião com um grupo de historiadores que estava
realizando um estudo sobre a época da construção da Nova Capital, e
queriam arrancar dele algo sobre o rumoroso massacre da Pacheco
Fernandes, num canteiro de obras, ele que viera, juntamente com Joaquim
Cardozo, integrar a equipe de Niemeyer, e acabou responsável pelo
cálculo estrutural do edifício do Congresso Nacional. Mais uma furada do
velho, resmungou seu editor, aquele português sob impagáveis lentes
fundo de garrafa.
Deve ser a
enxaqueca ou está de novo de mal com a vida,
completou o agente administrativo, que, costumeiramente, enchia a
garrafa de água que ele levava para casa depois do expediente. Na
quarta, nada. Na quinta, o chefe com a pulga atrás da orelha, ele
nunca ficou tantos dias sem vir, sem dar satisfação, tocou, tocou,
tocou mais no fim do dia, insistentemente, até cair a ligação.
Amanhã você
passa lá, Natalino, traz o homem de qualquer jeito, disse ao bedel da
tarde.
Na sexta, bem
cedo, o garoto que entregava o leite nas casas das quadras 2 e 3,
estranhou os embrulhos de pão acumulados na varanda, cisco e folhas
secas espalhadas na porta da entrada, um mau cheiro a lembrar animal
morto, uns urubus circunavegando sobre o telhado, a silhueta do cão
Beethoven, angustiado, com suas patinhas fazendo barulho no vidro da
janela fechada de um dos quartos. Na porta da sala, um estranho balé de
moscas buscando uma brecha para entrar, contas de luz, telefone e
correspondências entupindo a caixa de coleta enrustida no muro.
Dona Judite, a
costureira da casa em frente, já havia telefonado para a administração
regional, para o Corpo de Bombeiros e reclamara à Polícia, dois dias
antes, do mau cheiro. Deve ser a fossa, ele nunca chama o caminhão
pra esvaziar, ouviu da outra vizinha. Telefonar, não telefonou.
Atender, nem uma vez. A última em que foi visto, era sábado, tinha ido
ao comércio: foi comprar os jornais na banca do italiano e aproveitou
para vender a preço de banana um quadro de Di Carrara, O corcunda de
São José dos Campos: precisava de dinheiro e sua casa já estava
quase sem nada. Voltou trazendo uma garrafa de plástico com água
mineral Minalba, pela metade. E foi dona Sebastiana, a mudinha peregrina
e solícita, que abriu o portão e contemplou aquela estranheza nos seus
olhos, um silêncio de despedida. Viu-o entrar pela última vez. E uma
nuvem espessa sobre sua cabeça. Antes de bater a porta, olhou-a com uma
ternura imprevista. E foi só.
Já fazia uma
semana que ele não dava as caras.
O repórter do
Correio Braziliense tentou ligar, para arrancar-lhe uma
entrevista, embora soubesse de antemão ser ele um contraponto dos
arruídos literários, a misantropia em pessoa. Preferiu arriscar, ir lá:
queria um depoimento sobre a morte de um famoso escritor americano. Deu
com os funcionários do IML retirando o corpo em adiantado estado de
putrefação. Haviam-no encontrado com a cabeça dentro de um prato de sopa
Knorr, a Telefunken ligada, mas "chuviscando", a luz esquálida de um
abajur projetando a silhueta dos móveis e objetos e uma assembléia de
varejeiras rondando a sala em sua solidão mineral.
A tarde
liquefeita num crepúsculo sangrento no horizonte da cidade satélite
encerrou o mistério de muitos dias, dias em que, cadeira vazia e mesa
cheia de papéis, ele despediu-se sem aperto de mãos. Uma colega de
trabalho mexeu nas suas gavetas e garimpou algo rabiscado numa folha
solta: “Tenho grandes frustrações e decepções, e grandes euforias.
Amo e odeio apaixonadamente. Uma vida intensa, difícil, saborosa. Acho a
vida uma grande aventura. Espero que os idiotas me compreendam.”
Dias em que, em algum lugar do mundo alguém teria lido os contos do
imigrante, ou não conheceu os sete sonhos entre tantos
devaneios de um solitário aprendiz da ironia. O errante personagem
de si mesmo acabara de ganhar vida contra a inércia letal do mundo. E
libertou-se para sempre da alma fatigada.
No outro
dia, fui ler os jornais. O obituário do dia 26 de agosto de 1984 foi
totalmente dedicado a Truman Capote.
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P.S. Este
conto, se tanto não fosse, ainda assim, é uma homenagem a Samuel Rawet.(
¹)
( ¹) Um dos
maiores escritores brasileiros, Samuel Rawet era judeu polonês, nascido
em Klimontow, em 23.7.29, tendo imigrado para o Brasil em 1936, vivendo
no Rio e grande parte de sua vida em Brasília, para onde foi, durante a
construção da cidade, para integrar a equipe de Niemeyer, juntamente com
outro escritor, Joaquim Cardozo que, como ele, era engenheiro. Entre
suas obras, destacam-se: Contos do imigrante (1956), Diálogo
(1963), Abama (1964), Os sete sonhos (1967), O
terreno de uma polegada quadrada (1969), Alienação e realidade
(1970). Eu, tu e ele (1972), Que os mortos enterrem seus
mortos (1983). Nos últimos anos de sua vida, profundamente deprimido
e desiludido, isolou-se em Sobradinho, uma cidade do Distrito Federal.
Lá faleceu, solitário e sem assistência. Com uma narrativa visceralmente
ligada aos problemas existenciais, seus personagens refletem um ambiente
de incomunicabilidade e solidão. Rawet rompeu solenemente com o
judaísmo, e assim justificava sua atitude:
“Não, não sou
anti-semita, porque semitismo não significa necessariamente judaísmo,
sou anti-judeu, o que é bem diferente, porque judeu significa para mim o
que há de mais baixo, mais sórdido, mais criminoso, no comportamento
deste animal de duas patas que anda na vertical. Não vou pedir desculpas
pela linguagem vulgar. O meu vocabulário é o do carioca, e com pilantras
é impossível, e inadequado, literária e estilisticamente, o emprego de
vocabulário mais refinado. Quero pedir a essa meia dúzia de oito ou
nove, ou quatro ou cinco, de judeus ou parceiros de judeus em suas
transas marginais, que vivem me aporrinhando por aí, que desinfetem”.
RONALDO
CAGIANO nasceu em Cataguases-MG, em 15.4.61 e vive em Brasília desde
1979, onde formou-se em Direito. É funcionário da CAIXA. Colabora em
diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios,
crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns
certames literários.. Participa de diversas antologias nacionais e
estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH),
Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas
publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no
concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de
contos "Dezembro indigesto" , recém publicado. Publicou: Palavra
Engajada (poesia, SP, 1989), Colheita Amarga & Outras Angústias (poesia,
SP, 1990), Exílio (poesia, SP, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília,
1994), O Prazer da Leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos
juvenis, Ed. Thesausus, Brasília1997), Prismas - Literatura e Outros
Temas (crítica literária, Ed. Thesaurus, Brasília, 1997), Canção dentro
da noite (poesia, Ed. Thesaurus, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu
(infanto-juvenil, em parceria com Joilson Portocalvo, Ed. Thesaurus,
Brasília, 2000), Poetas mineiros em Brasília (Ed. Varanda, 2001,
Brasília - organizador), Dezembro indigesto (Contos, Sec. Cultura/DF,
2001), Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, 2004,
organizador).
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