anunciação de maria

Trilha Sonora: Abertura de O Guarani, de Carlos Gomes.

Hora: 9h (horário de verão).

Local: Porta da Loja A Casa Felina - Roupas íntimas sensuais – Asa Sul, Brasília – DF.

O marido, Murilo, disse que ela esperasse, pois ele iria pegar os trecos lá no porta-malas. Todos os dias fazia isso. Desde que a mulher começou a trabalhar na loja. Repetia sempre as mesmas palavras. Espera aí que eu vou pegar os trecos lá atrás. Em cinco anos, nunca falhou. Mesmo tendo apenas 40 centímetros de altura.

Sentada à porta d’A CASA FELINA, maria sabia que seu nome era um estigma latejando na testa. Murilo, o marido, a custo subia no porta-malas e enchia o carrinho de compras adaptado à sua estatura com as coisas necessárias para o dia: blocos de notas fiscais, carimbos, lápis, canetas e um pacote com as novas encomendas de lingerie. Pronto, maria...pára de sonhar...acorda e fecha o porta-malas.

maria pensava em quem atenderia ao anúncio que havia colocado no jornal. "Dama de companhia - maria, professora aposentada da Universidade de Brasília, com PHD, oferece-se como companhia refinada e inteligente para senhoras idosas, para visitas a museus, passeios, cinemas, conversas, etc. Fala inglês e francês."

maria (e quase só maria mesmo) sabia que não se tratava de um anúncio. Era um grito mudo em preto e branco. Um grande grito em caixa alta, preso nos classificados. O preço do anúncio estava pela hora da morte. Mesmo assim maria o fez. Disso ela entendia.

O marido, Murilo, movia-se com alguma rapidez, apesar do tamanho, apenas 40 centímetros de altura. A chave parecia muito desproporcional na sua pequenina mão. A tranca destravava-se sem dificuldade. Tinha realmente habilidade Murilo, o marido.

maria fez força e ergueu a pesada porta de ferro d’A CASA FELINA. Outro dia de comércio começava. A loja estava escura, cheirando a fechada. Murilo, o marido, acendeu as luzes pelo interruptor disposto em uma altura especial, pois ele tinha apenas 40 centímetros de altura.

Havia cinco anos que maria se aposentara precocemente da universidade. Durante esse período mergulhou em um profundo alheamento. Foi ajudar o marido na loja de lingerie. Recordava-se, às vezes, de seus alunos, das aulas. Chegava a passear no campus universitário. Mas eram raros os dias que podia ter apenas para si. A rotina do comércio consumia muito de seus dias.amigas intelectuais ou a haviam abandonado, ou estavam viajando, ou tratando da depress

Murilo, o marido, ligou o computador enquanto maria foi buscar a vassoura e os apetrechos de limpeza, olhando para as próprias unhas, muito roídas. Buscava ali, naqueles dedos destroçados algum fiapo de unha, ou de vida, que satisfizesse seu vício.

O marido, Murilo, não aprovou quando maria disse que prestaria serviços de companhia a senhoras e senhores solitários de alta classe. Mas, como tinha apenas 40 centímetros de altura, não pode contestar muito. Fez apenas o trivial comentário quando se tratava das escolhas de maria. Você só faz merda nessa vida, porra. Quando Murilo, o marido, irritava-se, como naquele momento em que maria lhe deu a notícia, vinha à sua pequena mente a imagem de uma fita métrica, cujos números rolavam como num caça-níqueis, realizando conversões: 40 centímetros; 15, 75 polegadas; 1,3123 pés.

maria leu no jornal velho que embeberia em álcool para lavar o vidro do mostruário de calcinhas: Carta de Pablo Neruda leiloada por 15 mil dólares. Dobrou o jornal de forma a conseguir ver a fotografia de Neruda, enquanto limpasse o mostruário do balcão e as vitrines externas. Limpando o vidro pelo lado de fora, olhou para a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima no alto da rua. Não tinha fé. As manequins estavam um pouco sujas e totalmente nuas. Era dia de trocar de coleção. maria achou as manequins semelhantes a santos em um altar, sobretudo os olhos. maria não tinha fé. Nem otimismo. Talvez um pouco de esperança. Neruda foi um grande poeta de amor. Que significado teria essa palavra para quem não tem fé?

O marido, Murilo, que tinha apenas 40 centímetros de altura, selecionou seis conjuntos novos de calcinha e sutiã para vestir as manequins. Faria um longo e reflexivo ritual, que se repetia a cada quinze dias. Vestiria calmamente as manequins, com o auxílio de bancos e escadas. Dirigir-se-ia para fora da loja. Avaliaria a combinação de cores, modelos e corpos. Decidiria pela combinação que ele julgasse melhor, mesmo consultando maria por seis vezes. maria, você não entende nada mesmo, né. Esse é o melhor.

Alguém que passasse por ali naquele exato momento poderia ter visto maria suspirar e Murilo, o marido, sorrir com o canto esquerdo da pequenina boca de alguém que tem apenas 40 centímetros. Os olhos arregalavam-se em um brilho desconcertante. Nesses momentos, quase sempre, ele parecia ser um homem de estatura normal.

Há anos, todavia, ninguém reparava em ninguém. Nada mais desconcertava.

Trilha Sonora: Noites cariocas, de Jacob do Bandolim.

Hora: 11h30 (horário de verão).

Local: Interior da Loja A Casa Felina - Roupas íntimas sensuais – Asa Sul, Brasília – DF.

Não. O marido, Murilo, não era anão. Tratava-se de um homem de estrutura física de proporções absolutamente normais. Apenas tinha 40 centímetros de estatura. Eram 11 centímetros a mais do que uma boneca Barbie padrão.

maria não gostava de dobrar calcinhas e organizar sutiãs. Naquele momento, ela sentia o celular pesando no bolso da calça larga, esperando a chamada de algum idoso ou idosa que lhe comprasse os serviços.

Murilo, o marido, tinha os pequeninos olhos sempre brilhantes diante das peças de lingerie que vendia, havia mais de 30 anos, com muito sucesso na capital Mudara o nome da loja três vezes durante esse período. Tornara-o cada vez mais picante, à medida que as peças ganhavam em ousadia. O marido, Murilo, era um inteligente e frio homem de negócios. Mesmo que tivesse apenas 40 centímetros de estatura.

maria lembrou-se de um poema de Neruda, vestindo, sob as ordens de Murilo, o marido, uma manequim dourada que ficava no interior da loja com um sutiã de renda vermelha. Chegou até a dizer o poema. Mas ninguém ouviu. Déjame sueltas las manos / y el corazón, déjame libre! / Deja que mis dedos corran / por los caminos de tu cuerpo. A carta valeu 15.000 dólares. Quanto valeria esse poema manuscrito? Quanto valeria o poema em minha mente?

Enquanto isso, o marido, Murilo, organizava o caixa. Alguém desavisado poderia achar ridícula a desproporção entre as notas, as moedas e o tamanho das mãos daquele que tratava tão carinhosamente delas. Poucas pessoas reparavam nisso. Ademais, Murilo, o marido, realizava a tarefa de contar o dinheiro com tanta desenvoltura! Não obstante possuir apenas 40 centímetros de altura. Quem bem reparasse veria o marido, Murilo, rindo. Quem bem reparasse, ouviria, também, maria falando num belo espanhol: ...La pasión —sangre, fuego, besos— / me incendia a llamaradas trémulas. / Ay, tú no sabes lo que es esto!

A CASA FELINA estava pronta para mais um dia de vendas. O telefone celular de maria não havia tocado. Ainda. Entretanto, isso não a incomodara demais. Ainda. Ela aprendera, na solidão acompanhada do casamento, a cultivar a paciência. Aprendera a esperar por... e incorporou a gramática das reticências ao conta-gotas de seus dias.

Trilha Sonora: Requiem em ré menor K 626, Lacrimosa, Wolfgang Amadeus Mozart.

Hora: 12h25 (horário de verão).

Local: Interior da Loja A Casa Felina - Roupas íntimas sensuais – Asa Sul, Brasília – DF.

Nenhuma cliente d’A CASA FELINA tinha pudores de despir-se e experimentar as mais sensuais lingeires na frente de Murilo, o marido. Como elas normalmente compravam as peças pensando em agradar o macho particular, adoravam poder desfrutar de uma opinião masculina que não ofereceria nenhum perigo a sua integridade físico-sexual. O marido, Murilo, tinha apenas 40 centímetros de altura. Portanto, era inofensivo. Além do mais era especialista no assunto. Falava com empolgação sobre modelos, fetiches, preços, fantasias, muito embora sua voz fosse um finíssimo fio ridículo de som, minando de uma pequenina boca convulsiva.

maria veio do interior de São Paulo para Brasília aos 20 anos. Fez vestibular para história na universidade de Brasília. Cursou com muita felicidade a graduação, enquanto dava aulas na rede pública de ensino. Sentia-se realizada. Fez mestrado, doutorado, pós-doutorado. Dedicava-se especialmente a culturas pré-coloniais latino-americanas. Publicou dois livros: Uma história do genocídio colonial e Leituras do catolicismo tropical. Pediu aposentadoria para não perder, com uma reforma do sistema previdenciário, certos privilégios garantidos por lei. Aos 57 anos olocou um anúncio no jornal. Ele sairia na quinta, no sábado e no domingo. maria seria dama de companhia.

Murilo, o marido, sempre fazia vendas boas no horário do almoço, entre 12h30 e 14h30. É verdade que eram vendas de pouco valor, mas eram sempre muitas. Experiente, sedutor, sabia fazer com que a cliente saísse com alguma coisa da loja. Entre uma venda e outra, fez uma pausa para beber água. Piscou para maria enquanto bebia vorazmente no pequeno copo adaptado ao seu tamanho de apenas 40 centímetros de altura.

Certa vez, uma empregada da loja roubou quase todo o estoque de lingerie. Estava amasiada com um soldado do exército que deu todo o apoio logístico ao furto. Ela tinha as chaves. Num domingo de madrugada, os dois entraram na loja. Fizeram amor, experimentando quase todos os modelos mais sensuais d’A CASA FELINA. Ao amanhecer, encheram o Corcel II bege do soldado de calcinhas e sutiãs e partiram rumo a Tocantins, ouvindo música sertaneja no volume mais alto do toca-fitas. Antes pararam na Igrejinha, para pedir a benção à Virgem.

Nessa mesma época, maria se aposentou. Teve, então, de atender aos doces apelos do marido. Começou a trabalhar com ele. Passou a ser vendedora, mas quase sempre era o marido, Murilo, quem corria para atender as clientes. Era raro maria vender. Na ausência de Murilo, o marido, as clientes preferiam esperar ou voltar mais tarde.

maria sempre esperava o marido, Murilo, chegar do banco para comprar a quentinha do almoço. Hoje era dia de macarrão e frango assado. maria gostava. Gostava mais ainda da coca-cola, que bebia saboreando devagar, fazendo lentos movimentos enxaguatórios. Murilo, o marido quase não comia. Seu almoço era regularmente um pouco de batata frita chips e três milimétricos goles de cachaça.

Trilha Sonora: Carmen, de Bizet. Los toreros, Introdução do ato I.

Hora: 15h30 (horário de verão).

Local: Interior da Loja A Casa Felina - Roupas íntimas sensuais – Asa Sul, Brasília – DF.

Que espécie de mulher poderia comprar 15 calcinhas de uma vez só? maria estava fazendo o embrulho para a cliente e pensou nisso. Pensou também que o celular ainda não havia tocado. maria achava que nem dispunha de 15 calcinhas em casa, mesmo sendo casada com o dono da loja de calcinhas.

Murilo, o marido, adquiriu a loja em 1974. Nesse mesmo ano, a loja foi adaptada para ele. Foram feitas pequenas escadas de correr em madeira. Também pequenos pisos de ferro foram colocados à frente das prateleiras, para que ele pudesse se mover com desenvoltura para pegar as mercadorias. O próprio marido, Murilo, desenhou as engenhocas e acompanhou todo o processo de construção e colocação delas na loja. Atualmente ele tem pensado em tornar eletrônico o processo de movimentação das escadas e dos pisos. Sonha também com o funcionamento de tudo por meio de controle remoto. Por isso tem poupado tanto dinheiro. Quem não conhecesse muito Murilo, o marido, admirar-se-ia da sua desenvoltura, dentro d’A CASA FELINA, mesmo com  apenas 40 centímetros de altura.

O coração de maria estava apertado. Houve uma época da vida em que foi feliz, no início do casamento com o marido, Murilo. Mas Murilo, o marido, privara-a de ser mãe. Seu poder seminal era irrisório diante do útero descomunal de mulher normal de maria. maria envelheceria sozinha, como os velhos que ela pretendia acompanhar.

O marido, Murilo, assinava e deixava à disposição das clientes todas as revistas masculinas em circulação. Sempre havia modelos a copiar. Diante das beldades que posavam em tais publicações, era muito difícil alguma cliente recusar a oferta de uma lingerie semelhante ou mesmo igual à da estrela pop que fazia caras e bocas oferecendo-se às afoitas mãos masculinas.

Aqueles que tivessem excelente atenção diriam que, manuseando as revistas, observando uma cliente a experimentar um modelo de última moda, contando dinheiro, Murilo, o marido, atingia quase o tamanho de um homem de estatura normal. maria teria visto isso uma ou duas vezes. Preferiu não acreditar. Não importava. Não ia mudar nada. Talvez até piorasse.

maria queria muito que uma dessas coisas lhe acontecesse: i) arranjar uma amiga de infância; ii) ser atropelada por um caminhão; iii) ter seu anúncio respondido naquele dia; iv) ver alguma catástrofe natural capaz de acabar com toda a lingerie do planeta.

maria foi dar um beijo no marido, Murilo. Ela iria até o banco, que ficava na entrequadra, do outro lado da rua, pagar umas contas e ver se já havia saído o pagamento da Universidade. Torceria muito para que, no caminho de uma quadra a outra, se realizasse um de seus quatro desejos.

Murilo, o marido, ficou ali a contar e recontar o dinheiro e a ajeitar os manequins da vitrine. Torceu muito para que outra cliente chegasse naquele meio tempo em que ele estaria sozinho.

maria saberia contar toda a história da América, de cor e salteado. De trás pra frente também. Pelo menos naquele dia ninguém respondeu ao seu anúncio. Era o primeiro dia. Certamente ligariam no fim de semana. Ninguém mais estava interessado em ouvir a história da América, principalmente se fosse contada por maria.

Trilha Sonora: Perhaps, Perhaps, Perhaps (Osvaldo Farres/ Joe Davis)

Hora: 18h30 (horário de verão).

Local: Interior da Loja A Casa Felina - Roupas íntimas sensuais – Asa Sul, Brasília – DF.

O marido, Murilo, fazia a última venda do dia, já com as portas semicerradas. Ele vendia muito, talvez por causa dos seus 40 centímetros de estatura (e não apesar deles).

A loja estava uma bagunça. maria não tinha forças para arrumar. Murilo, o marido, sugeriu docemente: vamos deixar para amanhã, bem. maria quase sorriu. Os olhos do marido, Murilo, brilharam quando ele colocou o dinheiro na pequenina bolsa adaptada ao seu tamanho.

Iam para casa jantar e descansar. Ninguém atendeu o anúncio. Ninguém ligou para maria. Seria publicado durante mais dois dias. Alguém ia ligar. Era preciso preparar a janta e ajeitar a cama, que ficara desarrumada. Poesia, história, lingerie, fé não valem nada às 19h de um dia de trabalho e desencanto.

Murilo, o marido, apagou com satisfação as luzes pelo interruptor adaptado à sua pouca altura. Antes de dar o comando para maria cerrar completamente a porta de ferro, ele olhou lentamente pela última vez para a loja que vomitava uma desordem de lingeries e fotos de mulheres semi-nuas.

Se alguém estivesse lá dentro (ou fosse possível lá colocar uma câmera escondida), ter-se-ia a impressão de que o marido, Murilo, crescera até o tamanho de um homem normal, repentinamente. Mas não havia ninguém ali: apenas calcinhas, sutiãs e manequins muito semelhantes a gente de verdade. Todavia (nunca era demais lembrar) não eram gente de verdade. maria baixou a porta e a cabeça. Ao chegar à casa faria sopa de abóbora. Sentiu uma puxada na coluna. Deitaria com os pés para cima e fecharia os olhos com toda a sua força, até ver estrelinhas.

Entraram no carro. Ligaram o som. Era a Hora do Brasil.

Murilo, o marido, sonhava, como todos os dias, com um mecanismo que adaptasse o carro a seu tamanho para que ele pudesse guiar sem depender de maria. Era o que lhe faltava, jamais seria feliz sem ter guiado um automóvel em sua vida. Depois de fazer a reforma n’A CASA FELINA esse seria seu objetivo. O mundo é adaptável ao homem, concluiu o marido, Murilo.

maria deu marcha ré. Nenhum dos seus sonhos se realizara. Pelo menos naquele dia. Mas ninguém reparou. Havia tempo que ninguém reparava em nada. O ruído do trânsito tomava conta da cena e tornava impossível ouvir qualquer canção. Ninguém ligou para maria. O carro fez o balão em frente à Igrejinha e sumiu nos fundos das tesourinhas. Ninguém ligou para maria. Havia mais duas chances: sábado e domingo. Murilo, o marido olhava fascinado e alheio as luzes das lojas. Maria, por enquanto, apenas esperava.

ALEXANDRE PILATI nasceu em Brasília em 03/02/1976. É escritor, professor universitário e blogueiro. Com o conto "anunciação de maria" venceu o concurso de contos Machado de Assis do SESC-DF em 2004. Ainda em 2004, pela editora brasiliense NTC, publicou sqs 120m2 com dce, livro de poemas que é o primeiro de uma trilogia sobre a Capital Federal.