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O noviço
Conto publicado no Almanaque da
Gazeta de Notícias, 1895.
METIA pena deveras o pobre noviço, muito criança, imberbe ainda, rosto
liso e sedoso como o de uma mulher nova, olhar frio e indiferente,
arrastando sua triste batina de jesuíta naquele úmido esconderijo, de
fera, que a luz ourejava com medo...
Oscar de Miranda tinha dezoito anos quando entrara para o convento de
São Francisco das Chagas, medonho casarão perto do mar, com uma cruz no
alto, cheio de mistério e de silêncio.
Um grande e impenetrável segredo envolvia-lhe a mocidade, trancando-o às
alegrias do mundo e às sensações da carne.
Sua mãe, pobre viúva, que morava num casebre da rua das Trindades, ao pé
de uma igreja, levava melancolicamente uma existência de miséria e
desgosto, suspirando pela morte, gemendo sua velhice inconsolável.
Coitada, muita vez largava-se a pedir esmolas para não padecer fome,
porque a triste queixava-se de umas dores na espinha, que a não deixavam
trabalhar muito nas suas costuras e nos seus bilros. O filho, o ingrato
Oscar, fugira-lhe de casa uma noite (que noite aquela!) e nunca mais
voltara.
- Filho sem coração! Maldizia nas horas de desespero. Deixar-me sozinha
com o meu sofrimento, nesta miséria, neste desamparo...
E chorava, a pobre velha chorava amargamente o seu abandono, a sua dupla
viuvez.
De Oscar sabia-se apenas, e muito mal, que entrara num colégio de
jesuítas sem dizer nada à mãe, sem comunicar a pessoa alguma.
Atribuíam-se-lhe umas poesias cheias de santidade que andavam nos
jornais daquele tempo, e onde cada verso palpitava como um coração
apaixonado e cada estrofe tinha um sabor amargo de lágrimas... O pai
morrera doido num hospício de província; metera-se-lhe na cabeça que
tinha visto Jesus Cristo em pessoa e que o mundo havia de se acabar numa
sexta-feira da Paixão. Quando chegava a Semana Santa o acesso era certo:
confessava-se, não saía à rua, esperando o grande cataclismo. Ainda na
hora da morte lembrou à irmã de caridade que o fim do mundo estava
próximo.
Os jesuítas queriam muito ao noviço, ao "pobre menino" porque ele,
Oscar, sabia cumprir com os seus deveres religiosamente e passava a
maior parte do tempo ajoelhado no altar-mor, defronte do Redentor da
humanidade, batendo beiços, a rezar, a rezar, como quem nada espera da
vida...
A comunidade havia-lhe concedido, a muito custo, uma triste cela nos
fundos do convento, junto à estrebaria - um pequeno quarto úmido e
triste, sem janelas, ninho de ratos e de morcegos.
O menino estava muito bem ali, dissera frei Tiago, o superior. O
convento é o purgatório da vida. Era preciso esquecer o mundo
completamente, absolutamente, viver só para Deus. Mais tarde, quando o
menino ficasse homem, então, sim, dava-se-lhe um cômodozinho mais claro,
mais largo e arejado... Ele, frei Tiago, também sofrera muito no
princípio, logo ao entrar para a ordem, como não? No começo a gente
padece, depois tudo corre melhorzinho...
E o noviço passava noites e noites acordado, à luz bruxuleante de uma
lamparina de azeite, manuseando impressos religiosos, velhos "Fios
Sanctorum", crônicas seculares, a vida de Jesus.., ora a olhar o teto, -
o pensamento perdido no ar, imóvel, calado, numa adinamia de todos os
sentidos. Muitas vezes os guardiães da ronda iam surpreendê-lo no seu
recolhimento, alta noite, quando só se ouvia o badalar sonolento da
sineta, de hora em hora, e a respiração larga e sibilante dos rotundos
missionários.
Por fim Oscar foi perdendo a cor primitiva e sadia do rosto, o brilho
triunfante dos olhos, a maciez sedosa da pele, a sensibilidade de certos
órgãos e tornou-se uma criatura à parte na humanidade, um ente nulo, sem
vontade e sem energia viril, como os loucos, cada vez mais langue, muito
pálido, um laivo roxo nas olheiras, galvanizado na sua invariável
sotaina preta, onde já havia manchas de cera e traços de miséria. Se a
mãe o visse, com certeza não reconhecia naquela abjeção de homem o seu
filho querido...
No escuro e cavernoso pátio do convento brilhava as vezes a luz tímida
de uma vela - era Oscar, o noviço, que ia dar de comer aos animais, - um
cavalo velho e uma jumenta, que tinham pertencido a outras gerações de
frades. Obrigaram-no a isso e a muitas outras coisas tristes...
- É preciso sofrer, é preciso sofrer com paciência, repetia frei Tiago.
Cristo morreu por nós. Bem-aventurados os que padecem na terra: deles é
o reino do céu...
Havia, porém, outros frades de gênio alegre, espíritos folgazões, que se
divertiam à custa do noviço.
- Anda, vai dar de comer aos bichinhos... Bem-aventurados os que se
compadecem de seus semelhantes...
- Já foste à cavalariça, ó lambisgóia? O cavalo de frei Tiago está te
esperando...
E riam num deboche franciscano, à refeição.
O outro sofria, sem dizer palavra, o debique dos jesuítas.
Aconteceu, uma noite, que frei Tiago foi encontrar o noviço chorando com
a cabeça entre as mãos e a murmurar uma lengalenga sem sentido, frases
incompletas, de idiota, cortadas de soluços.
O frade, que ainda tinha uns restos de piedade lá bem no fundo de sua
alma, aproximou-se devagar, no bico dos pés e pôs-se a escutar, muito
admirado, cheio de interesse, aquele monólogo incompreensível.
Pouco a pouco Oscar foi-se ajoelhando defronte de uma imagem da Virgem,
que havia na cela, e, mãos postas, o olhar pregado à parede, os lábios
trêmulos, vibrando nervosamente, delirava como um alucinado. Safam-lhe
da boca invocações, queixas, preces, mágoas de um misticismo evangélico
e logo pragas, ameaças, blasfêmias horríveis.
- Jesus! Saltou de repente o superior. Que é isso, filho? E a sua voz
conselheira e repreensiva a um tempo foi como uma forte mordaça que
tivesse cosido a boca ao neófito.
Fêz-se de chofre um silêncio grave, um triste silêncio de ergástulo,
profundo e melancólico. O esguio perfil do velho esbatia-se na parede
fantasticamente, com a sua longa barba em ponta, o capuz triangular
caído para trás.
O noviço imobilizara-se aterrado.
Levante-se, criatura, tornou o monge compadecido.
Oscar fez meia volta sobre os joelhos e abraçando as pernas do outro,
beijando-lhe as mãos, aflito, desesperado, suplicou:
- Perdão, frei Tiago, perdão pelo amor de Deus. Ela está no céu, essa
que morreu por minha causa, alma de minha alma, irmã de Nossa Senhora.
Eu amo-a contudo, porque ela é a minha Maria Santíssima, rainha de meu
coração, vera-efígie da mãe de Jesus.
- Filho, que é isto? ! Estás louco, perdeste o juízo? Acalma-te,
ergue-te!
Debalde frei Tiago procurava suspender. pelo braço o pobre moço. Oscar
pesava mais que chumbo, e arrojava-se-lhe aos pés com urna fúria
selvagem, proferindo absurdas imprecações, em que passavam queixas de
amor...
- Insensato, quanta blasfêmia!
O velho monge tapava os ouvidos horrorizado, indeciso, pedindo a Deus
que aparecesse alguém para o socorrer naquela aflitiva situação.
Mas havia um silêncio de sepultura no pátio e nos corredores do casarão
entregue ao sono da meia-noite.
Entretanto, era preciso resolver alguma coisa. Aquilo não podia
continuar. Decididamente o rapaz estava doido. Fez um grande esforço
para arredar o noviço, cujos músculos pareciam de ferro e, depois de uma
luta de momento, breve, mas encarniçada, pôde evadir-se, abalando por
ali fora, cheio de pavor, assombrado, como um assassino que foge à
própria sombra.
- Espera! Espera! prorrompeu o noviço, perseguindo-o. Espera, frei Tiago
! Quero-te estrangular, foste tu que me prendeste aqui dentro... Espera,
demônio!
Mas tropeçou na carreira que levava, e estendeu-se no chão com todo o
peso do corpo, abertos os braços formando uma cruz negra.
Surgiram luzes por todas as portas. O convento inteiro acordara com o
barulho, espavorido, sobressaltado.
E, ao lívido clarão das lanternas, aquele corpo magro e sumido,
entulhando o pacato corredor, inerte sobre as lajes, tinha o aspecto
sinistro de um crime noturno...
Oscar de Miranda estava numa postura de crucificado, peito sobre o chão
de granito. Morreu instantaneamente, jorrando sangue pela boca.
Ao redor do cadáver moviam-se os frades numa azáfama acelerada,
sombrios, lúgubres, entrecruzando-se no corredor sem fim,
multiplicando-se em sombras, como uma fantástica legião de demônios.
Só então foi descoberto o mistério que pesara sobre o coração de Oscar:
- um primeiro amor discreto e malogrado. Lá estava, a um canto da cela,
dentro de urna simples caixa de ébano, toda a história banal e pungente
dessa paixão ignorada, que frei Tiago narrara agora com uma pena
tocante:
- Ninguém suspeitara tal coisa, dizia ele. Uma loucura, uma verdadeira
loucura!
A crônica limitou-se a registrar o fato com a fria simpleza de um
depoimento.
ADOLFO CAMINHA é escritor cearense, um dos principais
representantes do naturalismo no Brasil, sua obra, densa, trágica e
pouco apreciada na época, é repleta de descrições de perversões e
crimes. Adolfo Ferreira Caminha nasceu no dia 29 de maio de 1867 na
cidade de Aracati. Ainda na infância se muda com a família para o Rio de
Janeiro. Em 1883 ingressa na Marinha de Guerra, chegando ao posto de
segundo-tenente. Cinco anos mais tarde se transfere para Fortaleza, onde
é obrigado a dar baixa, depois de seqüestrar a esposa de um alferes, com
a qual passa a viver. Trabalha como guarda-marinha e começa a escrever.
Em 1893 publica A Normalista, romance em que traça um quadro pessimista
da vida urbana, "esse acervo de mentiras galantes e torpezas
dissimuladas". Vai para os Estados Unidos e, das observações da viagem,
resulta No País dos Ianques (1894). No ano seguinte provoca escândalo,
mas firma sua reputação literária ao escrever Bom Crioulo, obra
na qual aborda a questão do homossexualismo. Colabora também com a
imprensa carioca, em jornais como Gazeta de Notícias e Jornal do
Comércio. Já tuberculoso, lança o último romance, Tentação, em 1896.
Morre no Rio de Janeiro no dia 1º de janeiro de 1897.
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