Estávamos à tua espera

A história que vou contar-vos é verdadeira. Passou-se comigo há não muito tempo. Foi por altura de uma temporada longe do bulício da cidade. A noite era fria e eu caminhava já há algumas horas. Era com dificuldade que conseguia colocar um pé à frente do outro e o suor que me cobria a testa fazia-me estremecer com arrepios quando alguma rajada de vento gélido se abatia sobre mim. Foi então que avistei uma silhueta recortada no horizonte à minha direita. Dir-se-ia uma casa senhorial do século passado, abandonada. Confesso que o arrepio que senti ao avistá-la foi mais intenso do que os anteriores, mas a ideia de lá encontrar abrigo das rajadas cada vez mais rebeldes e repouso para as minhas pernas, seguramente não menos trémulas, como que me conduziu aos tropeções por entre arbustos que iam aumentando de volume à medida que me aproximava da fantasmagórica construção. Fui obrigado a utilizar uma navalha que me acompanha sempre que me abandono a estas excursões vagabundas para abrir caminho por entre espinhos grossos como dedos e afiados como agulhas. Alguns deles penetraram-me na carne quais presas de lince esfomeado e a dor por eles provocada apenas serviu como pretexto para seguir em frente. Na verdade, a cada picada, sentia-me invadir por um sentimento nunca antes experimentado que me enraivecia e ao mesmo tempo enchia de prazer ao ponto de esquecer o cansaço e o frio que o vento sobre mim despejava. Por fim, quando apenas alguns metros restavam para alcançar a porta da casa de pedra - que agora me parecia muito maior e ainda mais assustadora - um ruído de asas a bater ensurdeceu-me e o céu toldou-se de negro quando um bando de aves por mim nunca antes avistadas se projectou inesperadamente, obrigando-me a conter um grito de terror e a baixar-me com as mãos protegendo a cabeça. Consegui apenas vislumbrar que os seus olhos eram de um vermelho demoníaco e soltavam uivos semelhantes aos dos lobos em agonia apesar de não terem bico ou boca por onde os produzir. Como devem calcular, assim que desapareceram por detrás do telhado daquele monstro escuro, foi meu desejo voltar para trás, seguir caminho e enfrentar o frio da noite, mas os espinhos, agora do tamanho de braços, tapavam por completo a passagem que a custo conseguira abrir. Vi-me assim encurralado entre a liberdade da minha deambulação noctívaga e o pretenso conforto do ventre da soturna habitação que à minha frente se erguia. Certo de ninguém lá se encontrar - não fora a cerrada vegetação que entre ela e o caminho se interpunha - entrei sem cerimónia, não pesando as consequências, ainda abalado pela estranha experiência dos espinhos e dos pássaros do demo. Levei alguns segundos a habituar-me à escuridão que lá dentro se fazia sentir. Por momentos, pensei que a porta iria fechar-se com estrondo atrás de mim, mas tal não aconteceu, ficando entreaberta conforme a deixara, permitindo assim a entrada de alguma claridade. Encontrava-me numa sala completamente despida. Uma imensa escadaria conduzia ao andar de cima, de onde, estou certo, consegui escutar risos femininos abafados. Chamei! Fez-se então o mais intenso silêncio que jamais me foi dado a conhecer. Os uivos do vento cessaram assim como o roçar dos espinhos que os provocavam. Nem a minha própria respiração conseguia sentir e, durante alguns minutos - JURO-VOS - pensei que tinha mesmo deixado de respirar e que o meu coração parara.

Pareceram-me intermináveis esses momentos em que tudo parou. Estava petrificado pelo pavor, estupidificado pelo absurdo de toda aquela situação. Aos poucos, fui recobrando forças deste choque e tive noção de que me encontrava agora noutra câmara, esta mais quente e mais iluminada graças ao lume que ardia num enorme fogão de sala. Sobre a lareira, encontrava-se uma garrafa transparente com um líquido acastanhado no interior. Peguei num copo e bebi! Posso afirmar-vos, com toda a franqueza, que nunca provara tão delicioso néctar. Senti por todo o corpo um torpor agradável e deixei de recear qualquer acontecimento imprevisto que esta aventura poderia trazer. Escutei novamente os já familiares risos femininos e voltei-me. Não me espantei ao avistar cinco belas raparigas, as cinco mais belas que conhecera, todas envergando apenas vestidos transparentes que deixavam adivinhar as formas mais deliciosas que alguma vez ousara imaginar. A mais bela delas, uma mulata de olhos azuis cor-do-céu, aproximou-se sem dar um passo e disse:

- Estávamos à tua espera!

Sem qualquer reacção da minha parte, lambeu-me a face esquerda e, ao afastar-se com a língua ainda entre os lábios, vislumbrei um fio de sangue e só então percebi que tinha o corpo coberto de escoriações, algumas delas bem profundas na minha carne, provocadas sem dúvida pelos espinhos da entrada. As outras quatro raparigas imitaram-na depois de me despirem a camisa. As suas línguas, ao tocarem a minha pele, curavam de imediato os ferimentos. Sem dar por isso, encontrei-me noutra câmara, esta ainda mais iluminada e quente, onde se ouvia o chapinhar como que de crianças na água. Ao voltar-me, arregalei os olhos perante o espectáculo que se me deparava. Uma cachoeira de água quente desabava numa piscina onde nadavam alegremente umas vinte raparigas não menos belas que as cinco primeiras. Estas, agora nuas como as que brincavam na piscina, conduziram-me alegremente para dentro de água e não calculam os prazeres que me foram dados a conhecer naquela noite. Senti fome e apresentaram-me os mais deliciosos e elaborados manjares que alguma vez algum rei provou. Exausto, adormeci no meio das minhas vinte e cinco companheiras que entoaram o mais belo cântico de embalar que jamais ouvira.

Acordei era dia. Mas estava só! Levantei-me e percorri desesperado todas as divisões em busca das minhas vinte e cinco amantes mas nem sinal delas, nem da piscina, nem dos manjares, nem da lareira, nem daquele delicioso licor. Acabrunhado, decidi então tentar ir embora, agora bastante apreensivo pois tinha de ultrapassar novamente aquele mar encrespado de espinhos. Qual o meu espanto ao avistar no seu lugar um magnífico jardim com as mais variadas plantas, árvores e flores. Ao percorrê-lo, esvoaçaram à minha frente vinte e cinco andorinhas que disseram:

- Estávamos à tua espera!

E afastaram-se. Voltei-me para trás, seguindo-as com os olhos e vi que a casa já lá não estava. Lembrei-me então que era o meu aniversário; fazia vinte e seis anos!

E tinha a garrafa de licor vazia na mão!


JOSÉ REMELHE
, nasceu no Porto, Portugal, a 30 de Maio de 1972. Licenciado em Ciências da Tradução e Cultura Comparada pelo Instituto Superior de Línguas e Administração, tem vindo a desenvolver a sua actividade profissional na área da tradução literária e científica, sendo de destacar a tradução do Booker Prize, Peter Carey, e do actual Prémio Nobel da Literatura, J. M. Coetzee.