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Let it bleed!
A curiosidade pelo mórbido é intrínseca ao ser humano, e por isto os
relatos de guerra sempre despertam interesse. Como fui talvez o único
brazuca a lutar na guerra do Vietnan, a minha estória deverá, no mínimo,
te pegar pelo pé.
A guerra suscita questionamentos profundos sobre o sentido da vida,
morte e moral que exigem respostas imediatas, embora nós sempre tentemos
saneá-la com aventuras românticas e propaganda paranóica na esperança de
que assim a dotaremos de um sabor, de um gosto com o qual possamos
conviver.
Mas para quem esteve numa frente de batalha, todas essas abstrações
políticas do debate acadêmico e da mídia são bosta diante da questão
concreta e crucial da sobrevivência. Sim, a sobrevivência, a única e
verdadeira glória numa guerra...
Foda-se a Convenção de Genebra, que tentava tratar guerras como questão
de legislação.Aqueles filhos da puta tentaram reduzir uma experiência
essencialmente imoral numa questão de leis, de legalidade.
Bem, tudo isto são divagações pseudo-filosóficas, se é que um verme
possa tê-las. No início de tudo, a gente nunca pensa assim. Somos
cegados pela inocência. Mesmo com todo o meu terror de me alistar – eu
tinha certeza de que seria a última pessoa capaz de sobreviver numa
guerra – não pude resistir àquele fascínio sedutor que a coisa emanava.
Afinal, guerras eram acontecimentos nos quais se descobria coisas. E
também, claro!, era uma forma de me tornar um “legal” na América, de
garantir a minha “green card”. Ia mal na escola, estava fodido
mesmo...Sei lá. São muitas as desculpas que tento me dar. Tinha uns
caras cujos pais diziam “Vai, você vai se tornar um homem lá”.
Sonofabitchies... provavelmente derramariam mais lágrimas se tivessem de
mandar os seus poodles de estimação.
Sei é que o babaca aqui foi lá e se alistou. E se ferrou. Todo o cabelo
vai embora no primeiro dia e imediatamente tudo se torna primitivo no “bootcamp”.
Ninguém fala com você. Todo mundo grita. Você se sente um monte de
merda. Todo mundo só querendo te fuder. Os grandões são automaticamente
nomeados os líderes. Ou se auto-nomeiam. Vão ser os líderes dos
esquadrões, pois são os únicos que podem intimidar você a fazer alguma
coisa. Porra! A força bruta é mesmo uma linguagem universal.
Há a conhecida e irrevogável separação de classes de todo o sempre, com
os caras das cidades grandes e da classe média se ajustando
automaticamente. Já os pobres e as minorias, como negros e mestiços,
além dos estrangeiros cucarachas, não se enquadram. Tendem a formar
guetos. Se não fala inglês direito então, tá fudido...
Sei é que no campo de preparação é tudo uma questão de
“Sim,Senhor”,”Não, Senhor”. Não há talvez nem senões. Você nunca acorda
como uma pessoa normal. Você tem de pular da cama, vestir-se e calçar os
batibutes em questão de segundos. Às vezes, voltar atrás e repetir tudo.
Depois é formar, marchar, fazer flexões de braço e, quando cometer um
deslize, há sempre um dos grandões na sua frente, cara-a-cara,
“ajudando” você a “memorizar” dezenas de ordens gerais. Nem que seja
pelo bafo deles, você nunca mais se esquece. Tivemos até um cara que
bebeu uma lata inteira de Brasso para se livrar daquele inferno. Eles o
mandaram para tratamento psiquiátrico.
No final do processo você se sente a pior coisa que já rastejou sobre a
terra. Para logo esquecer tudo quando, na cerimônia de graduação, ao ser
chamado de “um marine”, as lágrimas escorrendo de suas retinas fixadas
na “bright stars and red stripes” flamulante, você estar inteiramente
doutrinado.
Depois de mais um período, desta vez numa base havaiana – alguns caras
de 17 anos tiveram de ficar por lá até atingir a maioridade – você está
a bordo de um C-104 voando para algum lugar ao sul do Mar da China. Um
auto-falante enche o ar carregado de fumaça de cigarro anunciando:
“Atenção, este é o seu comando falando. Esteja alerta para o seu
destino. Da Nang, República do Vietnan”.
Nossa chegada foi em Cam Ranh Bay. É pular do avião e sentir o calor
úmido e pegajoso, temperado pelo fedor de urina velha da base aérea, que
quase lhe sufoca. Um velho ônibus escolar, mostrando o amarelo original
debaixo dos descascados da pintura verde-oliva fosca, sem insígnias,
estava nos esperando. Tão logo embarquei notei as janelas cobertas por
tela de arame. “What the hell?” Pra quê era aquilo? “Os gooks, cara. Os
gooks”, foi a única e rapidamente compreendida resposta. Os “gansos”,
aqueles velhinhos alquebrados, vestidos de pijamas escuros, cabeças
protegidas por curiosos chapéus cônicos de palha, calçando chinelas,
cultivavam o mau hábito de jogar granadas pelas janelas dos ônibus
militares.Estávamos ali, na maior instalação militar do mundo, meio a
máquinas de coca-cola e caças supersônicos e tínhamos de nos proteger de
velhinhos de pijama? Na hora não cheguei a essa conclusão ainda excitado
pelo senso de novidade, mas aos poucos algo soprava no mais fundo do meu
inconsciente que ali tinha algo errado, muito errado.
Depois do tempo suficiente para você concluir que ninguém ali sabe
realmente o quê está fazendo ou para quê, você é engajado nas operações
de “procurar e destruir”. Os helicópteros te apanham ao raiar do sol, te
levam e te largam no meio do mato. E você passa o dia inteiro andando,
lutando contra o calor, o cansaço e quase sempre, a monotonia. De vez em
quando há algum “combate”. Você escuta neguinho gritando “Atire. Atire”,
mas nem sabe em quem ou no quê está atirando no meio daquelas árvores há
mais de cem metros. Quando não se vê nada, o medo não é tão grande. Às
vezes ficávamos tão putos que atirávamos era contra os cocos. Não
usávamos luvas e a mãos eram feridas vivas. Todo dia cedo tinha de
espremer pus delas. Mas logo tudo se adapta.
Teve casos piores. Um carinha do Kentucky, por exemplo, chegou lá com
toda a pompa, dizendo que estava pronto para matar, para exterminar os
“bad gays”. Tinha só dezoito anos e completados durante a travessia
oceânica. Já no dia em que chegou, a sua base sofreu um ataque noturno
dos “VCs” e ele morreu com estilhaços de morteiro fincados na coluna
vertebral. Chegou num dia com a farda verde oliva novinha. Voltou no
outro, vestido apenas pó um saco preto de plástico.
Aos poucos a morte, o cheiro de napalm, de corpos calcinados, de pólvora
e cordite, tudo te impregna total e indelevelmente.
Na falta de alvos visíveis, a gente costumava treinar tiro em cadáveres
de vietcongs. Chutávamos-lhes as cabeças pequenas até os miolos saltarem
fora. Aqueles “fdps” eram os culpados por estarmos ali. O “sarja”, um
cara durão com forte sotaque da Geórgia, dizia: “Você tem que ver estes
cadáveres como se eles ainda pudessem serem mortos. Então, você os mata
duas vezes”.
Às vezes enfileirávamos os corpos para serem filmados e fotografados –
como o caçadores de safáris e seus troféus – e depois simplesmente
tocávamos fogo, após a contagem. Era empilhar tudo numa vala, derramar
óleo diesel e com o zippo cromado do “ sarja “, fazer a fogueira.
Simples assim. No meio da floresta.
Tinha uns caras que iam mais longe como “caçadores”: carregavam orelhas
que cortavam dos cadáveres, num colar de contas macabras. Éramos até
mesmo encorajados nessas amputações, às vezes narizes, pênis e, nas
mulheres, os seios.
Mas os VCs não deixavam por menos, não. A luta na selva começou a ficar
mais sangrenta, tete-a-tete. Não tinha aquele negócio de tanques de
guerra passando por cima de tudo como dinossauros, como se via nos
filmes de John Wayne. Era casa a casa, homem a homem. Os chinas atiravam
na gente com seus Aks-47 soviéticos, de matraquear inigualável, e até
com os nossos mal correspondentes M-16, que nos roubavam. Depois
escondiam as armas entre as paredes duplas de barrro e palha de seus
casebres. A gente as invadia e eles choravam: “Me no VC. Me no VC. We no
know VC!”. E tínhamos de por tudo a baixo, ou encostar o cano da 45 na
cabeça magra de algum deles, para os obrigar a abrir o bico.
Na verdade comecei a gostar daquilo. De matar. De fazer o que me desse
na veneta. Era como se fosse deus. As únicas mortes que nos afetavam,
pelo menos à maior parte de nós, eram a dos “nossos”. Um GI era
diferente, era um americano, era uma morte real, perigosamente próxima.
Aí, a sanha para matar se acirrava, parece que tinha mais justificativa,
e partíamos para as “procurar e destruir” determinados a cumprir o que
fôramos treinados para fazer.
No início não podíamos atirar sem permissão. Quando víamos algo na
selva, era preciso reportar ao tenente, que tinha o rádio. Ele se
comunicava com o QG e eles pediam para esperar pois, por sua vez, tinham
de contatar o S2 – oficial de inteligência, a nível de batalhão – e este
com o G3 – oficial conselheiro tático – no comando. Era muito “burrocracia”.
E nós, os babacas, às vezes ficávamos ali assistindo impotentes à fuga
dos gooks. Logo, logo não ligávamos para porra nenhuma mais e atirávamos
sem permissão mesmo. Às vezes, no próprio rádio, para alegarmos depois a
impossibilidade de comunicação.
Enfim, matar era o mais fácil que fazíamos. O difícil mesmo, o objetivo
mesmo, era sobreviver, como eu disse no princípio. Era não morrer. Era
suar 24 horas por dia, assistindo carinhas morrer estupidamente ao seu
lado de ataque cardíaco, o que nem os tabletes de sal que recebíamos
para evitar a desidratação, conseguia impedir.Era não ter comida
decente. Não dormir direito. Isto era a porra da guerra.
Chego a lembrar-me do 20 de julho de 69, quando numa noite de descanso
da nossa patrulha, com o céu claro de estrelas, ouvimos pelo rádio a
cobertura da chegada do homem à Lua. “Um pequeno passo para o homem, um
grande salto para a humanidade”, dizia pomposo o astronauta
não-sei-oquê-Armstrong, numa frase de efeito. “É seu filho da puta –
pensei – vem dar um saltinho deste aqui no meio da selva dos charlies
comigo, só por um dia”.
A rotina era fodida. Dia sim, dia não, seguir caminhando em formaão
delta, checando ponto a ponto, sob a orientação da Inteligência. Muitas
vezes uma explosão denunciava que alguém tinha perdido o pé ou a perna
inteira, quando não a vida, numa booby-trap, as armadilhas dos chinas. O
helicóptero vinha e levava o mutilado “Quando esta merda terminar “ – eu
comentava – “muito neguinho vai estar andando por aí sem pé”.
Era foda não ver o inimigo na mata. Raramente os víamos. Ao seu menor
sinal era se jogar no chão e atirar com os M-16 acima da cabeça. Depois,
nas raras ocasiões em que dava certo, era procurar e contar os corpos –
na maioria dessas vezes, encontrávamos mesmo era pedaços de carne,
restos de cabelo e muito, muito sangue, tão vermelho quanto o nosso.
Sempre que podiam os gansos não deixavam corpos dos seus para trás. Ali,
no meio da selva, até os cadáveres eram fantasmas.
Tinha um buddy do Kansas, Bobby “Pencilneck”, que sempre me alertava
para não entrar em nenhum portão aberto nos casebres de adobe da vila.
Sempre checar antes. Um dia ele mesmo se esqueceu de sua recomendação e
uma carga de mina explodiu seu traseiro, espalhando pedaços de tecido e
merda para todo o lado. O cara estava ali, na minha frente, gritando em
choque “Estou voltando para casa. Estou voltando para o mundo”. Com ele
no colo, cobertos de fuligem e sangue, eu não sabia se chorava ou
gritava por ajuda. O enfermeiro, usando rolos e mais rolos de bandagem,
teve de transformar o cara numa verdadeira múmia para que ele pudesse
ser recolhido pelo helicóptero. O coitado perdeu uma perna, todo o rabo
e sua cara ficou uma merda só.” E minha moto, cadê ela ? Estou voltando
pra casa”, era tudo o que o desgraçado conseguia balbuciar, antes da
dose ca valar de morfina fazer efeito.
No outro dia, ele morreu.
Ao recolhermos suas coisas, o cantil você podia chacoalhar e escutar os
estilhaços lá dentro. Dos furos escorria água tingida de vermelho. Não
conseguimos encontrar nem o capacete, nem o fuzil e o cinto de munição
estava partido em pedaços.
Mas os chinas também tinham os seus cabras-machos, os snipers,
franco-atiradores. Tinham uns tão bons que acertavam na mosca – nós –
num raio de quinhentas jadas. Acertar nos GIs era seu
“pão-com-manteiga”, agradava a Ho Chi Minh.O engraçado é que haviam uns
tão ruins também que nós não os molestávamos, para que não fossem
substituídos por um dos bons.
Nem tudo era só inferno, é verdade. Havia os dias de folga, os nossos
“R&R” , descanso e recreação, que eram divertidos para caralho.Cada vez
que voltávamos de uma operação, tínhamos um dia “off”, no qual nos
liberavam todo o bife, cerveja, soda e até mesmo a marijuana que
pudéssemos consumir. Promovíamos verdadeiras farras, com os caras
dançando com seus fuzis, ao som dos Beatles, Simon & Garfunkel...Era
muito louco,cara.
Às vezes recebíamos até permissão para ir de jipe às vilas amigáveis, as
PXs, tomar umas cervejas e sonhar em por as mãos nos peitões e bundinhas
das enfermeiras da Cruz Vermelha.Mas não eram para o nosso bico. Somente
os coronéis e os tenentes eram brindados com esse verdadeiro luxo.
Naquelas ocasiões, só jogar conversa fora, bater papo à toa, livres da
permanente tensão, já era o paraíso. Chegávamos até a sentir o “gosto”
da folga, como o gosto de um brigadeiro da infância...
Um dia estava papeando com um sargento na minha barraca e, olhando sobre
o meu ombro, para trás, notei de relance um vulto humano de olhar vazio,
e senti um calafrio, pois não havia mais ninguém ali, além de nós dois.
Fixei as vistas direito e só então me reconheci no pequeno pedaço de
espelho sem moldura que meu parceiro de barraca havia colocado sobre um
caixote para fazer a barba. Tive de forçar um sorriso para acreditar que
aquele reflexo era meu mesmo. Já estava igualzinho aos outros de olhar
também vazio que encontrei ali quando cheguei.
Depois de tudo o que a gente via e vivia ali, de toda aquela sujeira,
todas aquelas mentira, era impossível não mudarmos.Cara, tinha uma
revista oficial do Exército, a Stars and Stripes, que devia se chamar
Lies and Lies, tal a enxurrada de falsidades que publicavam, sempre
minimizando as nossas perdas e exagerando as do inimigo.
Eu já era capaz de deixar um china agonizante clamando por morte, no
meio da selva, só para sentir o prazer de saber que ele morreria ali,
aos pouquinhos, de hemorragia. Eram durões, aqueles motherfuckers. Teve
um grupo deles, dentro de um túnel, que resistiu a tudo que fizemos para
expulsa-los. Eram granadas e mais granadas, acompanhadas de centenas de
disparos..Entornamos mesmo o caldo em cima deles, mas quando dávamos uma
trégua, escutávamos os tiros solitários de seus Aks, debochando de nós,
cientificando-nos que estavam ali firmes, prontos para outra. Nesta, eu
quase pego corte-marcial, ao me recusar a dar mais um tiro se quer
naqueles fantasmas. Porra! Eles ganharam o direito de viver. Fiquei
sabendo mais tarde que uma carga de napalm calcinou todos eles no oco do
chão.
Com o tempo aprendi algumas poucas palavras vietcongues e dava para
compreender o que eles gritavam ao agonizar nos estertores finais.
Chamavam por sua mãe, pela mulher, filhos... O mesmo que nós também
gritávamos. Que porra de guerra era aquela?
E a competição entre os oficiais? Muitas vezes um capitão almejando
promoção a major, ficava exasperado ao receberem a contagem de corpos
inimigos dos batalhões comandados por outros tenentes concorrentes.
Lembro-me de uma véspera de Natal, quando recebemos pelo correio pacotes
de casa contendo doces, chocolates, bolos, fotografias e outros
presentes. Mas antes de abri-los, fomos obrigados a sair para mais uma
das malditas patrulhas na selva.Dava vontade de acertar um oficial
daqueles, no “fogo amigo”, como cansava de acontecer também. Naquela
vez, especificamente, o soldado Beck, um garoto texano cheio de sardas,
doido para ver o que lhe haviam mandado from home,“do mundo “ , foi
ferido por estilhaços de morteiro numa emboscada. No Natal ele não pôde
abrir seu pacote sozinho pois não tinha mais braços.
A única forma de escapar daquele tempo e lugar era “viajar” no embalo do
haxixe misturado cerveja. Ficávamos então ainda mais sedentos do sangue
dos amarelos.
Depois daquele mesmo Natal, voltando de uma das PXs, já bastante altos,
o motorista do jipe disse de repente: “Aposta quanto que sou capaz de
passar por cima daquela velha na beira da estrada?” A velha, com seu
chapéu de palha em cone, verdadeira sombrinha sobre a cabeça, a coluna
envergada pelo peso da vara de bambu apoiada nos ombros, com cabaças de
água em cada ponta num arremedo de equilíbrio, nem mesmo gritou quando o
para-choque do jipe a atingiu pelos flancos e a projetou uns 8 metros
adiante. Aí, bateu uma espécie de remorso e chegamos a pedir um
helicóptero médico para recolher a “vítima de atropelamento”, pois
inacreditavelmente, ela ainda estava viva. Ficamos sabendo depois que os
caras do helicóptero a jogaram na mata, lá do céu.
Mas os chinas davam o seu troco e sabiam ser até mesmo mais cruéis. Numa
das procurar-e-destruir, encontramos uma vila com um surto grave de
varicela. Nossos enfermeiros vacinaram todas as crianças
sul-vietnamitas, mesmo sob os olhares desconfiados e ignorantes de seus
pobres pais camponeses. Uns 10 dias depois, ao voltarmos ali, não
pudemos acreditar com o que nos deparamos. Não queríamos acreditar. Mas
era verdade. Crua verdade. Os filhos da puta do exército
norte-vietnamita, somente esperaram a nossa saída para cortar todos os
bracinhos infantis vacinados. Demais, meu brother. Teve neguinho valente
vomitando as tripas. Era o fm do mundo. Dava até sentimento de culpa
sobreviver àquilo tudo.
Mas sobrevivi. Venceu o meu “turno” e voltei para o “mundo”. Somente
para descobrir, passado a euforia inicial, as noitadas nos bordéis e os
porres na companhia de uns poucos amigos, que estava só no começo do
pesadelo. Não que alimentasse esperança de ser recebido como herói,
mesmo tendo sido agraciado pela medalha por “bravura em combate”, mas
também não esperava ser tão discriminado como fui, principalmente pela
minha única e tão querida irmã e seus colegas de universidade. “Como se
sente, incendiário de criancinhas?” era a pergunta-comentário mais
“educada” de que eu era alvo.
Fui indicado a um psiquiatra do Exército e, a muito custo, aprendi a
conviver com meus suores e calafrios noturnos, tanto que comecei até
mesmo a sentir saudades do Vietnan, da camaradagem, da parceria. Lá,
pelo menos, cada instante era vivido em sua plenitude. Jogávamos uma
roleta-russa permanente e a adrenalina é viciante. Lá, você era a lei.
Estava embebido pela adocicada e inebriante sensação de poder.
Antes de ser definitivamente “reconduzido ao convívio social”, seja lá o
que for isto, cheguei a me envolver em brigas de rua, reagindo à
discriminação, e até em pequenos delitos, apenas para sentir o gosto do
perigo, o pulsar adrenalínico nas veias.Numa dessas, os homens me
pegaram.
Alguns dias de xadrez e alguém pagou minha fiança e me ofereceu o
remédio” para a minha “inquietação”. Fui recrutado para trabalhar na
“Firma”, como eles preferiam chamar, muitos deles, também veteranos
“inquietos”.
Depois de rigoroso treinamento em Langley, Virgínia, estava de volta,
finalmente, ao Sul da China.
Agora, era um pelotão totalmente diferente e disciplinado. Uma
verdadeira elite – de minha parte, mais por escapismo e vício do que
patriotismo. Logo eu, que nem ianque de nascimento era.
Um velho avião de carreira fretado, sem insígnias, mas que sabíamos ser
da Braniff, e do qual todos os bancos haviam sido retirados, nos
conduziu num vôo noturno e incomunicável por sobre a fronteira, a partir
de uma base clandestina na Tailândia, dentro do território vietnamita.
Voou baixo, evitando os radares, mas depois tomou altura suficiente para
saltarmos de para-quedas de seda tão escura quanto o céu. Na selva,
caminhávamos em total silêncio. As pistolas .45 com as travas de
segurança removidas e todas as partes móveis cobertas por fita-isolante.
Não portávamos nenhuma espécie de identificação, nem mesmo nossos maços
de Marlboro. Apenas um cartão plastificado impresso com os dizeres “Este
homem trabalha para a Inteligência Militar. Se encontra-lo morto, não
toque em nada. Apenas comunique o local onde o encontrou”. E tinha
outras missões que até aquele cartão era deixado para trás.
No meio da selva, abríamos os pacotes impermeáveis com os mapas e
tentávamos nos orientar. Aquela primeira missão, como a maioria das que
se seguiriam, era para aniquilar sem muito alvoroço uma vila inteira de
camponeses que servia de base de suprimentos e armas para os comunistas
do norte. Era o que a Inteligência informara. E assim fizemos. Primeiro
pegamos o líder do lugarejo e, como ele não confessásse nada, abrimos
sua barriga de cima a baixo e o jogamos no chiqueiro, onde os porcos se
banquetearam com suas vísceras expostas. Dois garotos tentaram fugir,
mas o que fizeram mesmo foi nos levar a um dos túneis onde estava
escondido parte dos fuzis de assalto soviéticos. Aí, enfileiramos todos
ele, todos mesmo, velhos, mulheres e crianças, e os fuzilamos,
incendiando depois todos os casebres de bambu e palha. Não podíamos
fazer prisioneiros.Não podía mos deixar testemunhas e ao mesmo tempo,
tínhamos de meter medo no populacho dos vilarejos. Éramos realmente um
pelotão especial
Já quase no final daquela porra de guerra inglória, integrei missões
mais penosas. Caçar e exterminar sem nenhuma consideração – o quê, no
nosso jargão, chamávamos de “extreme predujice” – desertores americanos,
que achavam a profissão de contrabandista de armas mas promissora que o
Exército do Tio Sam. Não só no Vietnan, mas principalmente nas
vizinhanças, Tailândia, Filipinas, Hong Kong. Reconheço que era duro dar
cabo de um camarada, apenas mais um sobrevivente, como nós. Mas missão
era para ser cumprida sem questionamentos e agora eu era um
profissional. E na verdade nunca liguei também para porra nenhuma mesmo.
Nem a notícia da morte do meu velho, no Brasil, numa das raras ligações
que fiz para casa, havia me abalado.
O pior é que sabíamos, todos nós, que aquela merda de guerra já estava
perdida. Havia rumores de planos mirabolantes e radicais de jogar uma
bomba atômica em Ho Chi Mihn, como fizemos no Japão. Mas os tais
“direitos humanos” iniciavam sua bem sucedida campanha mundo afora e os
bundões do Congresso não aprovaram o “ato final”. What a shame. What a
shit.
Várias vezes também, mesmo fora do “campo”, minha vida esteve por um
fio. O que me obrigou a ser obsessivamente metódico, tornando-me um
paranóico extremado. Muitos dos parceiros que assim não agiam, tombaram
pelo caminho.
Naquela missão para resgatar os reféns americanos no Irã pós-Xá, por
exemplo, perdi um grande camarada. Todos nós, marines e “especiais”,
aguardávamos pelo sinal verde nos helicópteros e em nossos porta-aviões
no mar do Golfo. Mas na última hora, o bundão democrata do Jimmy Carter
deu para trás e abortou a missão. Na confusão generalizada que se
instalou, perdemos vários homens no choque estúpido de dois helicópteros
sobre as areias ferventes do deserto. Nossa moral também foi torrada
junto àqueles pobre soldados.
Depois, thanks God, veio o cowboy Reagan, disposto “a restaurar a
salvaguarda americana à Democracia no mundo’. E dessa vez foi o
Afeganistão, onde pretendíamos infligir aos russos o seu próprio Vietnan.
Participei de várias missões clandestinas ali, sabotagens, execuções e
até de instrutor aos primitivos afegãos no uso dos foguetes ombro-ar e
outras arma modernas. Foi também onde perdi outro grande parceiro, que
estava comigo desde os tempos de Langley. Sabe como? Uma morte muito
heróica: envenenado por uma laranja, numa mesa de boteco em Cabul. Eu
mesmo escapei por pura sorte, mas aquela perda me fez tomar pelo menos
duas garrafas inteiras de Bourbon.
É que no “campo” , você acaba aprendendo a gostar do parceiro, você tem
de gostar, pois às vezes a interdependência representa a diferença entre
a vida e a morte. Estamos ali juntos para o que der e vier.
O que eu fazia era necessário e o necessário será sempre possível.
Governo? O que o cidadão comum sabe de governo? Para o povo o Governo é
“60 Minutos” diários na TV. Querem do Governo somente o preço mais
barato da gasolina e a previsão correta do tempo. Às vezes, um homem na
Lua. Para o povo, o conceito de felicidade é bocejar nas reuniões
sociais.
É verdade que nunca fui apanhado. E se o fosse, seria um mudo de
nascença. Na América, o melhor que se faz ao “ser apanhado” é ficar
calado. Calado, a pena será curta. Por isto o narigudo do Nixon não
dançou...
Em outros países por onde andei, a coisa era diferente. No Brasil mesmo,
eu nunca participei de nenhuma missão. Meus contratantes classificaram o
país de “ off limits” para mim. Mas tive um parceiro americano que atuou
junto à Inteligência brasileira, num episódio contra comunistas na
Guiana. Entraram lá, via Amazônia, como missionários batistas, numa
“covert operation”, mas como sempre acontece, não fiquei sabendo dos
resultados. E não me interessavam.
Uma vez, para ajudar um amigo de Belo Horizonte, onde nasci, a quem já
devia alguns favores, tive que dar uma lição num matuto que havia
engravidado a filha dele e “não queria assumir”.Foi numa de minhas
poucas licenças remuneradas. Amarrei o desgraçado num galpão abandonado
da Central do Brasil e estourei o seu saco com dois tijolos que achei
por lá, como pratos de banda de música. Piece of cake, man.
Mas a gente se cansa de tudo. Eu já estava cansado. Meu último trabalho
também foi um dos mais difíceis e por isto mesmo custou caro aos meus
“patrões”. Na verdade, naquelas alturas eu já não sabia mais nem para
quem trabalhava. A Firma se transformara nisso mesmo: um negócio. Tão
sujo quanto qualquer outro. Nós, os profissionais, não lutávamos mais
por ideais políticos – nunca lutamos – nem por interesses puramente
militares, mas sim para defender e fazer prevalecer os interesses das
grande corporações multinacionais, principalmente nas republiquetas
terceiro-mundistas, tubos-de-ensaio, campos-de-teste, quintal e lixeira
de nossa existência e bem-estar. Digo que lhes custou caro, porque o meu
preço foi justamente de que deletassem toda a minha ficha nos
computadores da Central. Sabia que, a partir dali, estaria so mente “por
mim próprio”, mas preferia assim. Não mais verdinhas a dar com pau
depositadas regiamente nas minhas contas de bancos de Barbados, Ilhas
Seischelles ou Hong Kong. Não mais cartões de crédito sem limites de
gastos. Não mais passagens aéreas a bel prazer. Mas, pelo menos, a
pretensa liberdade de um anonimato total. Podia até ferir a minha
“vaidade”. Queria, não sei como nem quando, que meus “feitos” fossem
conhecidos de alguma forma e talvez por isto é que estou exorcisando
tudo aquilo aqui, para provar que do “Brasa” também sai homem de
verdade. E para extrair a fórceps meus próprios demônios. Era o meu
destino.
Para encurtar esta confissão, que já se estendeu além da conta, os
colarinhos brancos pagaram o meu preço e lá fui eu para a Coréia do Sul,
fazer pela última vez, o que era necessário.
Com passaporte falso, entrei no país em plena efervescência eleitoral
que pretendia eleger Roh Tae Woo o novo presidente, contra ferrenha
oposição. . O irônico de tudo – e o segredo maior também – é que foi a
própria Oposição de lá, em contatos estreitos com a Firma, que
contratara aquela “operação de um homem só” para liquidar com
estardalhaço o seu próprio e carismático líder. Seria um mártir, o
cordeiro sacrificado por uma “causa nobre”: a ascensão ao poder de seu
próprio partido, o que, esperavam, seria inevitável após o assassinato
do seu líder máximo às vésperas do pleito. Mas o tiro saiu pela culatra,
e tenho cá minhas dúvidas se a própria Firma não planejara assim,
afinal, Roh, que acabou vencendo, era favorável à manutenção das bases
americanas no país e à abertura de sua economia. E os fdps mais uma vez
estavam certos...
Depois dessa e ao peso de uma bagagem volumosa de cicatrizes físicas e
psíquicas, estou curtindo a minha “aposentadoria” no anonimato, aqui em
Hong Kong, em companhia das “pererecas” – homem nenhum vive sem uma e
elas só servem praquilo mesmo. E de meus fantasmas. Engordei bastante
com a inatividade, deixei o teimoso bigodinho latino finalmente vir a
tona, crio um rabo-de-cavalo, já que o cabelo rareia no topo da cabeça,
e vou levando a vida.
Às vezes a bebida passa da conta e espanco a perereca que estiver
comigo. E choro. E lembro de um neguinho que adotei na Etiópia, num
programa de adoção à distância dos veteranos do “serviço”. Filho que
nunca vi. Filho que nunca vou ter.
Lembro-me do Brasil como algo longínquo, quase em “fade-out”, de minha
infância na capital de Minas Gerais onde mesmo proveniente de uma “boa
família”de Batistas praticantes, eu me identificava mais com os
neguinhos da periferia, com quem aprendi a “entregar bagulhos” de moto
ou bicicleta, acima de qualquer suspeita. Apenas um garoto.
Um garoto que, mais tarde, em plenos distúrbios estudantis contra a
Ditadura Militar, não hesitou um segundo se quer para jogar uma enorme
pedra na cabeça de um milico, do alto do prédio do Diretório dos
Estudantes. E de ter gostado. Da viagem à América conseguida pela mãe em
contatos na Ingreja. E como apreciou aquela liberdade e resolveu ficar
de vez., primeiro fugindo da migração e depois, naturalizado, graças ao
serviço militar. De como mergulhou em tanto sangue que não mais
conseguia enxergar as margens...
Tudo passa na minha mente como se o tempo fosse uma fita transparente,
que você pode ver ao mesmo tempo o início e o final, um presente
contínuo. Sim, um eterno presente pois, por mais que me esforce, não
consigo enxergar o fim...
JOSÈ CARLOS NEVES é autor/desenhista de Quadrinhos, dublê de
contista, com contos de Ficção Científica e Terror publicados na extinta
Isaac Asimov Magazine (Editora Record), na coletânea Luso-Tupiniquim "O
Atlântico tem duas margens" (Editorial Caminho, Lisboa), nos zines
Megalon, Somnium, Hiperespaço e outros...
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