Contos curtos

Numa noite qualquer...

(inspirado no conto de Clarice Lispector; Ruídos e Passos)


O pai vê a filha se esfregando no travesseiro. Ele acende a luz do quarto e diz num tom repressor: - Quê isso, menina?.
A menina responde: - Nada, só tô com dor de barriga.
O pai acreditou. Era boa filha.

Numa noite qualquer, o marido vê a mulher se esfregando no travesseiro. Ele acende a luz do quarto e fala num tom repressor: - Quê isso, mulher?.
A mulher responde: - Nada , só tô com dor de barriga.
O marido acreditou. Era boa esposa.

Numa noite qualquer, o filho vê a mãe se esfregando no travesseiro. Ele acende a luz do quarto e fala num tom repressor: - Quê isso, mãe?-.
A mãe responde: - Nada, só tô com dor de barriga.
O filho acreditou. Era boa mãe.

Numa noite qualquer, o neto vê a avó se esfregando no travesseiro. Ele acende a luz do quarto e fala num tom repressor: - Que isso, vó? O que está fazendo?.
A avó reponde: - Nada, só tô com dor de barriga.
O neto acreditou. Era boa avó.

Eles foram os quatros homens de sua vida, ela fez tudo por eles. Foi boa filha, boa esposa, boa mãe e boa avó. Mas, em alguns momentos, sentia-se incompleta.


Doce Inferno

Minha avó foi uma doceira de mão cheia. Arrumava a mesa de bolos, gelatinas e brigadeiros que ela própria fazia. Meu avô e eu ficávamos horas comendo as guloseimas, enquanto ela ficava a observar satisfeita. Preferia comer sozinha, para olhar o neto e o marido.

Todo final de semana ia visitá-los. Era muito bom. Mas, com o tempo, descobri que atrás de tanta doçura há o amargo. Meus avós, no final de suas vidas, ficaram com graves problemas de saúde.

O tempo passou. Fiquei diabético, obeso e com problema de coração. Comer, dava-me prazer imediato e era isso que almejava sempre.

Morri e tive que ir ao inferno. Mas, não fui para o lugar dantesco, que todos dizem. Voltei à casa dos meus avós. Eles estavam me esperando.

Voltei ao meu doce inferno.

Tentações

Marilda era uma moça com um vestido vermelho desbotado e com cabelos loiros ressecados de tanto pintar. Bêbada estava no botequim, dançava sensualmente e os freqüentadores do "boteco" faziam uma roda de samba, para ela. Os homens e as lésbicas a desejavam, enquanto as mulheres e os bichas a odiavam.

Porém, um dia, foi encontrada morta. Ao lado do corpo, um despacho de macumba. Dizem que foi a esposa do dono do estabelecimento, que cansada dele a trair com  aquela vulgar, decidiu se vingar: faz uma macumba.

Todos, no início, ficaram tristes. Mas, surgiram muitas como Marilda, com um vestido vermelho desbotado e com cabelos loiros ressecados de tanto pintar. A esposa do dono do bar morreu de desgosto, não conseguiu eliminar as tentações que corrompiam o marido. Ele, por sua vez, arrependido fechou o "boteco". Decidiu viver em um novo lugar, para ter uma outra vida.

Porém, o novo lugar onde estava, também tinha as tentações com vestidos vermelhos desbotados e com cabelos loiros ressecados de tanto pintar. Sua nova esposa foi mais esperta do que a antiga, observou que o problema não estava nas tentações, mas na fraqueza desse homem.
Foi embora, deixando-o para sempre.


Sozinho

A menina procurou uma peça bem pequena do quebra-cabeça, que acabara de ganhar de presente.

- Não acho, mãe! - começou a chorar.

- Quem manda, não ter cuidado com suas coisas.- disse a mãe.

Ela continuou a chorar por algum tempo, depois, esqueceu-se da pecinha perdida. Foi brincar com uma coleguinha da rua, onde morava. Aprendeu, que se perde algo ou alguém.
No fim da tarde caiu uma tempestade, típica chuva de verão.

*******

Uma peça se separa do quebra-cabeça. Almeja conhecer outras paisagens. Um grito intenso surge em sua consciência: "Quero ser só".
O vento a sopra para baixo da mesa. A vassoura a varre para fora da casa. A água do rio transborda, carregando-a para longe.

Ela nunca voltou para casa, nem sabe mais o caminho de volta. Esqueceu-se de seu passado. Vive intensamente o presente:

"Eu sou o meu próprio quebra-cabeça".


A vida tem que continuar

"Meu amor morreu". - Estou devendo duzentos reais ao meu amigo-. "Quero ir para bem longe, para tentar me livrar da dor desta perda". - Preciso devolver o livro da biblioteca, se não vou ser suspenso e não posso ficar sem pegar livros-. "Sinto saudade dos momentos que passamos juntos e de seu lindo sorriso que me deixa feliz". - Preciso levar o cachorro ao veterinário, tá todo se coçando. Deve ter comido alguma porcaria-. "As vezes, quero pular de uma ponte para te encontrar". - A conta da luz vence hoje, preciso pagar nesse mesmo momento-. "Meu amor é mentira que você morreu naquele acidente". - Droga, minha sandália arrebentou no meio da rua e esqueci o meu cartão de crédito, agora, o que vou fazer?-. "Sonho com você todas as noites". - Preciso aprender inglês, para arranjar um bom emprego.- " Será que algum dia vou amar uma pessoa tanto quanto te amei". - Estou quase cagando nas calças, preciso achar um banheiro. "Adeus meu amor, preciso continuar a viver."