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Cortejo negro
Os troncos secos da mata há muito morreram. Névoa grossa cegava além do
estreito caminho que cruzava o lugar. O açude secara naquele tempo de
pouca chuva. Tinha eu poucos anos. O balde cheio de água embarrada mal
dava para beber. Hoje nem parece estreito d'água, e sim campo seco.
O caminho era lento praqueles todos. Todos negros, se arrastando num
bolo de negrura em movimento. Bandeiras negras, camisas negras. Cheiro
de morte e tristeza. Aroma de incenso velho. Folha queimada, ressecada
ao mormaço de chuvarada, quase apodrecida.
O compasso de marcha: tum, tum, tum de tambor. Breve choro e soluço. A
carroça, nova ou pouco usada, mal rangia. O cavalo, velho e
desinteressado, ia porque ia. Pouco importa o defunto. O chão,
carbonizado, tudo pintava de negro. Eu observava tudo, num aspecto de
mineiro, maquiado para os túneis -camuflagem de curioso.
Todos em fila: ia o padre, grande homem negro, o carro, novo e negro, a
viúva, jovem negra, as filhas, pequenas flores negras, os outros, todos
negros, e alguns, nem sei bem, negros. Negros? Eu também!
Os poucos troncos ainda em pé desmoronavam com o tempo. Primeiro a
casca, que firmava o oco pilar de mato morto. Depois o resto, que era o
todo pois nada havia além do tronco. Eu era o tempo. Minha mão raspava a
superfície, as unhas cravavam no caule, derrubando pequenos fragmentos
podres. Esfarelava o tronco. Era tão fatal quanto o fogo que queimara
tudo. Mato negro, açude seco. Isso quando tinha poucos anos. Nem
conhecia ela e ela não me conhecia. Pelo menos acho eu. Mas todos eram
próximos, só não se falavam. Não havia interesse algum em se chegar. Só
se fosse para aumentar o pátio de casa. E assim foi. Lembro que era uma
tal de Madissinéia. Nome estranho, nome difícil. Filha minha terá nome
de santa! Então Maria e Maria. Vieram logo. Todos de branco.
Muito pouco tempo. Já não as tenho. Creio que há dois dias ando pelo
costado da estrada, neste imenso matagal morto, carbonizado e negro. A
noite ainda mais. Na hora que perdi os sentidos me veio à cabeça este
lugar desolado. A medida que a vista nublava, a ferida queimava e o
corpo tremia, não sei porque lembrei desta horrorosa assombração de tudo
morto.
Não devia ter ido à casa! Nem saber eu queria. Se soubesse, pediria para
não saber. Não sabendo, ninguém saberia. Ele estava lá, em meu lugar. Eu
no lugar errado. Demoraram a perceber que os via. Creio que as meninas a
brincarem no pátio abafaram minha entrada. Mas ao me verem logo
desvencilharam-se, um para cada lado. Ela para esconder-se nos panos.
Ele para o cabo da arma. Tum, tum, tum de tambor.
Minha Maria se ajoelhou e me pegou na mão. Madissinéia, tapada somente
por um lençol branco, tinha as canelas a mostra, denunciando pernas mal
depiladas. O sol daquela tarde transparecia o branco e a deixava nua,
suada. Estava revolta pelo sol intruso que lhe silhuetava. Quase aura,
tipo santa. A Maria ao meu lado chorava. A outra, escondia o rosto na
cintura da mãe que, sem bem lembro, não chorava, não ria, não cegava,
nada. Estava com um olhar firme, numa
expectativa de "quase".
As janelas bateram fortes numa ventania repentina. Os cabelos de
Madissinéia agitaram-se. Minha Maria chorava mais alto, mas eu a ouvia
cada vez menos. A outra Maria ainda mais longe. A porta também dava
fortes socos contra a parede da sala. Tivesse o desgraçado fechado a
porta ao sair para ninguém me ver.
Já iam longe na estrada que cruzava o mato. Eu não conseguia ir além.
Todos em fila. Novamente um breve soluço e choro. Eles pisoteavam os
galhos, numa sincronia de pisar, estalar, pisar. Todos no mesmo galho.
Todos negros. Ela enxugava o suor feito lágrima. Devia estar cansada.
Era difícil para uma jovem vestir negro.
De longe ainda sentia o azedo cheiro do cortejo negro. Via pequenos
pontos negros em fila. Um grande homem negro ponteando os outros. Uma
negrura jovem com mais duas outras. Outros negros juntos numa massa
triste. Também alguns que nem sei bem se de negro iam. E eu fiquei no
mato, recostado ao tronco. Vazio, oco, morto. Rodeado de outros, todos
negros, muitos outros.
DIEGO MÜLLER, 26 anos, nascido em Montenegro, RS.
Escritor, publicitário, cineasta e sonhador.
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