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O lenço
Tradução de Roberto Schmitt-Prym
Porque acabou a arte de contar histórias? Eis uma pergunta que muitas
vezes faço a mim próprio quando me deixo ficar à mesa com os outros
convivas, a passar o serão, depois de termos comido. Creio, porém, ter
encontrado a resposta certa tarde em que fiquei de pé na coberta do "Bellver"
junto à casa do leme, percorrendo com o binóculo o quadro incomparável
que Barcelona oferecia, vista de cima do navio.
O Sol, pondo-se atrás da cidade, parecia derretê-la. A vida parecia ter
abandonado os intervalos verde-claros entre as árvores, o cimento dos
edifícios, os penhascos dos montes ao longe. O "Bellver" é um bonito e
espaçoso barco a motor, que merecia melhor destino do que o de servir o
pequeno tráfico insular das Baleares. E a sua imagem surgiu- me
realmente embelezada quando, no dia seguinte, o vi atracado ao molhe de
Ibiza para a viagem de regresso, pois tinha imaginado que dali
continuaria para as Ilhas Canárias. Fiquei outra vez pensando no capitão
O..., de quem me despedira algumas horas antes, o primeiro e talvez o
último contador de histórias que se deparou na minha vida, pois, como
não me canso de repetir, é arte que está em extinção. E ao recordar as
muitas horas que o capitão O... gastava passeando na ponte para um lado
e para o outro, lançando ao longe um olhar distraído, descobri: quem não
se aborrece, não sabe contar. Ora, o aborrecimento já não tem lugar na
nossa vida. Morreram aquelas atividades que lhe andam discreta e
intimamente ligadas. E assim desapareceu também o dom de contar
histórias: já não se tece nem se fia, não se desbasta nem se martela ao
som das histórias. Em resumo: para que nasçam histórias tem que haver
ordem, disciplina e trabalho.
Contar histórias é não apenas uma arte como também uma qualidade. No
Oriente, é mesmo um ofício. Conduz à sabedoria, tal como a sabedoria
muitas vezes nos chega sob a forma de conto. O narrador é portanto
alguém que sabe aconselhar. Para dar conselhos, é preciso saber
dizê-los. Sabemos lamentar-nos, queixar-nos dos nossos problemas, mas
não contá-los. E pensei então numa terceira coisa: o cachimbo do
capitão, o cachimbo que ele esvaziava batendo com ele ao começar uma
história e voltava a bater quando terminava, mas que entretanto deixava
consumir-se tranqüilamente. Tinha embocadura de âmbar, mas o fornilho
era de chifre encastoado em prata. Recebera-o do avô e, para mim, era o
talismã do contador de histórias. Hoje em dia já não há nada que valha a
pena ouvir, pois as coisas já não têm uma duração adequada. Quem usar um
cinto de couro até este cair aos pedaços, descobrirá muitas vezes que,
com o andar do tempo, alguma história lhe ficou ligada. O cachimbo do
capitão devia saber muitas.
Assim ia divagando quando, no cais, surgiu um homem baixo, com o rosto
mais grosseiro que alguma vez se viu debaixo de um boné de oficial: o
capitão O..., em cujo barco eu tinha chegado nessa manhã. Quem está
habituado a sair sozinho em cidades estrangeiras sabe dar valor ao que é
encontrar uma cara conhecida, mesmo que não seja das mais familiares,
quando a partida iminente afasta os inconvenientes de uma conversa
prolongada, mas ao mesmo tempo nos proporciona um chapéu, uma mão, um
lenço em que se possa deter um olhar vago antes de o fixar na superfície
do mar.
Lá estava o capitão, como se eu, com os meus pensamentos, o tivesse
chamado. Tinha saído de casa com quinze anos, passara três num
navio-escola, cruzando o Pacífico e o Atlântico, para mais tarde
ingressar num vapor da Lloyd que fazia a rota da América que ele, no
entanto, e por razões desconhecidas, não tardou a abandonar. Mais eu não
tinha conseguido tirar a limpo. Uma sombra parecia pairar sobre a sua
vida, mas nunca falava disso. Parecia faltar-lhe o que de mais
maravilhoso tem um contador de histórias: poder contar a sua vida,
deixar-se lentamente consumir nas suaves chamas do conto. Podia até ser
que a sua existência parecesse pobre se comparada com a do navio, que
ele sabia encher de vida em cada tábua do seu cavername.
Assim eu via as coisas naquela manhã, ao desembarcar. Ano de construção
e custo, calado e tonelagem, tudo eu conhecia com pormenor, até o pré
dos grumetes e as preocupações dos oficiais. Sim, como o transporte de
mercadorias era feito por veleiros, eram os próprios capitães quem, nos
portos, combinava os fretes. Era costume, na época, dizer-se com
escárnio: "Fora de navegação, destinado a vapor".., e seguiam-se
geralmente algumas frases das quais se podia concluir até que ponto as
necessidades econômicas, também ali, tinham mudado tudo.
Quando se tocava neste assunto, o capitão O... deixava às vezes cair uma
palavra sobre política, embora nunca o tenha visto ler um jornal. Nunca
esquecerei a resposta que me deu um dia, quando mencionei o fato:
- Nos jornais - disse ele - nada se aprende. As pessoas querem que lhes
expliquem tudo.
Com efeito, metade da arte jornalística não é dar explicações? E não
foram os antigos exemplares nesta matéria por drenarem, por assim dizer,
os acontecimentos no sentido em que os despojavam de fundamentos
psicológicos, de qualquer opinião que pudessem suscitar? Há que
reconhecer que as suas histórias, pelo menos, eram sempre isentas de
explicações sem que por isso, a meu ver, se tornassem frouxas. Houve as
notáveis, mas nenhuma que revelasse tanta originalidade como esta que,
nessa mesma tarde, havia de projetar sobre o molhe de Barcelona o mais
surpreendente reflexo.
- Passou-se há muitos anos, durante uma das minhas primeiras viagens à
América, quando ainda viajava como cadete - contara-me o capitão por
altura de Cadiz. - Íamos no sétimo dia de viagem e devíamos aportar a
Bremen na quarta-feira seguinte. Quando chegou a minha vez de fazer a
ronda da coberta, fui trocando algumas palavras com os passageiros. A
certa altura, estaquei: a sexta cadeira de repouso estava vazia.
Invadiu-me uma sensação de angústia, muito mais aguda, creio, do que nos
dias anteriores, sempre que saudava com um mudo cumprimento a jovem
senhora que ali costumava sentar-se, mãos entrelaçadas na nuca, olhar
perdido. Era muito bela e, tanto quanto a sua beleza, destacava-se o seu
recato. Era tão reservada que nunca se ouvia a sua voz - a mais
fascinante voz de que me lembro -requebrada e volátil, grave e metálica.
- Certa vez, ao apanhar o seu lenço (ainda hoje recordo como me
impressionou o seu sinete, um escudo com três estrelas em cada campo),
ouvi-lhe um "obrigada" pronunciado como se houvesse acabado de lhe
salvar a vida. Terminei a minha ronda e dirigia-me ao médico de bordo,
para indagar se a dama afinal estava doente, quando de repente roçou por
mim um torvelinho de roupas brancas. Ergui os olhos e vi aquela cuja
falta notara debruçada na amurada da popa seguindo com a vista um enxame
de cartões e papelinhos com que brincavam o vento e as ondas. No dia
seguinte, estava eu na coberta de serviço a vigiar as manobras de
atracação quando se me pousaram de novo os olhos na desconhecida que
passava ao longe. O barco ia acostar e aproximava lentamente a quilha do
cais mais próximo a que tínhamos arrumado de popa. Distinguiam-se
claramente os contornos das pessoas que esperavam no cais. A
desconhecida parecia sufocada. Eu tinha a atenção pregada no desenrolar
da corrente da âncora quando subitamente se ergueu um clamo. Voltei-me,
e vi logo que a desconhecida tinha desaparecido. Os gestos dos presentes
davam a entender que se tinha jogado ao mar. Qualquer tentativa para
salvá-la seria inútil. As máquinas tinham parado imediatamente; o casco
do navio estava a uns três metros do cais e a inércia empurrava-o. Quem
caísse ali, estava perdido. Sucedeu então o incrível: havia alguém
disposto a tentar o portentoso salvamento. Víamos os seus músculos
retesados, os olhos estreitados, com todo o ar de querer saltar borda
fora, e então, enquanto o barco deslizava a todo o comprimento do
costado de estibordo, apareceu pelo lado de bombordo, onde não havia
ninguém e para onde ninguém olhava, o salvador erguendo a rapariga nos
braços. O seu feito, na realidade, consistira em cair sobre a rapariga
com todo o seu peso, arrastando-a por baixo da quilha do barco até ao
lado oposto.
- Quando a transportava nos meus braços - contou-me ele mais tarde -
balbuciou um "obrigada" como se eu tivesse acabado de apanhar-lhe o
lenço.
Tinha ainda nos ouvidos a voz com que o narrador pronunciara estas
últimas palavras. Quis apertar-lhe a mão uma vez mais, pois não havia
tempo a perder. Dispunha-me a descer a escadaria quando reparei que os
depósitos, armazéns e guindastes do porto estavam ficando para trás.
Tínhamos partido. De binóculos assestados, deixei passar Barcelona na
minha frente pela última vez. Depois, baixei-os lentamente, até focar o
cais. Lá estava o capitão, no meio das pessoas. Deve ter-me visto
também. Levantou a mão numa saudação, à qual correspondi agitando a
minha. Quando foquei melhor os binóculos vi que tinha na mão um lenço,
que agitava. Consegui distinguir claramente o desenho que havia numa das
pontas: um escudo com três estrelas em cada campo.
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