
Ilustração: Marc Chagall |
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O telhado e o violinista
Não há escolha: estamos presos ao
livre-arbítrio
I. B. Singer
— Judia suja.
Eu, que nunca havia experimentado a sério
ser quem era — porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos —,
passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser também suja — o ódio na
boca de Paula fazia com que as duas palavras se equivalessem. Fiquei
ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se
tornara dona de uma voz tão impositiva que se assemelhava à verdade. Sem
sabermos, ela ou eu, obedeciam-se a velhas tradições — era um
conhecimento com que os ruins já nascem. O ódio cintilando a ponto de
zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa, arrastando-a
escandida:
ju-di-a-su-ja.
Então em mim, pela primeira vez, se
abriu uma violenta ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor
grande demais para o espírito de uma menina. E a criança que eu era
arranjou ainda ânimo de fazer a pose da insolência, as duas mãos na
cintura, e arranjou ainda instinto para retrucar:
— E você é uma bocó. E uma burra.
Pronto, eu, como ela, também
obedecia a antigas tradições — pela minha lei de talião, ser bocó e
ainda por cima ser burra era pior do que ser suja. E a fúria com que a
insultei inaugurava em mim um novo sentido para a verdade, aquela da
qual, enfim, eu também podia ser autora. Recolhi a boneca do chão,
penteei com a ponta dos dedos a franja muito loura, muito simétrica, e
agora desfeita: magoava-me que minha Suzi fosse o inocente motivo de
desavença. Dei as costas para Paula e para sua porqueira de casinha em
madeira pintada de azul e subi de dois em dois os degraus do prédio.
Empurrei com raiva a porta da área de serviço de nosso apartamento, que
estava sempre aberta.
Suja era ela. E toda a família dela. E os
filhos, netos e bisnetos que ela ia ter.
Desde a morte de meu
avô e desde que viera morar conosco, virava e mexia, a pose era a mesma:
sentada na beira do sofá, pés paralelos, cotovelo apoiado no joelho,
queixo descansando na palma da mão. Nessas horas, o olhar de minha vó se
perdia num alheamento de fulgurações azuis, fixo na imprecisão de quem
recolhe lembranças encravadas numa rebarba de tempo. A imobilidade
daqueles instantes era sempre cortada por um longo — tão longo —
suspiro, arrematado por um oi, veis is mir, a lamentação dos
judeus em todo o universo. “Pobre de mim”, comiserava-se ela. Que triste
era aquilo.
Na sala, encontrei-a na mesma posição,
interrompendo-se num lamento que remontava a eras lá bem remotas. Sentei
a seu lado no sofá. Fiz beiço para contar:
— Vó, me chamaram de judia suja.
Ela, a quem nunca fez falta o delicado
essencial, me olhou espantada.
— Quem?
“Quem?” era pergunta de espectro
amplo. Podia também significar, “por quê?”. Respondi, ainda dolorida,
que Paula, a menina que morava no trezentos e quatro, queria que minha
Suzi fosse a empregada no brinquedo de casinha. A vó, que farejava de
longe as disposições hierárquicas mal-intencionadas, teceu um impropério
em iídiche. Depois falou devagar, para que eu compreendesse:
—
Você é a menina mais limpa do planeta. Ela que é uma mischigne.
Entendeu?
Paula era, na voz da vó, uma louca —
dito no antigo dialeto, o insulto era muito maior. O mundo voltara a se
organizar, as terríveis histórias que sempre escutei passaram a fazer
todo o sentido. Abraçada à minha Suzi, descansei a cabeça sobre as
pernas da vó, aspirando o perfume da florzinha de jasmim — mimo que a
dona da casa ao lado lhe alcançava todas as manhãs e que ela, faceira,
sempre trazia dentro do sutiã. Entremeava os dedos de juntas nodosas em
meu cabelo, crespo como o seu: fazia e desfazia a mesma trança numa
mecha cuidadosamente repartida. Pelos repetidos suspiros, soube que
estava angustiada — tanto que começou a reprisar aquela história de
cossacos com sabres em seus cavalos. Melhor não ter contado a ela sobre
a briga: reavivava na coitada uma dor grande. Não queria que ela
sofresse.
E eu também fazia e desfazia uma trança no
cabelo da Suzi. Num suspiro que interrompeu minhas ternuras, fui gêmea
de minha vó: odiava tanto Paula quanto ela odiava os cossacos.
No final daquela tarde, quando o pai e a
mãe chegaram, reuniram-se os adultos em nervoso comitê na sala de
jantar: a vó contava do meu primeiro enfrentamento, enquanto eu, na
cadeira ao lado do pai, protegia bem forte a Suzi contra o peito. Meus
dois irmãos, que vinham do futebol, entrando em algazarra pela porta da
área de serviço, foram chamados à sessão — e que parassem com aquela
bagunça, tratava-se de assunto sério. Sentaram-se, os rostos no
vermelhidão do suador: eram a alegria interrompida.
O
pai espalmou as duas mãos sobre a madeira da mesa, os olhos ferviam de
ultraje. Voltou a lembrar daquela história que era nosso horror
ancestral: o ódio, as perseguições, os mortos a troco de nada e — horror
entre os horrores — a casa e a família da vó arrasadas num pogrom,
daqueles com cossacos em seus cavalos. Nossa velhinha emitiu mais um
suspiro, os olhos se perderam em novas cintilações azuis. O pai deu um
jeito solene à voz:
— Daqui por diante, que nenhum de nós
volte a falar com aquela mocinha anti-semita — e punha-se bem em seu
papel de patriarca. Olhando para mim, agora com ternura de aprovação,
ele acariciou a minha franja e a da minha boneca: — Você fez bem em
chamar aquela burra de burra. Nada de humilhações e de vergonha.
A mãe emendou:
— Se você se abaixa demais, aparece a
calcinha.
A vó
fez pu-pu-pu, a simulação das três cusparadas, espantando a
presença do diabo.
A partir daquele momento, nós, os filhos,
fomos invadidos pela consciência da vergonha que havia em ser humilhado.
Era tão indigno quanto mostrar a bunda.
O pai, ao nos preparar para dormir, sempre
dizia que a vida começava no dia seguinte. A frase era declinada em
italiano, fato que, partindo de um filho de imigrantes judeus russos,
tinha lá sua parte no insólito — sem nunca deixar de ser verdadeira.
Assim, dias melhores vieram. Tanto que já era época do Yom Kipur. Como
sempre acontecia nos arredores do Dia do Perdão, uma bela tarde minha vó
trouxe da rua uma galinha.
Viva.
Conhecia de cor o roteiro a ser
cumprido dali por diante, motivo pelo qual sempre me neguei a comer
carne de qualquer ave. A abominação: o bichinho teria uma das patas
amarrada ao tanque de lavar roupas e ficaria preso por uns três dias na
área de serviço, o piso coberto por jornal para proteger dos cocôs,
ciscando numa gamela de madeira grãos de grosso e amarelo milho. Para
mim, o espetáculo era mais do que terrível: escavada num tosco pedaço de
pau, a última refeição da condenada. Eu, que costumava entrar no
apartamento justamente pela porta de serviço, passaria por ela várias
vezes, desviando o olhar, com culpa impotente de deixá-la em seu pavor
de prisioneira da sua própria natureza e de seu destino de galinha — o
féretro seria uma assadeira, o corpinho de asas curtas e pernas abertas
rodeado por cebolas e por batatas luzindo na gordura dourada. Na véspera
do jantar que romperia o jejum, haveria um gritedo na cozinha: a vó em
ói-ói-ói, e a galinha em desespero de cacarejo, as duas se altercando
numa batalha desigual. Eu fugiria da contenda, os ouvidos tapados com as
palmas das mãos, rezando para que aquilo tudo passasse logo, passasse
logo, passasse logo. Da luta, à qual se somaria um asqueroso cheiro de
queimado, haveria um só vencedor. Era, segundo meu pai, a lei do mais
forte: a história de David e do gigante Golias às avessas.
Enfim seria silêncio fúnebre — dessa
maneira passei a ensaiar os primeiros lutos de minha vida. A vó me
chamaria por meu nome em iídiche, coisa muito séria. Eu iria à cozinha,
cheia de angústia na antevisão da cena trágica, a galinha pendurada
pelas patas à torneira, o sangue escorrendo do talho da degola sobre a
louça branca da pia. Um golfo de náusea, e eu ficaria ali, no meio do
assoalho de ladrilhos, dura de obediência, para que a vó desse sete
voltas com o bicho morto sobre a minha cabeça, recitando alguma bênção
esquisita. Pronto: o sangue impuro da ave escoado pelo ralo, e eu teria
feito parte de mais um estranho ritual antepassado. A morte da galinha,
dizia a vó no seu torto sotaque, levara todas as ruindades que me
cercavam. Pobrezinho do bichinho.
Naquela tarde, no entanto, por
aquele instinto ativo a que estava me habituando, fui até a cozinha
antes que o momento tétrico chegasse. A galinha em cacarejo: penas
pardas arrepiadas, pata presa por um cordão ao tanque, zonza de tanto
ser bicho. Sem atinar o inescapável da situação, tentava se desvencilhar
do sacrifício. A vó, cantarolando distraída, areava a panela de arroz
com uma barra de sapólio. Era uma desumanidade: como ela, logo ela,
podia ficar indiferente ao terror ali do lado?
Foi aí que aconteceu: a galinha me olhou.
Um olho de esperança, como se eu tivesse algum poder messiânico. E as
pupilas pretas da galinha, com um espanto de cera preso nas pálpebras
amendoadas, pediam qualquer gesto redentor da criança que eu era. Amor
de salvação era coisa de adultos. Mas houve um momento em que a bondade
me ultrapassou, porque um dia eu seria mãe, e porque era filha e neta e
irmã e sobrinha. Acocorada, repeti os mimosinhos e afaguei a crista
sangüínea e tenra, a galinha deixando-se acariciar como se fosse um gato
ou um cachorro. Como se não fosse uma galinha. Alguma coisa, em mim e
nela, acontecia, algo que eu não chegava a entender a olho nu. Sei hoje
que a galinha foi acometida de uma esperança difícil e torta, mas ainda
assim esperança.
Eu, dona de uma vida, autora de uma
verdade, disse impositiva de redenção:
— Essa galinha não vai morrer — e, para
garantir minha ordem, igualei bicho a gente: — O nome dela vai ser
Hortênsia.
No
jantar de Yom Kipur, a mesa era mais do que matar a fome: tivemos
beigales de batatas que estouravam em crostas tostadas, knishes
de ricota fofos na textura de gordura e farinha, saladas de mangas e
melões nadando em espesso creme agridoce, torta de berinjelas e cebolas
que cintilavam à luz do castiçal de prata. O chrein, na energia
colorida das beterrabas, acompanhava os bolinhos de peixe: comemos
guefiltefish ensopado com tiras de cenouras, pimentões e tomates.
Estávamos pacificados pela fartura, esperançosos pelo ano que se
iniciava, mas mesmo assim meus irmãos reclamaram. Foi o primeiro Yom
Kipur em que não houve disputa pelas coxas de galinha. Uma vez que
galinha não havia.
O bem tinha vencido.
Eu nem acabei de comer direito, pedi
licença para ir ver Hortênsia, que descansava na área de serviço,
acomodada no cestinho de palha montado dias antes. Porque era feriado
santo, o comentário de meu pai, à cabeceira da mesa, foi comedido:
— E essa agora.
Naquela madrugada, a casa foi
sacudida por uma gritadeira de mundo que está acabando: Hortênsia
finava-se em cocoricação e bater de asas. Pulei da cama. A mãe saía do
quarto abotoando-se no chambre, o pai vinha atrás de peito nu. A luz da
área de serviço estava acesa. Reconheci o vulto da vó, de pé frente a
Hortênsia, que, por seu turno, colocara-se de pé sobre o ninho. Os
braços da minha velhinha estavam caídos ao lado do corpo; Hortênsia não
parava de bater as asas. O pai espetou no ar o indicador, o dedo
apontando a surpresa.
— Um ovo — ele disse, agudo de espanto — a
galinha botou um ovo.
O rosto da vó se iluminou. Disse o que se
costuma dizer nessas horas, em iídiche, claro, e em português:
—
Mazel tov — eram os augúrios de felicidade futura. — Que venha em
boa hora.
A mãe, que sempre adorou bebês,
enterneceu-se:
— Que amor!
Eu, sonolenta, custei um pouco a entender.
Logo a mãe mandou acordar os meninos, viessem todos, que a galinha agora
também era mãe. Foi meu irmão o primeiro a se dar conta:
— O ovo tem pinto dentro?
O pai olhou-nos a todos. Tinha uma
expressão desolada:
— Mas é cada uma que me acontece.
Hortênsia passava a maior parte do
tempo no ninho. Entronizada, o peito estufado, permanecia altiva em sua
condição galinácea, feliz de estar chocando. De vez em quando, piscava
os olhos lentamente: podia jurar que ela pensava.
— Uma gravidez, ainda que do lado de fora,
não deixa de ser gravidez — a mãe ponderou quando eu quis pegar o ovo
para ver se tinha pinto dentro. — Deixe a Hortênsia chocar em paz. E
troque os jornais da área de serviço, ninguém quer ser mãe meio no meio
da cocozada.
Assim, ao lado da grávida, eu me
sentava na cadeirinha de vime que o pai tinha me dado. Minha vó passava
as tardes na área de serviço, contando histórias no conforto da cadeira
preguiçosa, que, agora, migrara para o berçário da casa. Ela me ajudava
a fazer tranças em minha Suzi, costurava roupinhas novas, fazia de conta
que a gente, as três, passeávamos. Hortênsia e eu aprendíamos as
delicadezas da maternidade.
Lá uma bela manhã, todos se preparavam
para ir à escola, quando novo alarido na área de serviço invadiu a casa.
A vó se exclamava toda, dava gritinhos em ui-ui-uis de alegria,
viéssemos todos ver.
Eu e a mãe fomos correndo. O pai, ainda
ajeitando a gravata, nos seguiu porta afora. Daí que eu vi:
a casca do ovo quebrada.
Um pintinho.
E ele piou.
Foi um pio sofrido e choroso, pio fino que
estremece quem ouve. Àquela altura, lambuzado das secreções natais, o
pinto resplandecia de amarelo, acontecimento de penugem perfeita — uma
graça. Dei um passo à frente e estendi a mão. Hortênsia, com uma rapidez
de raio, bicou meu dedo. A vó contemporizou:
— Bicho é igual a gente. A mãe não deixa
ninguém mexer no bebê.
Entendi. Os irmãos vieram correndo.
Estacaram:
— Mas é um pinto — disse o mais novo.
— Um pinto — repisou o mais velho.
— Pois é, um pinto — trepliquei.
Enquanto ficávamos nessa de descobrir que o quadrado não é redondo, o
pinto inaugurava a plena forma de seus pulmões: uma piaçada constante. A
vó, nervosíssima, repetia mazel tov, mazel tov, mazel
tov, a mãe não parava de exclamar que o recém-nascido era um amor —
e o pinto era um ser em desespero com nossa alegria. O pai, meio
abobado, pronunciou a pergunta do ano:
— O que a gente faz agora?
Nos entreolhamos: teríamos de deixar que a
natureza fizesse seus milagres, o pinto viveria sob os cuidados de
Hortênsia, assim raciocinou a mãe. Me veio a súbita idéia: e o nome do
pinto? O pai ia iniciar uma frase de protesto, mas se deteve,
contrariado. Eu declarei:
— Ele vai se chamar Fúlvio.
O pai me perguntou de onde eu tirava
aqueles nomes, como se bicho fosse gente. Respondi que não sabia. Então
ele fez uma consulta ao relógio e enxotou todo o mundo, hora de colégio.
Antes de sairmos, foi dar uma olhada na área de serviço. Perguntei como
andavam as coisas.
— Mãe e filho passam bem — respondeu,
dando de mão na pasta de trabalho.
A fala era minha:
— E essa agora.
Ele fez que não escutou.
Naquele dia e na semana que se
seguiu, a função da casa era Fúlvio. Àquela altura, ele já tinha mais
corpo, as penas feito suspiros amarelos: passava o dia ciscando
farelinhos. Vez que outra, eu consegui mantê-lo na palma das mãos,
cuidando com a alma aquele ser cujos ossos pareciam gravetos numa
montagem periclitante. Hortênsia mantinha-se alerta, mas não me bicava
mais. Tenho hoje certeza de ela se orgulhava em exibir seu pimpolho
penugento.
A notícia de que tínhamos uma galinha, que
a galinha tinha botado um ovo e que o ovo tinha virado um pinto logo se
espalhou pela vizinhança. Várias vezes a campainha soava: Fúlvio era o
destino de visitas guiadas — todo mundo devidamente advertido de que
podia olhar com os olhos, jamais com as mãos.
Até que lá uma tarde de domingo, logo
depois que os meninos saíram para o futebol, a campainha tocou. Como eu
estava com a minha Suzi fazendo companhia a Fúlvio e Hortênsia, corri a
abrir a porta da área de serviço.
Paula.
A anti-semita.
Mantive a porta entreaberta, protegi
a entrada de casa com meu próprio corpo. Perguntei ao inimigo o que
desejava.
Queria ver o pinto.
Eu disse que estávamos proibidos de falar
com ela. Ainda assim, insistiu:
— Minhas sinceras desculpas por ter
ofendido você. Posso ver o pinto?
Havia ali uma variante que eu não
dominava: o pedido de desculpas. Disse peraí, encostei a porta, corri
para a sala, atravessando a cozinha. O pai lia o jornal. Expus meu
drama:
— A Paula está lá fora, pediu desculpas
sinceras e quer ver o Fúlvio.
— Anti-semitas só são sinceros no ódio.
Essa menina não entra em nossa casa, caso encerrado — rosnou o pai.
— E o que eu digo?
— Diga que ela não é bem-vinda — ele se
deteve um instante para a mensagem de desaforo: — E diga também que o
pinto é judeu.
Foi aí que parei. Fiz as contas: só é
judeu o filho de mãe judia. Se o Fúlvio era judeu, então faltava um
pedaço da história. A pergunta foi imediata:
— Pai, a Hortênsia é judia?
Ele descolou os olhos do jornal, não sem
algo de impaciência. Decidiu salomonicamente:
— Nós adotamos a galinha. Ela e o pinto
estão sob a responsabilidade de uma família judia.
Eu raciocinei em voz alta:
— Se nós adotamos Hortênsia, então ela faz
parte da família. Como somos judeus, ela também é judia.
O pai desviou a atenção do jornal. Me
escutava visivelmente interessado, mesmo que o raciocínio fosse meio
caolho.
Concluí:
— Portanto, o filho dela também é judeu.
Ele arregalou os olhos. Deteve-se um
instante, pensativo. Pôs fim ao assunto:
—
Pois então, foi o que eu disse. E essa menina não põe os pés aqui. É uma
chicse, uma schleper e uma sonem.
No iídiche arrevesado de meu pai, as três
expressões eram o desprezo máximo: a menina era, pela ordem, uma
não-judia desprezível, uma vagabunda e uma inimiga. O caso chegara a seu
final. Ajeitei minhas tranças e revisei mentalmente os fatos do diálogo.
Ia já já dizer para Paula que as desculpas não seriam aceitas, que
anti-semitas não eram sinceros e que Fúlvio era judeu, bem assim,
daquele jeito. O pai nem baixou o jornal:
— É.
Foi
então que ouvimos o estardalhaço cocoricante de Hortênsia e o piar
aflitíssimo de Fúlvio.
Tive uma agulhada de lucidez — pensei na
minha Suzi —, e custei a crer na intuição, erro que me fez ficar imóvel
no meio da sala. O pai se pôs de pé num salto, a vó e a mãe saíram de
seus quartos correndo. Eu não conseguia me mexer.
Ouvi gritos — do pai, da mãe, da vó.
O sangue voltou a me correr nas veias.
Atravessei a cozinha voando. Na área de serviço, a cena era um pesadelo
em andamento.
Paula estava dentro de nossa casa.
Pior: estava na área de serviço.
Muito pior: tinha Fúlvio apertado na
concha das mãos.
Mais amarelo do que nunca, meu pintinho
piava em pânico, os dedos assassinos pressionando a compleição delicada
de bebê. Quis avançar, a vó me deteve pelo ombro e disse algum grosso
impropério, as veias do pescoço infladas. Hortênsia era o quadro do
desespero: batendo as asas, arremetia contra as pernas da menina, que,
aos chutes com a ponta do sapatinho de verniz, achava jeito de se
defender. Minha mãe colheu a galinha entre os braços, numa estratégia de
defesa. O pai, em reação enérgica, avançou e sacudiu Paula pelos ombros,
aos gritos de larga, larga, larga. Os cachinhos e fitas e babados
agitavam-se com os safanões. O rosto, entretanto, tinha a frieza de quem
nasceu com o instinto dos maus:
— Não largo o pinto coisa nenhuma. O
senhor está me machucando. Vou contar para meu pai.
— Pois conte para quem quiser. Se você não
largar esse pinto agora, daí sim que vai aprender o que é uma surra — e
dizendo isso, o pai ergueu a menina do chão.
Os sapatinhos de verniz ficaram balançando
no ar. Ela desatou num berreiro, coisa que lhe garantiu a liberdade.
O pinto, sumidinho entre os dedos da
infeliz, piava cada vez mais fraco, de cortar o coração. A vó falou algo
entredentes e me libertou. Antes que eu avançasse em direção à
desgranida, aconteceu:
vinda do nada, de lugar nenhum, a
vassoura de piaçava com que se varria o chão zuniu no ar e se estatelou
em plaft nas costas da menina. Paula gemeu e imediatamente curvou-se.
Fúlvio espremido na mão que se levantava para a defesa. Todos estacamos,
aparvalhados diante da cena: segurando a vassoura, a vó tinha os olhos
cintilantes de ódio, as veias do pescoço inundadas de fúria mosaica —
Paula tinha virado um cossaco. Num arranque de instinto, a vó ergueu o
cabo acima da própria cabeça, pronunciando uma enorme sentença em
iídiche, e, cuspindo aos pés da menina, voltou a golpeá-la com
vitalidade.
E outra vez golpeou, e outra, e Paula,
obedecendo àquele impulso com que os ruins já nascem, esquivava-se a
correr de um lado a outro com o pinto entre as mãos, provocando um
rebuliço nos jornais que forravam o piso. A vó, também obedecendo a
velhas tradições, ganhava uma energia nunca vista e perseguia a menina
brandindo a arma de pau e piaçava. O pai tentou contê-la, mas ela, num
urro, desceu uma tremenda vassourada no genro, violência que lhe atirou
os óculos longe. Protegendo-se com o antebraço, o pai pôs-se de quatro a
procurar a armação que caíra perto do ninho, justamente onde minha Suzi
ficara descansando.
E a vó, em sua lei de talião — a vassoura
era agora um sabre —, continuou em golpes e golpes, e a mãe recuou com
Hortênsia nos braços, e cada plaft que ouvíamos era uma insurreição, um
ato de rebeldia, uma vontade crua de vingança, o ódio cintilando no
miolo dos olhos azuis. A vó tinha, finalmente, mãos de punir, coração
sem nenhuma ternura, e dá-lhe a sarrafear a menina — que, imune à dor de
tanta ruindade, já tinha os cachos desgrenhados e os sapatos e carpins
sujos de cocô de galinha. E que, acuada contra a parede, os dedos
completamente fechados em torno do corpinho de nosso mimoso, pronunciou,
íntima do diabo:
— Não adianta bater em mim. O pinto está
morto.
A vó parou.
O pai parou.
O mundo parou.
A menina abriu os dedos, e o corpinho
molenga foi parar no monte de jornais amarfanhados. A bandida riu — um
riso que foi cortado por uma bofetada do pai. Paula começou um berreiro
e correu porta afora, gritando e gritando.
Quanto a nós, fizemos um círculo em torno do defunto nascido de clara e
gema, o silêncio de quando um anjo passa. O pai pronunciou nossa
profissão de fé, o Shemá Israel. A mãe, protegendo Hortênsia,
correu aos prantos para a cozinha. Que ela não visse o filho morto.
Em mim, voltava a desatar-se uma
hemorragia de raiva e dor. Peguei minha Suzi, apertando-a entre os
braços: chorava. O luto se instalara de novo em nossa casa. Aos soluços,
perguntei a meu pai por que aquilo tinha acontecido. Ele, cobrindo o
finado com o lenço de cambraia que levava sempre no bolso da calça, me
ensinou:
— Às vezes não existe por quê.
Daí me abraçou bem forte. Foi a primeira
vez na vida em que vi o pai chorar.
Hortênsia continuou a viver conosco
e, apesar de todo o conforto que lhe dávamos, o olhar era constantemente
aterrado, uma expressão de ser que tem o susto nas entranhas. Morreu
velhinha, velhinha, na mesma cesta de palha na qual chocou o único
filho. A carne de ave — qualquer ave — foi banida de nossa casa, por
respeito à doce memória.
Quanto a mim, casei-me com um músico
judeu de sobrenome Stern, como o violinista. Temos uma única filha,
Flávia. Hoje, minha pequena voltou do colégio com uma novidade: trazia
um pintinho, conseguido sabe-se lá onde, uma graça. Recebi os dois, na
resignação materna: um eu mandei para o banho, outro pus numa caixinha
forrada com jornal. Coisas passadas voltaram.
Na hora da janta, apesar da contrariedade
do meu marido, o pintinho foi colocado para nos fazer companhia. Contei
a Flávia que eu também tive um pintinho quando era criança e que ele
havia sido morto por uma menina muito má. Minha filha, apavorada, quis
saber:
— Por quê?
Olhei o pinto: parecia-se à gema que
havia sido, trêmulo de infância. Olhei meu marido, olhei minha filha:
eles esperavam a resposta que ia salvar a família e a humanidade.
— Sei lá — quis ganhar tempo.
E já
ia falar algo sobre pogroms, holocaustos e pescoços quebrados,
quando fui interrompida por um longo — tão longo — piar do pinto.
O adorado estava resplandecente em sua
sabedoria amarela.
Para Rosa Soirefman e Rosa
Moscovich, avós
Publicado originalmente no livro
Arquitetura do arco-íris, Editora Record, 2004
Nascida em 15 de março
de 1958 na cidade de Porto Alegre, CÍNTIA MOSCOVICH é
escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária, tendo exercido
atividades de professora, tradutora, consultora literária, revisora e
assessora de imprensa. Dentre vários prêmios literários conquistados,
destaca-se o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa,
instituído pelo Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France
Internationale, de Paris, ao qual concorreu com mais de mil e cem outros
escritores de língua portuguesa.
Em 1996, publicou sua primeira obra individual, O reino das cebolas,
co-edição da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e da Editora Mercado
Aberto, que mereceu a indicação ao Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do
Livro. Um dos contos que integram a coletânea foi traduzido para o
inglês e faz parte de uma antologia que reúne escritores judeus de
língua portuguesa. Em 1998, pela L&PM Editores lançou a novela Duas
iguais - Manual de amores e equívocos assemelhados, que recebeu o
Prêmio Açorianos de Literatura, na modalidade de Narrativa Longa, em
1999. Em outubro de 2000, também pela L&PM Editores, lançou o livro de
contos Anotações durante o incêndio, que tem apresentação de
Moacyr Scliar e reúne onze textos de temáticas diversas, com destaque ao
judaísmo e à condição feminina, merecendo outra vez o Prêmio Açorianos
de Literatura.
Colaboradora de jornais e revistas de todo o país, também participou de
antologias, como Geração 90: manuscritos de computador, que reúne
os melhores contistas surgidos na última década, seleção realizada por
Nelson de Oliveira, publicada em 2001 pela Boitempo Editorial. Em 2003,
integrou 13 dos melhores contos de amor da literatura brasileira,
da Ediouro, com organização de Rosa Amanda Sztraus e Ficções
Fraternas, organizado por Lívia Garcai-Roza e publicado pela Record.
Em Portugal, participou da coletânea Putas: novo conto português
e brasileiro, da editora Quasi. Publicou pela Editora Record o livro de
contos Arquitetura do arco-íris e a novela Duas iguais.
Ex-diretora do Instituto Estadual do Livro, órgão da Secretaria de
Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, atualmente é editora de livros
do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.
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