Matadores

Tradução de Roberto Schmitt-Prym

A porta da lanchonete Henry's abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.

- O que é que vai ser? - perguntou George.

- Não sei - disse um dos homens. - O que é que você quer comer, Al?

- Não sei - disse Al. - Não sei o que quero comer.


(O conto foi filmado em 1946, dirigido por Robert Siodmak,
com Burt Lancaster, Ava Gardner, Edmond O'Brien e Albert Dekker.)

Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.

- Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas - disse o primeiro homem.

- Não está pronto ainda.

- Então por que diabos põem isto no cardápio?

- Isto é o jantar - explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.

George olhou para o relógio arás do balcão.

- São cinco horas.

- O relógio marca cinco e vinte - disse o segundo homem.

- Está vinte minutos adiantado.

- Ah, pro inferno com o relógio - disse o primeiro homem. - O que você tem para comer?

- Posso servir qualquer tipo de sanduíche - disse George. - Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.

- Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.

- Isto é o jantar.

- Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?

- Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado...

- Vou querer presunto e ovos - disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.

- Me dê bacon e ovos - disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.

- Tem algo para beber? - perguntou Al.

- Cerveja, sucos e refrigerantes.

- Perguntei se tinha alguma coisa para beber?

- Só o que eu disse.

- Esta é uma cidade quente - disse o outro. - Como se chama?

- Summit.

- Já tinha ouvido? - perguntou Al ao amigo.

- Não - disse o amigo.

- O que fazem por aqui à noite? - perguntou Al.

- Eles jantam - disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.

- É isso mesmo - disse George.

- Então você acha isso mesmo? - Al perguntou a George.

- Claro.

- Você é um rapaz espertinho, não é?

- Claro - disse George.

- Bem, mas não é - disse o outro sujeito. - Você acha que ele é, Al?

- Ele é um bobo - disse Al. Virou-se para Nick. - Qual é o seu nome?

- Adams.

- Outro espertinho - disse Al. - Ele não é um espertinho, Max?

- A cidade está cheia de espertinhos - disse Max.

George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.

- Qual é o seu - perguntou a Al.

- Não se lembra?

- Presunto e ovos.

- É mesmo um espertinho - disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.

- O que está olhando? Max olhou para George.

- Nada.

- Vá pro inferno. Você estava me olhando.

- Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max - disse Al.

George riu.

- Você não tem que rir - disse Max. Não tem nada para rir, viu?

- Está bem - disse George.

- E ele pensa que está tudo certo - disse Max virando-se para Al. - Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.

- Ora, ele é um filósofo - disse Al. Continuaram comendo.

- Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? - perguntou Al para Max.

- Ei, espertinho - disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.

- Qual é a idéia? - perguntou Nick.

- Não há idéia nenhuma.

- É melhor dar a volta, espertinho - disse Al. Nick passou para trás do balcão.

- Qual é a idéia? - perguntou George.

- Não é da sua maldita conta - disse Al. - Quem está na cozinha?

- O negro.

- O que quer dizer com "o negro"?

- O negro da cozinha.

- Diga-lhe para entrar.

- Onde pensam que estão?

- Maldição, sabemos muito bem onde estamos - disse o homem chamado Max. - Parecemos tolos?

- Você fala como um tolo - disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui - disse a George -, diga ao negro para vir aqui.

- O que vão fazer com ele?

- Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?

George abriu o postigo da cozinha. - Sam - chamou. - Venha aqui um minuto.

A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. - Que foi? - perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.

- Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo - disse Al.

Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. - Sim, senhor - disse. Al desceu do seu banco.

- Vou à cozinha com o negro e o espertinho - disse ele. - Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. - O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry's tinha sido transformado de salão em lanchonete.

- E então, espertinho - disse Max olhando para o espelho - por que não diz alguma coisa?

- E por que tudo isso?

- Ei, Al - chamou Max - o espertinho quer saber por que tudo isso.

- Por que não diz a ele? - a voz de Max veio da cozinha.

- O que você pensa de tudo isso?

- Não sei.

- Que acha?

Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.

- Eu não diria.

- Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.

- Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. - Escute, espertinho - disse a George, da cozinha. - Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. - Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.

- Fale comigo, espertinho - disse Max. - O que você acha que vai acontecer?

George não disse nada.

- Vou lhe dizer - disse Max. - Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?

- Sim.

- Ele vem jantar todas as noites, não vem?

- Ele vem aqui às vezes.

- Ele vem às seis horas, não vem?

- Quando vem.

- Sabemos de tudo, espertinho - disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?

- De vez em quando.

- Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.

- Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?

- Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.

E ele só nos vai ver uma vez - disse Al, da cozinha.

- Então, por que vão matá-lo? - perguntou George.

- Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.

- Cale-se - disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.

- Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?

- Você fala demais, droga - disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.

- Eu suponho que você esteve num convento.

- Nunca se sabe.

- Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.

George olhou o relógio.

- Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?

- Tudo bem - disse George. - O que vai ser com a gente depois?

- Isso depende - disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.

George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.

- Oi, George - disse ele. - Posso jantar?

- Sam saiu - disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.

- É melhor eu procurar outro lugar - disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.

- Muito bom, espertinho - disse Max. Você até que é um cavalheiro.

- Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça - disse Al, da cozinha.

- Não - disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.

Às seis e cinqüenta e cinco George disse: - Ele não vem.

Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para "viagem", que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.

- O espertinho sabe fazer de tudo - disse Max. - Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.

- É? - disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.

- Vamos dar-lhe dez minutos - disse Max.

Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.

- Vamos, Al - disse Max. - É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.

- É melhor dar-lhe mais cinco minutos - disse Max, da cozinha.

- Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.

- Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? - perguntou o homem. - É assim que é. Saiu.

- Vamos, Al - disse Max.

- Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?

- Não tem problema.

- Você acha?

- Claro. Já terminamos com isso.

- Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.

- Ah, mas que inferno - disse Max. Temos que nos divertir, não temos?

- Dá no mesmo, você fala demais - disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.

- Até logo, espertinho - disse ele a George. - Você tem muita sorte.

- É verdade - disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.

Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.

- Eu não quero mais nada disso - disse Sam, o cozinheiro. - Eu não quero mais nada disso.

Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.

- Escutem - disse ele. - Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.

- Eles iam matar Ole Anderson - disse George. - Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.

- Ole Anderson?

- Sim.

O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.

- Foram todos embora? - perguntou.

- Sim - disse George. Já foram.

- Eu não gosto disso - disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.

- Escute - disse George a Nick. - É melhor você procurar Ole Anderson.

- Certo.

- É melhor você não se meter em nada disso - disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.

- Irei procurá-lo - disse Nick a George. - Onde ele mora?

O cozinheiro se afastou.

- Garotos sempre fazem o que querem - disse ele.

- Vive na pensão de Hirsch - disse George a Nick.

- Vou até lá.

Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.

- Ole Anderson está?

- Você quer vê-lo?

- Se ele estiver.

Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.

- Quem é?

- É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson - disse a mulher.

- É Nick Adams.

- Entre.

Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.

- O que foi - ele perguntou.

- Eu estava no Harry's - disse Nick, - e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.

Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.

- Eles nos puseram na cozinha - continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.

Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.

George achou melhor eu vir contar a você.

- Não há nada que eu possa fazer a respeito - disse Ole Anderson.

- Vou lhe dizer como eles eram.

- Eu não quero saber como eles eram - disse Ole Anderson, olhando para a parede. - Obrigado por vir me contar.

- Tá certo.

Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.

- Não quer que eu vá a polícia?

- Não - disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer?

- Talvez fosse apenas um blefe.

- Não. Não foi um blefe.

Ole Anderson virou-se para a parede.

- O pior é que - disse ele, voltado para a parede - eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.

- Você não poderia sair da cidade?

- Não - disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.

Olhava para a parede.

- Já não há mais nada a fazer agora.

- Não dá para resolver isso de algum modo?

- Não, eu errei. - Falava com a voz neutra e sempre igual. - Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.

- É melhor eu voltar e falar com George - disse Nick.

- Até logo - disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. - Obrigado por vir até aqui.

Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.

- Ele está no quarto o dia todo - disse a senhoria no andar de baixo. - Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: "Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este", mas ele não estava com vontade.

- Ele não quer sair.

- Lamento que não se sinta bem - disse a mulher. - Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.

- Sei.

- A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto - disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. - É um senhor tão gentil.

- Boa noite, senhora Hirsch - disse Nick.

- Eu não sou a senhora Hirsch - disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.

- Bem, boa noite, senhora Bell - disse Nick.

- Boa noite - disse a mulher.

Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry's. George estava lá dentro, atrás do balcão.

- Esteve com Ole?

- Sim - disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.

O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.

- Não quero nem mesmo ouvir - disse, e fechou a porta.

- Você falou sobre o que aconteceu? - perguntou George.

- Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.

- O que ele vai fazer?

- Nada.

- Eles vão matá-lo.

- Acho que vão.

- Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.

- Acho que sim - disse Nick.

- Que coisa infernal!

- É uma coisa terrível - disse Nick.

Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.

- Queria saber o que ele fez - disse Nick.

- Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.

- Vou sair desta cidade - disse Nick.

- Sim - disse George. É uma boa coisa a se fazer.

- Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.

- Bem - disse George, - é você não pensar nisso.