Sonho de menina

Rogério percebeu, de chofre e sem nenhuma sombra de dúvida, que sempre amara Rose. Melhor: que sempre ardera de paixão por ela, pela mulher que - ele não percebera isto antes? - ocupava todos os espaços da sua mente e do seu desejo. Desde quando a vira, pela primeira vez, no ginásio, em Itapuã, sentira vagamente que estava perdido, definitivamente preso numa armadilha reforçada com grossas barras e cadeados de ferro. Mas, o pior de tudo era que ela simplesmente o ignorava, ou ele assim acreditava, tomando os simpáticos e frios acenos da moça como um insulto ao qual reagia com enfado e - como diziam os livros policiais de bolso que lia nas horas vagas - "um esgar desagradável". Deve-se, entretanto, dizer em favor de Rogério, que nem sempre fora assim: ao longo dos quatros anos chegara mesmo a desenvolver alguns tímidos acenos e agrados para a moça, que quase sempre estava às voltas com agrados de outros estudantes, "barulhentos e insuportáveis", "uma raça que merecia ser exterminada, isto sim".

Um dia chegou a dar-lhe uma flor, que ela disse ter colocado num jarro de cristal ao lado da sua cabeceira, mas que uma amiga venenosa afirmava que ela simplesmente a havia esquecido, amarfanhada, num quanto qualquer do pátio de recreio. Rogério sentiu raiva, mas não teve a coragem de, como nos romances de detetive, "colocar as coisas em pratos limpos".

Algumas vezes saíram juntos da escola, ao final das aulas, mas o diálogo não evoluía e, o que teria sido uma oportunidade, transformava-se "num miserável fracasso". E, disso Rogério tinha plena consciência, as coisas se complicavam cada dia mais e mais. A menina franzina, que devia, digamos, 85% dos seus encantos a um belo sorriso e a um jeito estranho e meigo de olhar, ganhava formas: os peitos cresciam, ainda verdes, mas exuberantes sob a blusa cáqui, de tecido leve e decotado; as coxas engrossavam ao mesmo tempo em que a saia tomava proporções mais discretas; as ancas alargavam-se dando-lhe aquela vaga mas potente similitude (perdoem-nos as feministas, mas temos o dever de revelar tudo o que passava na cabeça do nosso desditoso herói) com uma égua.

De vez em quando, nas rodas dos amigos (se é que podia-se referir-se assim àqueles energúmenos), alguém saía com alguma piadinha sobre a "gostosona" e, não raro, comentava-se a boca miúda que alguém a havia colocado no colo (coisa de piranha desqualificada) e pegado nos peitos dela (idem). Ninguém, entretanto, ousara afirmar que a havia comido, ou mesmo, como era muito comum na época, "botado nas coxas". Para Rogério, as coisas, embora penosas, estavam no limite do suportável - de modo que nunca chegou a fazer o papelão de defender a pureza imaculada da moça. Antes, sentia-se excitado com as narrativas - embora achasse também isto ignóbil e iníquo (estava na fase de falar palavras difíceis), era sempre ele quem, no lugar dos outros, estava com os tenros e macios e firmes cacaus de oiro da moça nas mãos, enquanto a aconchegava nos braços e no colo, e ali, sim, ia aos fins últimos do amor, nos lugares mais inesperados - a praia, o quartinho da empregada, no vão da escada, sempre onde, a qualquer momento, poderia aparecer alguém que o fosse incriminar e, inapelavelmente, julgar. E, claro, condenar.

Rogério vivia todos os dias da sua radiosa juventude, a um passo do desastre. Da vergonha e da desmoralização. O que diriam seus professores? E os seus pais? E os pais da moça? E as pessoas na rua? E os desconhecidos que o olhavam, do alto de suas janelas, enquanto ele passava, todos os dias, da escola para casa, de casa para a escola, com sua pastinha azul e os cadernos cujas capas tinham fotos de meninos loiros e paisagens de mar e montanhas. Oh, como era duro amar naquela época! Como desejara ser um poderoso tornado que a capturasse num voluteio e a levasse, de chofre, para o alto da montanha mais alta do mundo, onde, em duas palavras, lhe declararia todo o seu amor. Mas aquele jeito que ela tinha de olhar, aquele sorriso levemente esboçado na face branca, aquela atenção suave que lhe concedia, por breves segundos, para logo ocupar-se de outros afazeres, o desanimavam. O tornado tornava-se apenas uma aragem que tocava de leve os cabelos da moça, agitando de leve, de forma quase imperceptível, alguns fios dos seus cabelos loiros, que ele via agora com detalhes insuportáveis, à noite, na cama, mergulhado em devaneios cada dia mais vãos.

Rogério não era nada mais, então, que um sonho. Uma fantasia da menina de pele branca, que amava um outro Rogério, indiferente, ao qual lançava um olhar comprido, além dos muros da sua timidez.


CARLOS RIBEIRO
- Nascido em Salvador - Bahia, em 1958. Jornalista, ficcionista e Mestre em Literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor dos livros Já vai Longe o Tempo das Baleias (contos, 1982), O Homem e o Labirinto (contos, 1995), O Chamado da Noite (romance, 1997), O Visitante Noturno (contos, 2000), Caçador de Ventos e Melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (ensaio, 2001) e Abismo. (Romance, 2004). Participa das antologias Oitenta (1996) e Geração 90: Manuscritos de computador (2001). Tem trabalhos publicados em suplementos culturais e revistas literárias de Salvador, a exemplo de A Tarde Cultural, Revista da Academia de Letras da Bahia, Revista da Bahia, Exú e Qvinto Império. Em 1988 foi vencedor do concurso de contos promovido pela Academia de Letras da Bahia e, desde 1998, co-edita a revista de arte, crítica e literatura iararana.