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Ela
MINHA PREZADA AMIGA:
Escrevo-te neste radioso dia de um sol lavado, brilhante. Botafogo, aos
domingos, é triste... como, de resto, são insípidos e tristes todos os
domingos, em todas as partes do mundo. Ir hoje a um teatro, a um
cinema?! Um passeio de automóvel? Não... Prefiro escrever-te, conversar
contigo, e contar-te uma visita que tive ontem, a noite, no meu pequeno
salão alaranjado e discreto, de que tantos gostas.
Lembra-te da nossa magnífica amiguinha Reinalda? Fomos todas colegas no
Colégio Inglês, de Lisboa, - naquele onde, sem exceção de uma só,
adquirimos o talhe de letra, comprido e fino, e estreito, e esguio, com
que te escrevo. Pois a Reinalda, - de quem dizias outro dia nunca mais
teres visto, - esteve aqui ontem. Está uma esplendida mulher! Alta, o
corpo discretamente forte e cheio, morena, de uma pele morena, aveludada
e macia, os olhos grandes e rasgados, e escuros, - toda ela, quando
passa, pisando firme, tem uns gestos lentos de rainha verdadeiramente
fidalga. Uma criatura que empolga e que de certo sugestiona aos homens
inteligentes.
Reinalda trazia um vestido simples, leve, de listas largas, negras e
brancas. Um chapéu preto, amplo. Iam-lhe bem. Se todas as mulheres, e os
homens, soubessem como a simplicidade é sempre encantadora!...
Conversamos, recordamos. Esquecia-me dizer-te, minha boa amiga, que a
nossa linda colega está viúva, há seis anos. Viúva!...
E com trinta anos, - ela, a sorrir, diz que tem vinte e sete, e com uma
dúzia de adoradores!
Algumas desses, ou quase todos esses, homens de salão, mundanos,
decididamente não querem casar, e apenas pretendem coisas deliciosas com
o mínimo de responsabilidade. Mas, Reinalda, se por acaso consente o
flerte simples, nada mais permite. É rigorosamente honesta.
E, detalhando, municiando, na intimidade da nossa antiga amizade, ela,
entre a sua corte, destacou um, a que deu o nome de Arthur, como
chamaria, é claro, Fernando ou Augusto. E confidenciou tudo, entre séria
e risonha, - um enigma.
Viram-se há quatro anos, pela primeira vez, na Avenida. Cruzaram, -
casualidade ou destino? – um longo olhar, desses olhares que não se
esquecem nunca, e que, passados anos, ainda se recordam com saudade.
Arthur, de certo, ficou perturbado, e, meio minuto depois, retornou a
olhar, seguindo de longe o seu vulto de triunfadora. E, no mesmo momento
– destino ou casualidade? – ela voltava-se também...
Na impertinência deliciosa de mulher, interroguei ainda a bela Reinalda:
- E, agora?!
- ...Nada.
Ora, minha boa Marcela, Reinalda saiu, deixou-me entre um abraço e um
sorriso, satisfeita de si, orgulhosa talvez da sua pompa, e eu fiquei a
cismar, a pensar...
Depois, com intervalos, viam-se em teatros, cinemas, na Avenida, nas
festas mundanas, nos chás de caridade. Olhavam-se, uma ou outra vez, um
sorriso frisando os lábios. E nunca se chegaram a falar, porque nunca
houvera ensejo de uma apresentação.
Reinalda fez uma pausa. Perguntei-lhe:
- E depois?!
- Ele residia numa terra distante. Partiu... E, dois anos a fio, numa
Constancia de admirar em homens, escrevia-me, em quase todos os vapores.
Sempre um cartão postal de Arte. Uma palavra de saudade, de carinho, de
afeto... sem data, sem assinatura, nada. Adivinhava, apenas, que era
dele, porque não podia ser de outro.
- Respondias?
- Não. Voltou há um ano. Sei, - as mulheres inteligentes sabem sempre
quando são queridas! – que o seu amor não mudou. Ao principio,
procurava-me com o olhar, como outrora. Eu olhava-o, às vezes... e, às
vezes, fazia que não o via. Nuances de flerte, coquetismo, que sei eu?!
O certo é que, se quisesse, ele teria sido o meu marido. Mas, a algumas
amigas, a pessoa íntimas, num dia de nervos, contei esse caso, que não
era nada, mas que podia ter sido tudo. As amiguinhas, trêfegas e
levianas, modernizadas, materializadas, riram... E o nosso segredo
transpirou. Arthur soube, e melindrou-se, magoou-se...
...Tu, que és tão boa e meiga, não achas que Reinalda é linda e má? Que
foi, talvez inconscientemente, acredito, de uma crueldade dolorosa? Pois
que?! Permitiu o flerte, animou-o, com o olhar e o sorriso, consentiu-o,
e, depois, procurou ridicularizar o sentimento que despertara?! Contou
as amigas, as conhecidas, aos parentes, com pretensões a ironia... Ora,
troçar de um amor que se inspira a um homem que é correto, é se apoucar
a si mesma. Não é exato? Ela ficava com o direito de não corresponder,
de cortar qualquer gesto afetivo, - mas não o de maltratar, de fazer um
jornal falado de um sentimento todo íntimo, muito nobre, e que tinha as
mais sérias intenções. Enfim, há criaturas que se distraem em fazer
injustiças ou crueldades. E é pena que Reinalda, sendo tão bonita, e com
aqueles lindos olhos, tenha sido tão má para quem tanto bem lhe
queria!... Enfim, é a vida. Com os beijos, minha boa Marcela, da tua
REGINA.
Rio, nov. 918
RAUL DE AZEVEDO, escritor amazonense, publicou Alma inquieta das
Mulheres, Amigos e Amigas, 1919. Fez parte da Academia Amazonense de
Letras.
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