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A casa da menina senhora
A casa está lá, como eu imaginei tantas vezes depois de passar os olhos
em alguns cartões postais: caiada, branca, muitas janelas, um porão
escavado, vários cômodos, um pomar, uma porta de entrada, outras de
saída. Ao lado, tranqüilamente corre o Rio Vermelho. Um casarão velho?
Sim, mais parecido com uma nau adormecida no colo das águas. E a
moradora? Partiu há algum tempo, no dia 10 de abril de 1985. Sua
presença, entretanto, ainda permanece nos objetos espalhados pelos
vários cantos.
Falo da poeta Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas e de sua casa velha
da Ponte, no cerrado goiano. Nesta mesma casa fiquei sabendo,
conversando com alguns moradores, que a poeta recebeu o nome de Ana em
homenagem à santa padroeira da cidade. O ano era 1889. O Brasil? Um país
em travessia: a mão-de-obra escrava negra era substituída pelo trabalho
livre e a Monarquia dava lugar à República.
Mesmo com as mudanças da época às mulheres restava, quase sempre,
aceitar o destino traçado pela família e mais tarde pelo futuro marido,
normalmente escolhido pelo pai da moça. Mas Ana queria mais.
Personalidade inquieta, apresentou os primeiros sinais de rebeldia aos
15 anos quando decidiu, para preservar seus escritos da censura
familiar, adotar o pseudônimo de Cora. Um segundo momento marcante de
rebeldia aconteceu aos 20 anos, quando movida pela paixão e o desejo de
liberdade fugiu com Cantídio, homem 22 anos mais velho, separado e com
filhos. Daí para frente não parou mais: alistou-se como enfermeira na
Revolução de 32, escreveu um manifesto para a formação de um partido
feminino e aos 70 anos publicou seu primeiro livro de poemas.
Se a casa velha da Ponte, apesar da beleza arquitetônica, não despertou
em mim grandes surpresas, porque pouca diferença tinha daquela imagem
que eu trazia dos postais, a história de Cora Coralina, narrada pelos
seus conterrâneos, me surpreendeu bastante e acordou em mim fortes
lembranças de meus antepassados.
Durante a minha infância ouvi muitas vezes minha tia Teresinha, por quem
eu tenho um grande afeto, contar nos finais das tardes, entre um gole de
café e um pedaço de bolo de cenoura coberto com chocolate, a história de
Maria do Carmo, irmã caçula da minha avó Aurora, de rosto quase idêntico
ao da poeta de Estórias da Casa Velha da Ponte, que em meados do século
passado, também como Cora Coralina, no auge dos seus 20 anos, não temeu
quebrar as amarras e escolher o próprio destino.
Contou-me tia Teresinha — que afirma que apesar dos cinco anos de idade
recorda-se de todos os detalhes daquele dia — que Maria do Carmo a
levou, como fazia religiosamente, para tomar sol e brincar com outras
crianças na praça da cidade. Maria do Carmo tinha um grande carinho pela
sobrinha, afinal a menina era a única criança da casa, com todos os
mimos merecidos.
Naquela manhã, como de costume, a menina Teresinha soltou-se rapidamente
da mão da tia e correu ao encontro das crianças que brincavam na praça.
Nada parecia ter o poder de romper com aquela rotina de infinitas
brincadeiras ao sol. Mas de repente o barulho do motor de um carro —
coisa rara naqueles tempos — abafou a algazarra infantil e modificou
aquela manhã ensolarada. Como na imagem congelada de um filme parece que
todos os personagens perderam o movimento na cena, exceto Maria do Carmo
que rapidamente correu em direção ao Jeep e desapareceu. Sentada e aos
berros no meio da praça, Teresinha denunciava a fuga e minutos depois a
vizinhança da pequena cidade comentava a ousadia da jovem Maria do
Carmo, moça inteligente, prendada, de boa família, que por conta de uma
paixão clandestina havia contrariado as ordens familiares.
O tio de Maria do Carmo, homem conceituado na cidade, logo sugeriu
denunciar o rapto ao delegado de polícia, mas foi aconselhado a
abandonar a idéia para evitar um escândalo maior. Nessas situações,
diziam os conselheiros de plantão, era melhor ceder ao capricho da
paixão dos jovens e rapidamente providenciar o casório.
Nascida em uma família católica tradicional, Maria do Carmo, alguns
meses depois do casamento, engravidou. Desta primeira gravidez nasceu
Vitória Amélia. Em seguida, uma nova gravidez e mais uma menina com o
nome de Carmem Célia. Em um período curto, uma terceira gravidez. E aí
um menino: Celso.
Maria do Carmo contrariou com afinco as ordens familiares e casou-se com
o homem que amava, mas seu corpo não resistiu a imposição machista que
condenava às mulheres a gerar um filho após outro. E digna de uma
personagem de folhetim na quarta gravidez a sua história chega ao fim.
Não conheci Cora Coralina nem Maria do Carmo — elas também não se
conheceram — mas a semelhança de alguns fatos da vida dessas duas
mulheres colocam imensas asas em mim e num vôo transgressor procuro
encontrar o sentido da minha própria história.
ROSANGELA BORGES, nasceu em 3 de agosto de 1966, em São Caetano do
Sul, São Paulo. É mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP,
jornalista, professora universitária na FAAP- Fundação Armando Álvares
Penteado, UniSal – Centro Universitário Salesiano, ITESP – Instituto de
Teologia de São Paulo. É autora dos livros "Axé, Madona Achiropita! –
Presença da Cultura Afro-Brasileira nas Celebrações da Igreja Nossa
Senhora Achiropita, em São Paulo" (Edições Pulsar, 2001), dissertação de
mestrado; "Quem quer teclar comigo? – Adolescendo na Internet"
(Paulinas, 2001), publicação infanto-juvenil e o livro de poesias "O
Guardião dos Ventos – Poemas" (RG Editores, 2002).
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