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No cair da noite
De: anita@hotmail.com.br
Para: flavio@terra.com.br
Assunto:flerte
Oi, me chamo Anita e tenho cabelos castanhos claros. Por enquanto é
isso. Tchau.
De: flavio@terra.com.br.
Para:anita@hotmail.com.br.
Assunto:flerte
Alo, Anita, eu sou o Flávio e tenho cabelos negros como a asa da graúna,
conforme dizemos no interior. Me fala mais de ti.
De: anita@hotmail.com.br
Para: flavio@terra.com.br
Assunto:flerte
Oi, Flávio asa de graúna. Tenho corpo enxuto e gosto de Cinema.
Almodovar é meu cineasta preferido. Abraço. Anita
De: flavio@terra.com.br.
Para:anita@hotmail.com.br.
Assunto:flerte
Alo, alo Anita dos cabelos castanhos e fã do Almodovar. Também gosto de
Cinema, mas minha linha é para o Martim Scorsese. Gostei de saber que
tens um corpo enxuto. Eu, modéstia à parte, também não sou de se jogar
fora.
De: anita@hotmail.com.br
Para: flavio@terra.com.br
Assunto:flerte
Oi, Flávio, estive fora uma semana. Pintou alguma saudade? Beijo. Anita
De: flavio@terra.com.br.
Para:anita@hotmail.com.br.
Assunto:flerte
Oi, Anita. Me acostumei mal. Senti muito tua falta, confesso. Cada dia
que passa, sinto-me mais ansioso para te conhecer. Quando será? Beijos.
Flávio.
De: anita@hotmail.com.br
Para: flavio@terra.com.br
Assunto:flerte
Oi, gatão. Te sinto muito apressadinho. Segura teus impulsos, tudo tem a
hora certa. Beijos. Anita
De: flavio@terra.com.br.
Para:anita@hotmail.com.br.
Assunto:flerte
Gata, és perversa, estás me fazendo sofrer. Te afirmo, chegou a hora,
vamos marcar um encontro, escolhe o lugar. Com crescente paixão. Flávio.
De: anita@hotmail.com.br
Para: flavio@terra.com.br
Assunto:flerte
Falas em paixão, meu gato... olha, terás uma grande surpresa, tenho a
certeza.
Esse diálogo eletrônico se estendeu quase diariamente por dois meses.
Afinal, marcaram encontro numa praça, às seis horas de uma terça feira.
No dia combinado, Flávio vestiu-se de maneira esportiva. Estava ansioso,
tratava-se de uma experiência nova para ele, nunca conhecera ninguém
assim.
Ao sair, colocou no bolso da jaqueta de couro, um revolver calibre 38.
Nos últimos tempos se habituara a andar armado, embora não possuísse
porte. Na verdade, por pura bravata, uma vez que não tinha prática
alguma com armas.
Eram cinco e quinze quando ligou o motor do carro. Tinha bastante tempo,
em vinte, vinte e cinco minutos, chegaria ao local.
Estacionou o veículo numa lateral da praça. Percorreu os arredores com
uma olhadela, não avistou ninguém. Perfumou o hálito com um aparelhinho
que era de sua irmã... coisa de mulher. Fechou o carro, andou um pouco e
sentou-se num velho banco descascado.
Olhou o relógio; tomara que ela fosse pontual, detestava esperar.
Acomodado, examinou o lugar com mais vagar. Era uma praça quase
abandonada, não se via movimento algum. Bem, fora idéia dela...
À medida que se aproximava da hora marcada sua ansiedade aumentava,
apertava os dedos com impaciência. Faltando dois minutos para as seis,
já escurecendo, Flávio avistou alguém surgindo na esquina. O coração
bateu-lhe mais forte.
A pessoa caminhava na direção em que ele se achava; parecia-lhe
familiar... mas, seria possível, era seu amigo Alfredo!
Ficou contrariado, não queria topar com ninguém conhecido, que pudessem
suspeitar estar arranjando namoro através da Internet... ele não
necessitava.
Alfredo se aproximou sorrindo.
E aí, cara? saúda Flávio, disfarçando o aborrecimento. Por estas
bandas... onde te atiras?
Vim espiar uma exposição no Gasômetro, respondeu o outro, não parecendo
surpreso em encontrar o amigo. E tu?
Eu...tô numa paquera... uma dona que mora por aqui.
Ahn. Por acaso eu conheço?
Não, acho que não. Bom, quem sabe. Flávio se atrapalhava, odiava ter de
mentir para o amigo. Verificou as horas, ela estava dez minutos
atrasada. Será que lhe daria bolo?
Impaciente, Flávio percebe que o amigo não demonstra a mínima pressa.
Ostensivamente, com certa animosidade, para encerrar aquele encontro,
torna a olhar o relógio: seis e quinze, droga!
Começa a anoitecer. Olhando o outro tagarelar na meia-luz do crepúsculo,
Flávio experimentou uma entranha sensação. Parecia-lhe estar vendo
Alfredo pela primeira vez, embora o conhecesse a um bom par de
anos.Nunca percebera aquele seu jeito de ser, a maneira de sorrir. A voz
tinha um tom afetado... sente-se embaraçado.
E o trabalho? pergunta Alfredo.
O trabalho... vai indo, responde Flávio, já irritado com a furada que se
delineava e com o amigo que se grudara nele. Certamente iria assistir,
gozar com seu fracasso. E o cara perguntando pelo trabalho. Era dose.
É Anita que esperas, pergunta Alfredo, inesperadamente.
O que? Como ele sabia... o nome?!
Antes que se refizesse da surpresa, o outro exibiu para ele um
enigmático sorriso:
A tua Anita está aqui, seu bobo.
Flávio engole em seco, ganhou tempo, procurava esconder o espanto.
Que é isso irmão, tá gozando com minha cara? diz, sem graça.
Alfredo pegou suavemente a mão de Flávio:
Ora, gato, vais dizer que nunca percebeste o que sinto por ti? Eu...
Com horror, num safanão Flávio livrou-se da mão do outro.
Deixa disso, cara, tou te estranhando... sai de mim!
Sôfrego, Alfredo agarra-se em Flávio:
Eu te quero, te quero... meu amor...
Diante daquele desatino, Flávio empurrou-o com fúria: "Desgraçado." Fora
de si, Alfredo abandona qualquer prudência, volta à carga, grudou-se
nele, procura sua boca.
Neste momento ouve-se um estampido seco, e Flávio desaba na grama.
Alfredo olha para o amigo estendido, vê o sangue jorrando de sua cabeça,
parece não acreditar. No entrevero, tentando desvencilhar-se, ao sacar
da arma, Flávio disparou contra si mesmo.
Transtornado, Alfredo abaixou-se, arranca o revolver das mãos do amigo
e, num movimento repentino levou o cano da arma contra sua própria
fronte e dispara. Cai ao lado do cadáver, a arma escorrega de sua mão e
ficou entre os dois.
DENY BONORINO é gaúcho, artista plástico, e vive em porto Alegre.
Morou muitos anos no Rio de Janeiro, onde foi Diretor de Arte da editora
Delta- larousse. Escreve desde 1997. Colaborou com contos e crônicas em
jornais e publicações em Bagé, RS
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