 |
 |
Cão
Sob o cáustico sol, as estacas manejadas por mãos truculentas com
precisão e habilidade eram fincadas no solo pedregoso. Cada movimento
era acompanhado pelo lacrimoso olhar do cão, que permanecia firme ao
lado de seu dono. Com a cerca, pretendia impedir que as galinhas
continuassem sendo atacadas e devoradas durante as madrugadas.
Acreditava-se em raposas, outros diziam ser um lobo que percorria as
pastagens sorrateiramente, sua mulher, acreditava que o próprio cão
atacava o galinheiro e se fazia se sonso.
Quando filhote, ninguém acreditava que sobreviveria, por causa das
feridas que cobriam sua carcaça magra e delicada, dos vermes que expelia
pelo quintal dia e noite e da dificuldade para caminhar. Sua
sobrevivência, tornou-se motivo de honra. Graças à insistência de seu
dono que levantava nas frias madrugadas para cuidar do animal, que
agonizava submetido ao tratamento radical, livrou-se da lepra, dos
vermes, da fraqueza nas pernas e tornou-se corpulento e saudável. Mas o
cheiro murriento que saía de seus poros, desse não se livrara. Por isso
os constantes banhos de alecrim.
A devoção de um para o outro arrefecia o ódio da mulher, grávida do
primeiro filho, que não compreendia tamanha amizade e permanecia em
casa, enquanto os dois iam para o bar todos os dias no fim da tarde e
pescavam juntos nos fins de semana.
A mulher, sedenta pela atenção do marido, forjava pequenas travessuras e
culpava o cão pelo estrago do lençol rasgado no varal, por arranhões no
sofá, e por dois gatos mortos no quintal. "Ou o cão ou eu", chegou a
dizer um dia. O marido riu e depois subiu na caminhonete, seguido pelo
cão e foram pescar.
Ela não confiava no animal. Percebia certa dissimulação em suas
atitudes. Toda aquela serventia nem um cão teria, pois até as
ferramentas conhecia uma a uma pelo nome. Só mesmo um bicho tinhoso
daquele, poderia ser tão habilidoso e esperto. Mas ele não a enganava.
Não a mulher, que em pouco tempo, teve suas obrigações reduzidas e agora
prestava pequenos serviços em seu próprio lar.
O cão recolhia as frutas que caíam do pé, carregava a lavagem dos
porcos, eliminou todos os ratos do quintal, conhecia em detalhes a
rotina de seu dono, latia às seis em ponto, apanhava as correspondências
com o carteiro, abria e fechava as portas e depois que passou a arrastar
com uma força invejável o saco de náilon com capim para o pasto das
vacas, percorrendo alguns quilômetros, tomou o lugar do jegue que fora
vendido em boa hora para preparar o enxoval do bebê.
"Antes uma prostituta, uma vagabunda." Remoia a mulher todos os dias.
"Nem uma cadela é."
O nascimento do primogênito, trouxe complicações de saúde para a mulher,
que se tornava a cada dia, peça de decoração da casa. "Quantas galinhas
ainda nos restam?" "Poucas", responde o marido. "É culpa do cão e
daquele cheiro de alecrim insuportável que me enoja. Quando terminar com
as galinhas, ele vai atacar os porcos, as vacas, você, eu...."
O marido ria-se das asneiras da mulher e antes de ir até a cidade
responde confiante: "Ele é um bom cão de guarda. Sem contar que me ajuda
em tudo. É meu amigo, meu parceiro. Nos protege". Cosendo a alça do
vestido, murmura para si mesma "Roubou até o lugar dos santos."
Subiu na caminhonete, mas o cão recusava-se acompanhá-lo. Estranhou a
reação e o excessivo cheiro de alecrim. Arrancou e deixou o cão envolto
em uma nuvem de poeira, que logo montou guarda na porta da casa. No
quarto, o bebê dormia tranqüilamente e a mulher carregando um cesto
abastecido de compotas de doces caseiro, foi à casa da vizinha.
Minutos depois, o cão corria e latia pelo quintal. Estava enlouquecido e
no galinheiro, assustava as galinhas que restavam. Esvoaçadas, elas
cacarejavam, trepando uma nas outras. No chiqueiro, fazia arruaça
derrubando os baldes com lavagem, acuando os porcos, que de longe
sentiam seu forte cheiro de alecrim.
Percorria o quintal, emitindo uivos e espreitando as moitas. De supetão,
adentrou a casa pela porta dos fundos. O choro abafado do bebê podia ser
ouvido à poucos metros até que ....... silêncio.
Os berros da mulher ricocheteavam nas árvores e ribombavam em seu peito.
O ronco do motor não permitia ao homem, que retornava, ouvir outra coisa
que a arranhada música no rádio. Atravessou a porteira, e a mulher de
cócoras, arrancava com as mãos as gramas do quintal, repetindo ‘foi o
cão, foi o cão, foi o cão."
O homem correu para a casa e diante da porta do quarto do bebê, o cão
permanecia como um guarda, entre objetos revirados e quebrados, com a
boca e as patas lambuzadas de sangue. Ao ver o dono, emite um uivo longo
e solene.
Na pequena oficina nos fundos da casa apanhou uma espingarda. Enquanto
carregava a arma, sua visão embaçada e seu coração disparado, esquentava
o sangue que percorria seu corpo quase eletrificado. Imediatamente,
retornou a casa. A mulher, ainda sobre a grama: "foi o cão, foi o cão."
Ajoelhou-se diante do quadro da Santa Ceia, pendurado com destaque na
humilde sala e rezou um Pai Nosso. Pediu perdão por confiar mais em um
cão do que na própria mulher, sua companheira. Pediu perdão pela
cegueira, por ter sido enganado por satanás na forma do animal. Fez o
sinal da cruz e se pôs de pé.
Apontou a espingarda diretamente para a testa do cão, que novamente
emitiu um solene uivo, de clemência e misericórdia, enquanto as lágrimas
escorriam pelo focinho, sulcando o pêlo. A sala impregnou-se com o
cheiro de alecrim, que fazia arder as narinas. Com o coração disparado,
o animal permaneceu firme, fitando seu dono, até que seus olhos
explodiram e suas partes lançadas pelos ares, grudaram sobre a Santa
Ceia.
A porta semi-aberta do quarto escancarou-se quando após o tiro, ouviu-se
um choro. Acendeu a luz e o bebê agitava as mãozinhas para o ar,
chorando gradativamente mais forte. Tocou a criança que não tinha um
arranhão sequer. O coração bateu ainda mais intensamente, quando
percebeu alguma coisa úmida sob seus pés. O sangue de uma grande raposa
morta pelo cão à golpes e dentadas, que ainda agonizava, maldita.
Inspirou antes de desabar sobre os restos esfacelados do cão, que
desintegrava-se rapidamente, exalando ainda mais forte o perfume de
alecrim, que nunca mais abandonou seu dono, onde quer que ele estivesse.
ANA PAULA MAIA, carioca, 26 anos, autora do romance O habitante
das falhas subterrâneas, editora 7 letras _ 2003 (coleção rocinante).
Participa da antologia 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura
brasileira, organizada por Luiz Ruffato, editora record _ 2004
|