Elegia

"Canta e canta
uma canção
em sua viola branca"

F. Garcia Lorca


Quando você morreu, delicadamente você me matou. Hoje, as folhas que caem, o frio, o escuro da noite, a solidão, a aspereza das ruas, o degredo dos corpos nos bares, a indiferença dos que prometeram e não cumpriram, o ganido dos cães, o arrepio crespando meus pêlos, os dentes trincando e ferindo o lábio já sem sangue, a extensão do meu passo, a vertigem violenta e incessante, serão insuficientes para me conter, pois eu jamais pararei, jamais pararei... mesmo que esta lágrima chegue a jorro e inunde meu cenho, deformando o rosto, eu jamais pararei, jamais pararei, porque eu não tenho mais motivos para parar, não tenho mais motivos para o descanso, para a contemplação ociosa do dia, para a poesia, porque a vida que foi comida pela terra era minha e eu nem mesmo a isto pude presenciar... Uma Matilha Negra, sem luto, irrompeu-se entre nós... Matilha que não lhe acompanhou no hospital, que não lavou o seu sangue, coagulado nas fronhas dos travesseiros e lençóis... não lhe beijou a testa fria quando achou que você não mais fosse voltar, não lhe segurou a mão, leve como o suspiro de sua respiração, nem jurou, gritando, não lhe abandonar... e quando chegou o momento de calar e ver a sombra do nada lhe cobrir para roubar o pouco do seu calor, não foi Ela que pensou não mais existir, ser menos do que são os menores grãos, do que o átomo ou a menor partícula no amplo e negro espaço... Foi, você há de me desculpar, mas eu não tive forças, calei-me diante da recusa de lhe acompanhar, vi todos os que se diziam seus se adornarem de negro e ostentarem flores nos colos para o teatro choroso das homenagens, vi chamarem o padre e o coral e também encomendarem a missa para o sétimo dia, vi vestirem seu corpo rijo e ouvi suas vozes me pedindo para ficar... afinal alguém precisava ficar, um parente ou amigo pode resolver telefonar... e fiquei então no apartamento, no apartamento onde você ouvia Sinatra, onde lia os sonetos de Shakespeare e os contos do João Silvério Trevisan, onde se esparramava e preenchia todos os espaços com uma irradiação única, como quando cozinhava e quebrava os pratos de porcelana na beirada da pia ou então sacava a rolha do velho garrafão de vinho e servia para que eu bebesse, no apartamento onde abria as janelas apenas para que eu me arrepiasse de frio e então viesse me abraçar... no mesmo apartamento onde os quadros testemunharam impávidos minha solidão, onde as luzes iluminam a nudez dos móveis e impõem um silencio respeitoso, onde as gavetas, os armários, os baús e as portas permanecem fechados, mortos para mim... contudo sempre abertos, porque por mais que eu me esforce a dor vem sempre abri-los e insultar-me dizendo que quando você falava em sofrimento não imaginaria como eu sofreria agora e como eu me jogaria no mundo para andar sem olhar um instante para trás, consumindo-me e penetrando cada vez mais dentro de mim para ver se eu conseguirei enfim resgatar o que sobrou de você... pois, quando você morreu, delicadamente você me matou. Eu olhava para Eles, os mesmos que se diziam seus, e não compreendia que não conseguissem dizer do que você morrera, não compreendia que o amor deles não fosse maior do que o medo que possuem da Morte, afinal eu sempre achei que a redenção era estar ligado ao destino de outro alguém, viver sem expectativas de fim... No entanto, hoje, na sua missa, Eles acendem os círios, ajoelham-se e voltam-se para um céu que não sentem, um céu que não os toca nunca, desertos da religiosidade que estão, desertos de qualquer divindade - olho para Eles e digo que não podia mais ficar naquele apartamento, que não podiam mais me esconder... e digo também que você morreu de AIDS, ou em decorrência da AIDS, e sei que eles estão envergonhados, mas não estão sofrendo nem um pouco mais do que sofriam antes da sua morte... eu queria lhe dizer, queria lhe escutar, queria não querer... mas eu não posso mais parar, tenho de seguir e seguir e seguir para que você saiba sempre que por mais que a dor me devasse, que você saiba sempre que por mais que eu não ultrapasse, eu sempre, sempre lhe amarei.


VIVALDO LIMA TRINDADE é editor da Verbo21 (www.verbo21.com.br), sítio literário, e contista. Tem dois livros inéditos, Todo Sol mais o Espírito Santo e O Supermercado da Solidão.