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Confesso que vivi
Sim, confesso que vivi. Confesso que nas noites altas de sábado, apesar
da casa grande vazia, tranquei-me a chave em meu quarto e fechei todas
as janelas. Apaguei as luzes, de modo que só o brilho vacilante da
televisão projetasse nas paredes as sombras movediças que só eu e minha
solidão percebíamos. Abençoada solidão. E sem pressa, com a
tranqüilidade que a ausência de olhares nos aporta, fui retirando peça a
peça. As meias alojavam-se, atiradas, na esquina das paredes, para dali
serem recolhidas. A bermuda pousava no chão, como um casaco galantemente
estendido sobre uma poça. Sobre ela, a camiseta, assediando-a, tecido
sobre tecido. A cueca restava ao meu lado, eu nu. Eu nu vacilando na
parede, eu claro, definido, sombra rija; eu escuro, perdendo-me em
outras sombras, confundindo-me com a casa. Depois, pacientemente
zapeando, até que.
Sim, confesso que às vezes, tempo antes, não esperei ficar sozinho.
Raramente ficava sozinho, na realidade. Então, de manhã, antes de ir
para a escola, a empregada limpando o banheiro e eu tímido demais para
fechar-lhe a porta, ajeitava as aletas dos armários de maneira que sua
visão ficasse parcialmente impedida. Não havia tanta comodidade, está
certo. Eu tinha de restringir-me ao canto estratégico da cama,
colando-me à parede e formando um ângulo que impedia a visão desde o
banheiro. Eu, ao menos, não a via. Ela, não sei se alguma vez me viu, se
viu meu susto a concentrar-se na mão, se descobriu em mim a minha
descoberta, se me viu a descobrir-me. Creio que não. Mas não me viu
porque sabia o que eu estava fazendo ali, percebia meus esforços em
ajeitar os armários, e nas vezes de mais coragem, de fechar-lhe a porta,
argumentando um ruído qualquer. Ela não entraria para me flagrar.
Depois, na escola, o prazer era ouvir os colegas contarem suas
histórias, enquanto eu omitia as minhas. Eram minhas. Eu à margem. Havia
aqueles que contavam as histórias, sobretudo os fracassos, os
flagrantes, o desmaio da mãe, o olhar severo do pai por trás dos óculos,
cínicos e cúmplices, as revistas erroneamente escondidas embaixo do
colchão, as surras, as lendas, as verrugas na mão. As lendas, na
verdade, pouco me interessavam. E havia os que não entendiam, os
desinformados, que ora recebiam as chacotas e as risadas cruéis dos
demais, ora sentavam-se às suas mesas e deixavam os olhos humilde e
atentamente absorverem aquele novo conhecimento, alunos mais aplicados
do que em qualquer outro momento do dia. Eu, à margem. Dava sempre um
jeito de sentar-me de viés, de postar-me na exata linha divisória entre
os dois grupos, limitando-me a meu limbo de sonho e palavra. Observando
uns, observando outros.
Na volta da escola, menino oculto e anônimo a vaguear pelas ruas,
passava numa banca, cada vez uma nova. Aí, nada era vago. A uma
distância segura estabelecia o mapa e repassava mentalmente a
estratégia. Geralmente, começava pelos jornais. Ler a manchete era
suficiente. Nas revistas diversas tinha de me ater um pouco mais,
demonstrar interesse por alguma, folhear. Folhear era toda uma arte. Não
se pode percorrer as páginas rápido demais, senão o teatro se faz
perceptível. O ideal é vasculhar o sumário, estabelecer também o mapa da
revista. Escolher páginas precisas a serem vistas ou ao menos se dirigir
a qualquer página como se fosse a página a ser vista. Ler. Sim, é
preciso ler para que o teatro funcione. Ler até que o vendedor esteja a
ponto de pronunciar qualquer coisa, de reclamar. Esse é o momento.
Larga-se a revista e se pode passar livremente à seção cobiçada. Ainda
nada está garantido, no entanto. Não se pode escolher, é preciso ser
rápido, verificar o preço e já separar o dinheiro. Pagar, não encarar o
vendedor e ir-se. Não voltar mais. Eu, ao menos, não voltava.
Para revistas, o lugar apropriado era o banheiro. Atravessando a casa
polvilhada de vozes crescentes, trancava-me e dispensava os preâmbulos,
pois alguém podia dar-se conta da demora. Ali, folhear deixava de ser
arte. Era puro instinto, puro prazer, um processo que nem sei descrever.
Sei descrever alguns dos corpos que ali conheci, algumas das curvas
agora descravadas da memória. De início, mulheres semi-nuas. Depois,
nuas. Depois nuas e escancaradas. Depois, mulheres e homens, juntos,
tudo. E as histórias. A melhor parte eram as histórias, que eu lia e
relia por meses a fio. Todas elas tornando-se minhas, eu em toda parte,
vivendo-as e guardando-as, minhas, completando meu vasto inventário
pessoal.
Quando já as conhecia de cor, era hora de livrar-me delas, por medida de
segurança. Caminhava até a praça próxima à casa e esperava que se
esvaziasse. Enquanto esperava, me despedia. Sem tristeza, como alguém
que se desfaz de algo que já lhe pertence, que não deixará de
pertencer-lhe. Como quem abre a gaiola de um passarinho já velho,
engaiolado desde criança, para que ele viva seus últimos dias em
liberdade. Quando já não havia ninguém e tudo era marasmo e tudo era
silêncio, eu as abandonava. Ali, deitadas ao ar livre, nuas para quem as
encontrasse.
Depois vieram as mulheres, é claro, as de carne e palavras. Vieram as
meias que eu atirei na esquina das paredes, as saias que se deitaram
para as blusinhas, o primeiro sutiã que eu desenganchei com desespero
como quem rasga o plástico que envolve uma revista. Vê-los, era tudo o
que eu queria. Depois os toquei, é claro, mas tocar era ver minha mão a
tocar nos seios. E depois ver meu peito afogá-los e uma mão alcançar-me
sem o jeito da minha. Uma mão esquerda sob o espectro dos meus olhos
abertos. Os dela fechados. Sim, confesso que vivi também ali.
O meu corpo se despegando do corpo da mulher era a porta enferrujada da
gaiola que eu abria. E muitas gaiolas abri, muitas vezes senti o
descolar da minha pele de outra pele, e o caminho até a porta, onde eu
os dispensava, aqueles corpos nus, era o caminho de volta da praça,
tranqüilo, sedutoramente só. Em outras noites, nas vazias como as
antigas, voltava a vê-las, aquelas mulheres, enquanto me despia em meu
quarto nu, e muitas vezes podia alimentar-me só da escuridão, sem a
necessidade das sombras zapeadas da televisão. Tinha-me a mim, às minhas
histórias, e às mulheres todas, estampadas ou não. Eu e as minhas
lembranças, a acariciar-me os pensamentos. Eu me bastando na solidão das
madrugadas. E vivendo, vivendo intensamente.
Ela. A primeira noite em que meu corpo se separou do dela sequer percebi
que a abertura da gaiola se adiara. Distraído, caminhando o caminho
conhecido até a porta, não pude me dar conta de que o som metálico só se
produzira no ranger do portãozinho do jardim, e não no despegar dos
corpos. Adiara-se a despedida, adiara-se a revoada, uma diferença de
vinte passos, está certo, de vinte batidas de asa, mas ainda uma
diferença. Nessa noite, ela se foi e meus olhos a seguiram, como de
costume, a caminhar até o portãozinho e de lá até seu carro, sim, meus
olhos a seguiram, mas eu não pude acompanhá-los. Não observei a mim
mesmo a vigiar os passos dela e não vigiei as imagens que em mim não se
criaram. Ela se foi e eu restei só, ignorante do pequeno vazio que ali
se estabelecera em minha mente.
Numa noite posterior, no entanto, num corpo posterior, o estranho já não
se escondeu nas sutilezas imperceptíveis. As meias se espatifaram
corriqueiramente contra a parede, mas o vestido que eu deitara dobrado
no piso sussurrou-me um ruído pouco habitual. Sussurrou-me num sopro
repentino o nome dela. E aqueles outros seios que minha mão alcançava
subitamente tornaram-se os dela. Eram dela os cabelos que se emaranhavam
nos meus, era dela a mão que me encontrava por debaixo dos lençóis. E os
lençóis tapavam-me os olhos e eu, eu os fechava. Fechava os olhos e a
via, na cor morena dos lençóis, no cheiro doce de seus cabelos que me
invadiam a boca, no gosto liso deles a arrastar-se por minha língua.
Nessa noite, meus olhos já não perseguiram o corpinho do pássaro que se
ia. Nessa noite, aliás, nenhum passarinho se ia. Iam-se passos estranhos
que meus olhos não podiam perseguir, com ou sem o meu consentimento.
Meus olhos sobravam-me dentro de minhas pálpebras, meus olhos fechados
em mim mesmo. Foi-se outra. E eu me encontrei só, a porta trancada, as
cortinas fechadas, a luz apagada, na escuridão outrora tranqüila dos
meus pensamentos, no universo rotundo das minhas lembranças.
E então, foram elas, as lembranças, minhas mais cruéis traidoras. Sim,
os pensamentos. Foi nessa noite e noutras de solidão, nessas como as
antigas, que tudo se perdeu. As mulheres, as abandonadas no chão da
praça, as despedidas no vão da porta, as vacilantes da tela de tv, todas
elas, começaram a esvair-se. Todas elas a desintegrar-se da memória, a
perder nitidez, a embranquecer, a abandonar-me. Todas as gaiolas sendo
arrebentadas, as novas, as antigas, seu ferro dobrado, arregaçado,
partido e todas a fugir de mim. Todas elas, menos uma. Todas elas
tornando-se uma.
E essa uma, essa que me invadiu as idéias e expulsou todas as outras
dali, essa que me roubou o silêncio das madrugadas, que arrombou as
portas trancadas e as janelas antes fechadas, que me roubou a nudez,
compilou suas próprias meias na esquina das paredes e enfiou-se entre o
tecido das roupas, essa protagonista ubíqua de todas as histórias, me
bastou por exatos dois anos. Eu feliz, meus olhos felizes, abrindo-se e
fechando-se e vendo-a sempre. Vendo-a ali, minha, me bastando e me
roubando a vida.
Eu feliz por dois anos, o relógio marcando a exata meia-noite, até vê-la
meia hora esfregando seu corpo contra o meu e a outra meia a entregar-se
ao amigo no escritório anoitecido. E ela, à uma, a encostar-se sôfrega
no banco do ônibus, a coxa roçando outra coxa, uma outra mão
invadindo-lhe a camisa que ela mesma desabotoara, dois braços
estendidos, roçando-se e conjuntamente puxando a cordinha. Ela, às três,
a esconder-se no banheiro de um bar sujo, espremendo outro corpo contra
a porta destrancada e percorrendo-o de cima a baixo, o outro imóvel,
suas mãos segurando-lhe os cabelos doces e lisos. Às cinco, no banco de
um carro veloz, envolvendo outra boca em sua boca. E, de repente, horas
passadas, desabando o desmaio da mãe e despontando no reflexo dos óculos
cúmplices e cínicos do pai.
Ela, no amanhecer desse último dia. Eu, não podendo mais. Desde então,
não pude viver mais.
JULIÁN FUKS é autor de Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e
eu (7 Letras, 2004), coletânea de contos vencedora do Projeto Nascente
(USP) em 2003.
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