Tamanhos rigores

Não há dúvida temos um passado

Talvez demais
Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro
Manuel Alegre


Conseguira. Poderia agora respirar sem sobressalto. A fronteira sumira no horizonte e o rio estava calmo. Tão calmo naquele trecho, assim tão detido e compassado, que o barco parecia flutuar, um palmo acima da linha d'água. Havia pouco recebera, dos companheiros destacados para acompanhá-lo, as notícias dos últimos três meses em que estivera fugindo. Na mais absoluta clandestinidade. Três meses de uma viagem alucinada, sem esperança de sucesso. E só então, naquele momento, as terríveis notícias. Seria uma outra prova, talvez ainda mais dura, talvez insuportável, estar vivo para sabê-las. Um comboio de crimes contra seu corpo. Mas ele conseguira. Esse misto de prêmio e de castigo era seu, custasse o que custasse. Três longos meses sob fome e frio, vagando a esmo, sendo caçado como um animal qualquer, desde que os inimigos tomaram sua cidade. Nela deixara seus pais e irmãos, abatidos no auge dos combates, segundo lhe disseram os companheiros de embarcação.
Por sorte conseguira fugir, com um pequeno grupo de amigos, levando consigo a esposa e a filha de cinco anos. Fazia já um bom tempo que sua cabeça estava a prêmio. Queriam-no vivo ou morto. Era imperativo alcançar a fronteira. Grávida de três meses, sua esposa caiu, entretanto, nas garras do inimigo, cerca de uma semana após a conquista da cidade. Foi assassinada naquela mesma noite. Sua filha adoeceu e teve de ser deixada, sob cuidados médicos, num dos acampamentos encontrados pelo caminho. A despeito dos esforços, não resistiu a uma pneumonia dupla, tendo sido sepultada num cemitério clandestino qualquer, encravado no meio inóspito do chapadão. Do pequeno grupo inicial, restara apenas ele. Seu melhor amigo não logrou atravessar um campo minado, quase às margens da fronteira ocidental. Os outros foram caindo pouco a pouco nas garras inimigas. Enfim, seu solitário mérito poderia vibrar como festa nos demais companheiros. A felicidade dos que o escoltavam reluzia a todo instante. Era-lhe difícil imaginar, após tamanhos rigores, o vinho e a boa comida.

O rio permanece calmo. Somente o seu coração não se acostuma. Desviando de leve os olhos do madeirame encardido, ele tira do bolso a foto que o acompanha desde o princípio da jornada. Lá estavam, à beira de um domingo sem nuvens, no velho papel amassado e úmido, seus pais e irmãos, sua esposa e sua filha, além do velho cão de guarda. Todos mortos. O barco adeja sem pressa. Rompe uma chuva miúda, de doer nos ossos. Duas aves cruzam o céu de chumbo. Ele está vivo, eis o que importa. Sonda com as mãos o próprio e castigado corpo. Ele está vivo, ele está vivo, segundo lhe disseram.

IACYR ANDERSON FREITAS
nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 22 de setembro de 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou quatorze livros de poesia, três de ensaio literário e um de contos, tendo recebido diversas premiações no Brasil e no exterior. Sua obra se encontra bastante divulgada em outras línguas e países (Colômbia, Espanha, Argentina, Estados Unidos, França, Chile, Malta, Itália e Portugal). Além de colaborar intensamente com a imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em Serta (Espanha), Saudade (Portugal), Private (Itália), Comun Presencia (Colômbia), Punto di vista (Itália), O comércio do Porto (Portugal), Los rollos del mal muerto (Argentina), International Poetry Review (USA), Ricerca research recherche (Itália), Fokus (Malta) e Rimbaud Revue (França), entre outros.

Poesia: Verso e palavra (Juiz de Fora: Ed. do Autor, 1982), Pedra-Minas (Juiz de Fora: D'Lira, 1984), Colagem de bordo & outros poemas (Juiz de Fora: D'Lira, 1986), Outurvo (Juiz de Fora: D'Lira, 1987), Pedra-Minas & Memorablia (Juiz de Fora: D'Lira, 1989), O aprendizado da figura (Juiz de Fora: D'Lira, 1989), Sísifo no espelho (Juiz de Fora: D'Lira, 1990), Primeiro livro de chuvas (Juiz de Fora: D'Lira, 1991), Messe (Juiz de Fora: D'Lira, 1995), Lázaro (Juiz de Fora: D'Lira, 1995), Mirante (Juiz de Fora: D'Lira, 1999), Oceano coligido (antologia poética. São Paulo: Viramundo, 2000), Messe (edição revista. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 2000), Dançar o nome (em co-autoria com Edimilson Pereira e Fernando Fiorese, contendo CD com leitura dos poemas. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2000), A soleira e o século. São Paulo: Nankin/ Funalfa Edições, 2002.

Livros de ensaio e de outros gêneros: Heidegger e a origem da obra de arte (Juiz de Fora: D'Lira, 1993), Quatro estudos (Juiz de Fora: D'Lira, 1998), O artista e a cidade (Juiz de Fora: Funalfa, 2000 - álbum comemorativo dos 150 anos de emancipação política de Juiz de Fora, com tiragem de cem exemplares, contendo texto autobiográfico do poeta e uma serigrafia de Dnar Rocha), As perdas luminosas: uma análise da poesia de Ruy Espinheira Filho (Salvador: EDUFBA e Fundação Casa de Jorge Amado, 2001).

Contos: Trinca dos traídos (São Paulo: Nankin/ Funalfa Edições, 2003).

Antologias e participações diversas: Antologia da nova poesia brasileira (Org. Olga Savary. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1992), Pérolas do Brasil / Pearls of Brazil / Brazilian Gyöngyei (Org. e trad. Lívia Paulini. Belo Horizonte: AFML, 1993), International Poetry Review: Brazil Issue (Greensboro, USA: University of North Carolina, spring 1997. Antologia org. e trad. por Steven White), A poesia mineira no século XX (Org. Assis Brasil. Rio de Janeiro: Imago, 1998), Anto (número 3, especialmente dedicado ao Brasil. Amarante, Portugal: Edições do Tâmega, 1998), Fui eu (Org. Eunice Arruda. São Paulo: Escrituras Editora, 1998), Reflexos da poesia contemporânea do Brasil, França, Itália e Portugal (Org. e trad. para o francês por Jean-Paul Mestas. Lisboa: Universitária Editora, 2000), Ricerca research recherche (Lecce, Itália): Dipartimento di Lingue e Letterature Straniere - Universitá degli Studi di Lecce, nº 4, 1998. Seis poemas do autor foram traduzidos, para esta revista, por Vera Lúcia de Oliveira), Baú de letras (Org. José Alberto Pinho Neves. Juiz de Fora: Funalfa, 2000), Quanta terra!!! — Poesia e prosa brasileira contemporânea (Org. Amadeu Baptista. Almada, Portugal: Casa da Cerca, 2001), Antología de la poesía brasileña (Org. e trad. Xosé Lois García. Santiago de Compostela, Espanha: Laiovento, 2001), Letras da cidade (Org. Leila Barbosa e Marisa Timponi. Juiz de Fora: Funalfa, 2002), Poesia em movimento (Org. Jorge Sanglard. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2002).

Principais prêmios literários recebidos: 1989 - Menção Especial no Prêmio Nacional Jorge de Lima, promovido pela União Brasileira de Escritores (RJ), por seu livro Sísifo no espelho; 1990 - 1º lugar no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte (Poesia), promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, por seu livro Messe; 1993 - 1º lugar no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte (Poesia), promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, por seu livro Lázaro; 1997 - Diploma do Mérito Cultural, conferido pela União Brasileira de Escritores (RJ), por seu conjunto de obra; 2000 - Prêmio Nacional Eduardo Frieiro (Ensaio), promovido pela Academia Mineira de Letras, por seu livro Quatro estudos; 2001 - 1º lugar no Prêmio Nacional Joaquim Norberto, promovido pela União Brasileira de Escritores (RJ), por seus livros Messe e Oceano coligido; 2002 - 1º lugar no Premio Internazionale Il Convivio (Poesia), promovido pela Accademia Internazionale Il Convivio (sediada na Itália), por seu livro Oceano coligido; 2001 - 1º lugar no Prêmio Nacional Centenário de Oscar Mendes (Ensaio), promovido pela Academia Mineira de Letras, por seu livro As perdas luminosas; 2003 - 1º lugar no Premio Internazionale Il Convivio (Poesia), promovido pela Accademia Internazionale Il Convivio (sediada na Itália), por seu livro A soleira e o século; 2003 - 1º lugar no Prêmio Nacional Centenário de Hely Menegale (Poesia), promovido pela Academia Mineira de Letras, por seu livro A soleira e o século.