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O profeta
Todas as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso
já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a
âncora. Olhou de novo os guindastes meneando fardos, os montes de
minérios. Lá embaixo correrias e línguas estranhas. Pescoços estirados
em gritos para os que o rodeavam no parapeito do convés. Lenços. De
longe o buzinar de automóveis a denunciar a vida que continuava na
cidade que estava agora abandonando. Pouco lhe importavam os olhares
zombeteiros de alguns. Em outra ocasião sentir-se-ia magoado.
Compreendera que a barba branca e o capotão além do joelho compunham uma
figura estranha para eles. Acostumara-se. Agora mesmo ririam da magra
figura toda negra, exceto o rosto, a barba e as mãos mais brancas ainda.
Ninguém ousava, entretanto, o desafio com os olhos que impunham respeito
e confiavam um certo ar majestoso ao conjunto. Relutou com os punhos
trançados nas têmporas à fuga de seu interior da serenidade que até ali
o trouxera. Ao apito surdo teve consciência plena da solidão em que
mergulhava. O retorno, única saída que encontrara, afigurava-se-lhe
vazio e inconseqüente. Pensou, no momento de hesitação, ter agido como
criança. A idéia que se fora agigantando nos últimos tempos e que
culminara com a sua presença no convés, tinha receio de vê-la esboroada
no instante de dúvida. O medo da solidão aterrava-o mais pela
experiência adquirida no contato diário com a morte. Em tempo ainda.
- Desçam o passadiço, por favor, desçam!...
A figura gorda da mulher a seu lado girou ao ouvir, ou ao julgar ouvir,
as palavras do velho.
- O senhor falou comigo?
Inútil. A barreira da língua, sabia-o, não lhe permitiria mais nada. O
rosto da mulher desfigurou-se com a negativa e os olhos de súplica do
velho. Com exceções, o recurso mesmo seria a mímica e isso lhe
acentua-ria a infantilidade que o dominava. Só então percebeu que
murmurara a frase, e envergonhado fechou os olhos.
- Minha mulher, meus filhos, meu genro.
Aturdido mirava o grupo que ia abraçando e beijando, grupo estranho
(mesmo o irmão e os primos, não fossem as fotografias remetidas antes
ser-lhe-iam estranhos, também), e as lágrimas que então rolaram não eram
de ternura, mas gratidão. Os mais velhos conhecera-os quando crianças. O
próprio irmão havia trinta anos era pouco mais que um adolescente. Aqui
se casara, tivera filhos e filhas, e casara a filha também. Nem
recolhido às molas macias do carro que o genro guiava cessaram de correr
as lágrimas. Às perguntas em assalto respondia com gestos,
meias-palavras, ou então com o silêncio. O corpo magro, mas rijo, que
apesar da idade produzira trabalho, e garantira sua vida, oscilava com
as hesitações do tráfego, e a vista nenhuma vez procurou a paisagem.
Mais parecia concentrar-se como que respondendo à avalanche de ternura.
O que lhe ia por dentro seria impossível transmitir no contato
superficial que iniciava agora. Deduziu que seus silêncios eram
constrangedores. Os silêncios que se sucediam ao questionário sobre si
mesmo, sobre o que de mais terrível experimentara. Esquecer o
acontecido, nunca. Mas como ames-quinhá-lo, tirar-lhe a essência do
horror ante uma mesa bem posta, ou um chá tomado entre finas almofadas e
macias poltronas? Os olhos ávidos e inquiridores que o rodeavam não
teriam- ouvido e visto o bastante para também se horrorizarem e com ele
participar dos silêncios? Um mundo só. Supunha encontrar aquém-mar o
conforto dos que como ele haviam sofrido, mas que o acaso pusera,
marginalmente, a salvo do pior. E consciente disso partilhariam com ele
em humildade o encontro. Vislumbrou, porém, um ligeiro engano.
O apartamento ocupado pelo irmão ficava no último andar do prédio.- A
varanda aberta para o mar recebia à noite o choque das ondas com mais
furor que de dia. Ali gostava de sentar-se (voltando da sinagoga após a
prece noturna) com o sobrinho-neto no colo a balbuciarem ambos coisas
não sabidas. Os dedos da criança embaraçavam-se na barba e às vezes
tenteavam com força uma ou outra mecha. Esfregava então seu nariz duro
ao arredondado e cartilaginoso e riam ambos um riso solto e sem
intenções. Entretinham-se até a hora em que o irmão voltava e iam
jantar.
Nas primeiras semanas houve alvoroço e muitas casas a percorrer, muitas
mesas em que comer, e em todas revoltava-o o aspecto de coisa curiosa
que assumia. Com o tempo, arrefecidos os entusiasmos e a curiosidade,
ficara só com o irmão. Falar mesmo só com este ou a mulher. Os outros
quase não o entendiam, nem os sobrinhos, muito menos o genro, por quem
principiava a nutrir antipatia.
- Aí vem o "Profeta"!
Mal abrira a porta, a frase e o riso debochado do genro
surpreenderam-no. Fez como se não tivesse notado o constrangimento dos
outros. Atrasara-se no caminho da sinagoga e eles já o esperavam à mesa.
De relance, percebeu o olhar de censura do irmão e o riso cortado de um
dos pequenos. Só Paulo (assim batizaram o neto, que em realidade se
chamava Pinkos) agitou as mãos num blá-blá como a reclamar a brincadeira
perdida. Mudo, depositou o chapéu no cabide, ficando só com a boina
preta de seda. Da língua nada havia ainda aprendido. Mas, observador, se
bem que não arriscasse, conseguiu por associação gravar alguma coisa. E
o "profeta" que o riso moleque lhe pespegara à entrada, ia-se tornando
familiar. Seu significado não o atingia. Pouco importava, no entanto. A
palavra nunca andava sem um olhar irônico, uma ruga de riso. No
banhei-ro (lavava as mãos) recordou as inúmeras vezes em que os mesmos
sons foram pronunciados à sua frente. E ligou cenas. Do fundo boiou a
lembrança de coisa análoga no templo.
O engano esboçado no primeiro dia acentuava-se. A sensação de que o
mundo deles era bem outro, de que não participaram em nada do que fora
(para ele) a noite horrível, ia se transformando lentamente em objeto
consciente. Eram-lhe enfadonhos os jantares reunidos nos quais ficava à
margem. Quando as crianças dormiam e outros casais vinham conversar,
apa-lermava-se com o tom da palestra, as piadas concupiscentes, as
cifras sempre jogadas, a propósito de tudo, e, às vezes, sem nenhum. A
guerra o des-pojara de todas as ilusões anteriores e afirmara-lhe a
precariedade do que antes era sólido. Só ficara intacta sua fé em Deus e
na religião, tão arrai-gada, que mesmo nos transes mais amargos não
conseguira expulsar. (Já o tentara, reconhecia, em vão.) Nem bem se
passara um ano e tinha à sua frente numa monótona repetição o que
julgava terminado. A situação parasitária do genro despertou-lhe ódio, e
a muito custo, dominou-o. Vira outras mãos em outros acenos. E as unhas
tratadas e os anéis, e o corpo ro-liço e o riso estúpido e a inutilidade
concentravam a revolta que era ge-ral. Quantas vezes (meia-noite ia
longe) deixava-se esquecer na varanda com o cigarro aceso a ouvir numa
fala bilíngüe risadas canalhas (para ele) entre um cartear e outro.
- Então é isso?
Os outros julgariam caduquice. Ele bem sabia que não. O monólogo
fora-lhe útil quando pensava endoidar. Hoje era hábito. Quando só,
descarregava a tensão com uma que outra frase sem nexo senão para ele.
Recordava-se que um dia (no início, logo) esboçara em meio a alguma
conversa um tênue protesto, dera um sinal fraco de revolta, e talvez seu
indicador cortasse o ar em acenos carregados de intenções. O mesmo na
sinagoga quando a displicência da maioria tumultuara uma prece.
- Esses gordos senhores da vida e da fartura nada têm a fazer aqui -
murmurara algum dia para si mesmo.
Talvez daí o profeta. (Descobrira, depois, o significado.)
Pensou em alterar um pouco aquela ordem e principiou a narrar o que
havia negado antes. Mas agora não parecia interessar-lhes. Por
condescendência (não compreendiam o que de sacrifício isso representava
para ele) ouviram-no das primeiras vezes e não faltaram lágrimas nos
olhos das mulheres. Depois, notou-lhes aborrecimento, enfaro, pensou
descobrir censuras em alguns olhares e adivinhou frases como estas: "Que
quer com tudo isso? Por que nos atormenta com coisas que não nos dizem
respeito?" Havia rugas de remorso quando recordavam alguém que lhes
dizia respeito, sim. Mas eram rápidas. Sumiam como um vinco em boneco de
borracha. Não tardou que as manifestações se tornassem abertas, se bem
que mascaradas.
- O senhor sofre com isso. Por que insiste tanto?
Calou. E mais que isso, emudeceu. Poucas vezes lhe ouviram a palavra,- e
não repararam que se ia colocando numa situação marginal. Só Pinkos (ele
assim o chamava) continuava a trançar sua barba, esfregar o nariz, e
contar histórias intermináveis com seus olhos redondos. Inutilidade.
O mar trazia lembranças tristes e lançava incógnitas. Solidão sobre
solidão. Interrogava-se, às vezes, sobre sua capacidade de resistir a um
meio que não era mais o seu. Chiados de ondas. Um dedo pequeno
mergulhado em sua boca e um riso ao choque. Riso sacudido. Poderia
condenar? Não, se fosse gozo após a tormenta. Não, não poderia nem
condenar a si mesmo se por qualquer motivo aderisse, apesar da idade.
Mas os outros? Cegos e surdos na insensibilidade e auto-suficência!
Erguia-se então. Caminhava pelos cômodos, perscrutando no conforto um
contraste que sabia- de antemão não existir. Aliciava argumentos contra
si mesmo, inu-tilmente. E do fundo um gosto amargo, decepcionante. Os
dias se acumulavam na rotina e lhe era penosa a estada aos sábados na
sinagoga. O livro de orações aberto (desnecessário, de cor murmurava
todas as preces), fechava os olhos às intrigas e se punha de lado,
sempre de lado. No caminho admirava as cores vistosas das vitrinas, os
arranha-céus se perdendo na volta- do pescoço, e o incessante arrastar
de automóveis. E nisso tudo pesava-lhe a solidão, o estado de espírito
que não encontrara afinidade.
Soube ser recente a fortuna do irmão. Numa pausa contara-lhe os anos de
luta e subúrbio, e triunfante, em gestos largos, concluía pela segurança
atual. Mais que as outras sensações essa ecoou fundo. Concluiu ser
impossível a afinidade, pois as experiências eram opostas. A sua,
amarga. A outra, vitoriosa. E no mesmo intervalo de tempo!? Deus, meu
Deus! As noites de insônia sucederam-se. Tentou concluir que um
sentimento de inveja carregava-lhe o ódio. Impossível. Honesto consigo
mesmo entreviu sem forças essa conclusão. E suportou o oposto, mais
difícil. As formas na penumbra do quarto (dormia com o neto) compunham
cenas que não esperava rever. Madrugadas horríveis e ossadas. Rostos de
angústia e preces evolando das cinzas humanas. As feições da mulher
apertando o xale no último instante. Onde os olhos, onde os olhos que
mudos traíram o grito animal? Risada canalha. Carteado. Cifras. Olha o
"profeta" aí! E caras de gozo gargalhando do capote suspenso na cadeira.
Impossível.
Gritos amontoados deram-lhe a notícia da saída. Olhou o cais. Lentamente
a faixa dágua aumentava aos acenos finais. Retesou todas as fibras do
corpo. Quando voltassem da estação de águas encontrariam a carta sobre a
mesa. E seriam inúteis os protestos, porque tardios. Aproveitara as duas
semanas de ausência. O passaporte de turista (depois pensavam em
torná-lo permanente) facilitara-lhe o plano. O dinheiro que possuía
esgotou-se à compra da passagem. Regresso. A empregada estranhou um
pouco ao vê-lo sair com a mala. Mas juntou o fato à figura excêntrica
que no início lhe infundira um pouco de medo. Planos? Não os tinha. Ia
apenas em busca da companhia de semelhantes, semelhantes, sim. Talvez do
fim. As energias que o gesto exigiu esgotaram-no, e a fraqueza trouxera
hesitações. E ante o irremediável os olhos frustrados dilataram-se na
ânsia de travar o pranto. Miúdas, já, as figuras acenando. O fundo
montanhoso, azulando num céu de meio-dia. Blocos verdes de ilhotas e
espumas nos sulcos dos lanchões. (Há sempre gaivotas. Mas não conseguiu
vê-las.) Novamente os punhos cerrando e trançando, as têmporas apoiadas
nos braços, e a figura negra, em forma de gancho, trepidando em
lágrimas.
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