 |
 |
A Biblioteca Universal
(para Cortázar)
e quem nos livrará dos sonhos com coisas impossíveis, eu me perguntava
no instante em que atravessava os pórticos imensos da Grande Biblioteca,
entrando naquele espaço positivista, grande, escuro e opressor por fora
como convém, mas surpreendentemente claro por dentro, composto de salas
pequenas repletas de prateleiras menores ainda, armações toscas de
madeira mal pintada de branco que mal batiam à altura da minha cintura
mediana de um brasileiro de um metro e setenta e dois centímetros, e uma
vez dentro estava dentro, não cabia a mim questionar qual o significado
do sonho, um bom bibliófilo não questiona essas coisas, apenas cuida de
escarafunchar estantes, é essa a sua função. Mas qual não foi minha
surpresa, após poucos minutos vasculhando as prateleiras, ao descobrir
um libro de bolsillo, uma edição argentina, emecé editores talvez, uma
tradução para o espanhol de um livro de Foucault analisando Corto
Maltese, livro bastante raro inclusive se considerarmos o fato de que
ele não existe, pelo menos no nosso mundo, que segundo alguns, é apenas
um de muitos. Não foi minha única surpresa, pois logo a seguir encontrei
um livro precioso, raro até mesmo no mundo dos sonhos (intuo isso porque
o livro estava caindo aos pedaços, e sua encadernação dava a entender
que fosse um exemplar impresso na década de trinta ou quarenta), e que
era uma compilação de ensaios sobre crítica literária escritos por
Graciliano Ramos. Se eu pudesse ao menos ter lido os livros em sonho,
mas acabei despertando durante uma das buscas pelas prateleiras brancas
e empoeiradas, enquanto me desviava de outras pessoas, talvez outros
sonhadores como eu, a gente nunca tem como saber dessas coisas, e foi
justamente então que acordei, incrivelmente consciente do sonho, mas
incapaz de ter trazido os livros comigo. Desde então os procuro, mas
nunca mais consegui voltar à Grande Biblioteca.
FÁBIO FERNANDES tem 38 anos, é carioca e mora em São Paulo.
Jornalista, tradutor e dramaturgo. Duas peças encenadas, uma delas
premiada (Vestidos Brancos, direção de Luiz Armando Queiroz, Prêmio Frei
João de Sant’Ângela de Dramaturgia - Universidade Federal de Alagoas).
Um livro de contos publicado (Interface com o Vampiro, editora Writers,
2000), e outro para sair (Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa).
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, prepara atualmente uma
nova tradução do clássico Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (ed.
Aleph). Está terminando de escrever seu primeiro romance.
|