 |
 |
O enterro ou A casa sem cão
A mulher, à pressa, já segurava a bolsa para sair, depois de verificar
atenta se o fogão a gás não ficara com alguma boca acesa; e se voltou
para o pai idoso, recomendando:
Estou de partida. Tenha cuidado na casa. Demoro pouco.
Ia acrescentar que por urgente necessidade tinha de se ausentar, pois
precisava ganhar uns trocados a mais para dobrar a resistência do
bodegueiro sem mais querer fiar... Parou. O outro dizia-lhe decidido:
– Vou sair também. Cadê o meu paletó?
Ela estacou surpresa:
– Sair? sair pra onde?
A voz do homem soou enérgica e resoluta:
– Você estava na cozinha, nem prestou atenção. Deu a notícia no rádio...
– Que notícia, pai?
– Você conhece, não... Era meu grande amigo. Morreu. Coitado do
Belisário.
– Tão importante assim para merecer registro em programa de rádio? Não,
papai, o senhor se confundiu...
Ele insistiu, a cobrar:
– Cadê o meu paletó?!
Seu paletó foi comido pelas traças... Tinha virado peça de museu.
Me parecia ainda bom de uso. A última vez...
Ela interrompeu-o:
– Isso foi há doze anos, quando faleceu o vizinho.
– Sei disso não. Bom, só sei que vou ao enterro do meu amigo Belisário.
Sem paletó. Todo mundo vai reparar. É que nunca vesti silaque em
cerimônia social.
– Papai, não quero teimar, mas tudo não passa de um equívoco. O
locutor...
– ... o locutor falou bem duas vezes o nome dele, o endereço, deu tudo!
Meu amigão! E você não sabe...
– Não sabe o quê?
– Tínhamos um pacto. Ele jurou, eu jurei também: se um dos dois morresse
primeiro, o que ficasse estaria obrigado a ir ao enterro, estivesse onde
estivesse. Assim vai ser... Deus o chamou em primeiro lugar, tocando a
mim, agora, cumprir a palavra empenhada.
– Que palavra empenhada! Isso passou! E por favor vá sossegar tenho de
ganhar o meu dinheiro.
– Ah, então é desse modo? Muito bem! Não causa admiração que o mundo
esteja – me deixe dizer um nome feio – nessa esculhambação de hoje. Não!
Sou de ontem, de tempo em que as pessoas possuíam palavra, cumpriam o
trato. Cedia o lugar de sentar nos bondes a uma dama, ajudava a
idosos...
– Papai, escute bem. Os seus netos já foram trabalhar, e eu só vou sair
por extrema necessidade. Dessa forma o senhor não pode comparecer ao
sepultamento do seu grande amigo. Por isso, é melhor se contentar com
uma oração...
– Oração é coisa de protestante. Eu rezo.
– Pois então reze. Dá tudo igual. Contanto que fique em casa. A nossa,
repare, não pode ficar sem ninguém, principalmente com a onda de ladrões
solta no bairro...
– ... ladrões aqui ?!
– É onde dá mais.
Ele ficou pensativo. Depois de um momento, lembrou:
– Deixe o cachorro botando sentido. Você pode ir pegar os seus trocados,
como falou, e eu sigo para cumprir o meu acordo...
Paciente, ela explicou:
– O senhor deve estar esquecendo as coisas... O Japi morreu... morreu de
velhice. E nós não tivemos condições de adquirir outro animal de guardar
a casa.
– Agora deu ruim! Eu não posso desfazer o trato com o falecido. O
Belisário se estivesse em meu lugar, com paletó ou sem paletó ia
acompanhar o meu enterro. Foi o melhor amigo que tive, marido exemplar.
Ela moveu a cabeça, aborrecida:
– E tem mais, papai, o dinheiro que vou receber é importante para pagar
a mercearia. De outro jeito, se duvidar, vamos ter de passar fome... E
mesmo...
– Mesmo o quê?
– O senhor, aos oitenta, não tem mais condições para sair de casa,
desacompanhado.
– Minha companhia é Deus. Me considero forte, me levanto sozinho de
noite para ir ao banheiro... e...
– Mas não pode.
– Alugo um menino do vizinho. Ainda tenho uma pontinha de dinheiro da
aposentadoria.
– Compreenda, papai! A família do tal Belisário na certa nem sabe se o
senhor existe. Bem, a hora está passando e preciso, agora digo como o
senhor, preciso cumprir meu trato.
– Meu Deus, a que ponto cheguei na vida! Minha própria filha quer que eu
fique desmoralizado. Contando não tem quem acredite!
– Ela tornou a insistir em tom amável:
– Papai, vá sentar-se na sua cadeira de vime, perto da porta... Prometo,
prometo de verdade! Vou ficar atenta aos jornais! Podemos ir juntos à
missa de sétimo dia.
– Missa de sétimo dia não é enterro. Não aceito esse tipo de solução.
E com convicção, exaltando-se:
– Vou ao enterro, VOU!
– Papai...
– VOU, VOU!
Foi só um instante, tempo em que ela apreensiva consultou o relógio, a
ver que horas davam, e decidiu:
– Não tem acordo, não tem paletó, não tem enterro! Vá sentar na cadeira
como estou mandando, que preciso ganhar o meu dinheiro. É isso!
– Deus castiga a quem maltrata os pais.
– É sentar bem direitinho e não deixar a casa só. Os ladrões, repito,
andam por aí. Se duvidar vão entrar aqui e carregar o seu rádio. Vá, vá,
vá, me obedeça!
Fê-lo arriar-se na cadeira de vime, nervosa, considerando que se não
partisse quanto antes não teria como passar a roupa, tarefa a que se
obrigara de véspera.
– Não deixe ninguém entrar. Ninguém mesmo!
Ele esteve para altear o tom da voz e protestar mais uma vez, chutar os
móveis da sala, gritar palavrão, chorar, até chorar...
Mas se reconheceu trêmulo, esmorecido, e na realidade sucumbido por não
poder, como prometera, honrar o compromisso com o Belisário.
E se deixou ficar batendo o pé no chão, perdidamente magoado.
Dolorosamente cão.
EDUARDO CAMPOS (Manuel Eduardo Pinheiro Campos) nasceu em 1923,
em Guaiúba, então distrito de Pacatuba. Estreou em 1943, com o livro de
contos Águas Mortas. Seguiram-se, neste gênero, em 1946 Face Iluminada,
em 1949 A Viagem Definitiva, em 1965 Os Grandes Espantos, em 1967 As
Danações, em 1968 O Abutre e Outras Estórias (constituído por uma
seleção dos presumíveis melhores contos), em 1970 O Tropel das Coisas,
em 1980 Dia da Caça, em 1993 O Escrivão das Malfeitorias, em 1998 A
Borboleta Acorrentada e em 1999 O Pranto Insólito. Tem também peças de
teatro, livros de folclore, romances, ensaios, biografias, memórias,
além de grande número de produções especiais para o rádio e televisão.
Seus principais romances são O Chão dos Mortos e A Véspera do Dilúvio.
Durante dez anos dirigiu a Academia Cearense de Letras; foi Secretário
de Cultura do Estado, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, e é
Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará. Figura em
antologias nacionais e internacionais de contos. É bacharel em Ciências
Jurídicas e Sociais. Iniciou-se nas letras escrevendo, dirigindo e
representando peças de teatro. Sua peça O Morro do Ouro foi representada
350 vezes; A Rosa do Lagamar, mais de 500. Sua obra teatral foi reunida
em dois volumes, contendo O Demônio e a Rosa, O Anjo, Os Deserdados, A
Máscara e a Face, Nós, as Testemunhas, no primeiro, A Donzela
Desprezada, O Julgamento dos Animais, O Andarilho, além das já
mencionadas. Tem pequenas histórias incluídas em dez antologias, das
quais duas no Uruguai e uma na Alemanha.
|